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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Cellos do rock and roll (2010)


Entusiasmada com a música que ouve, uma garota aparentando 15 anos subitamente se ergue da cadeira do teatro, começa a correr e, sem que os seguranças consigam detê-la, pula no palco e beija um dos músicos. Uma cena até certo ponto comum no universo do rock, mas com certeza inusitada na música erudita, mesmo se considerarmos que o músico beijado faz parte da Orquestra de Violoncelistas da Amazônia, cujas performances atuais lembram muito a de bandas de rock. O mais incrível, porém, é que a cena aconteceu num país de tradições tão rígidas como a China, onde a Orquestra se apresentou em agosto de 2010, como único grupo brasileiro selecionado para a 29ª Conferência da Sociedade Internacional de Educação Musical (ISME), em Pequim.


Foto: Renato Reis


Ao embarcar para a China, o grupo ainda se chamava Orquestra Juvenil de Violoncelistas da Amazônia. No retorno a Belém, o maestro Áureo de Freitas retirou o termo “Juvenil” do nome, por entender que o adjetivo estava soando pejorativamente e vinha prejudicando os convites para apresentações. Por motivos idênticos, a palavra “Infanto” já saíra do nome há algum tempo – o grupo se chamava Orquestra Infanto-Juvenil de Violoncelistas da Amazônia, quando foi criado, em 1998, em conseqüência do sucesso do 1º Encontro de Violoncelistas da Amazônia, por sua vez um resultado direto do desempenho apresentado pelos alunos do projeto Violoncelo em Grupo, também implementado em 1998 na UFPA, onde Áureo é professor efetivo de violoncelo desde 1994.

Na época, o repertório da Orquestra era formado por clássicos de autores como Bach, Villa-Lobos e Saint-Saëns. O desempenho dos jovens músicos paraenses gerou convites para três turnês no Rio de Janeiro (2000, 2001 e 2004), Estados Unidos (2002) e Holanda (2004) e para a gravação de dois programas de rádio e um de TV para a BBC.

A ligação mais forte com o rock se deu a partir de 2007, quando Áureo foi convidado a escrever o arranjo de “Kashmir”, do Led Zeppelin, para que a Orquestra o interpretasse ao lado de Jimmy Page em Londres (o que acabou não se concretizando) e também por uma vontade dos próprios músicos (Áureo permite aos alunos escolher o que querem tocar, e foi essa “terceira geração” que pela primeira vez apontou o rock como uma preferência). O público de Belém pôde conhecer esta nova fase no concerto realizado no Theatro da Paz em novembro de 2007, em que a Orquestra teve como convidados a banda Madame Saatan e os cantores Edmar Rocha (do Mosaico de Ravena), Márcia Aliverti e Juliana Sinimbú: “Teve garoto se jogando no chão, violoncelista colocando violoncelo na cabeça... foi aí que realmente a nossa vida foi transformada”, recorda Áureo.

Outro momento marcante foi a participação da Orquestra no Conexão Vivo Belém, em junho de 2010. O grupo foi o único representante do Norte a chegar ao evento por votação popular na internet – foram 1106 votos recebidos, atrás apenas de três bandas de música popular do Sudeste. Apesar disso, o que aconteceu surpreendeu muito o maestro: “Nunca imaginei a gente tocar pra 15 mil pessoas, fãs gritando, assédio... aquilo foi demais! Depois do concerto com Madame Saatan, esse foi o ponto mais alto da nossa carreira”.

Para a continuidade da carreira, os planos incluem a gravação do primeiro CD ao vivo em 2011 e uma turnê pela Grécia em 2012.


  • Making-off do texto - Escrito em 21.11.10 para o Pará Música, com o  título Orquestra de Violoncelistas da Amazônia








terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Álibi de Orfeu (2010)

Álibi de Orfeu em 2011:
Elaine Valente, Rafael Mergulhão, Sidney KC,
Rui Paiva e Gláfira Lobo
(Foto: Victor Estácio)


Quando indicou o baterista Rui Paiva para acompanhar a cantora Gláfira Lobo num show do Festival Cultura de Verão, em 2003, o radialista Beto Fares jamais podia imaginar que daria origem a uma nova fase, justamente a mais duradoura, da banda Álibi de Orfeu. Rui retornava a Belém depois de um período no Rio de Janeiro e procurava uma cantora para a banda que fundara no final dos anos 80. Já Gláfira fazia bastante sucesso nos bares Carpe Diem e no Café Imaginário cantando com a banda Os Normais. Seu destaque na cena local lhe valeu vários convites para shows, sendo dois no programa Cultura in Concert, da rádio Cultura FM (o primeiro para o show coletivo especial do Dia Internacional da Mulher; o segundo já para um programa inteiro só dela) e um terceiro para o já citado show no Cultura de Verão.

Gláfira encarou o desafio de, vindo da MPB, tornar-se vocalista de uma banda de rock com repertório autoral; desde então mantém em paralelo sua carreira solo e o trabalho na Álibi. Na mesma época, ingressou no grupo o baixista Sidney KC, ex-integrante das bandas de heavy metal DNA e Jolly Jocker, nas quais se destacava por ser um raro baixista de rock a fazer solos. A soma de suas influências com o toque black music e funky de Rui resultou no som atual da Álibi, definido pelo jornalista Nicolau Amador como “uma mistura fina de pop e hard rock, com uma pitada elegante de MPB”. Em 2004, após a gravação do CD-demo Quem Foi que Disse que a Vida Era Fácil?, o guitarrista Sergio Barbosa juntou-se ao trio. Sergio saiu em 2009; atualmente, a banda toca com guitarristas convidados.

Em abril de 2010, lançou pela Na Music o CD Só Veneno, gravado de 2006 a 2007. Com participações de Edgar Scandurra e Frejat, o álbum tem sido bem recebido pela crítica. Entre 2007 e 2009, Álibi de Orfeu abriu shows em Belém de nomes como Paralamas do Sucesso, CPM 22 e Pitty; Gláfira foi convidada para cantar com o Ira! Rui e Sidney tem participado dos concertos em que a Orquestra de Violoncelistas da Amazônia interpreta clássicos do rock.

Antes da entrada de Gláfira e Sidney, o Álibi teve diversas formações, sempre com vocal feminino e tendo Rui como baterista. Nessa fase, lançou um CD, Álibi de Orfeu (1992), e participou de programas em rede nacional, como o Programa Livre, de Serginho Groissman, no SBT. No show dos 10 anos do Circo Voador, no Rio de Janeiro, o Álibi tocou ao lado de Cássia Eller.

  • Making-off do texto - Escrito em 21.10.10 para o Pará Música; o título do .doc nos meus arquivos ("alibi-versaoCORRIGIDA") indica que esta deve ter sido, pelo menos, a terceira versão do perfil da banda (já que pouco antes eu salvara outro arquivo como "alibi-novaversao"). 
  • Esta versão do texto nunca saiu em lugar nenhum. Ele foi publicado no Pará Música em 6.5.11, com o título "Os clássicos nunca morrem" e bastante alterado, já que ao longo desse meio ano a banda mudou bastante sua formação, com a saída de Gláfira, substituída por Gabriella Florenzano (que ficou na banda até o final de 2011), e a entrada dos guitarristas Rafael Mergulhão e Elaine Valente. 
  • Tive uma participação episódica na origem dessa formação de 2011 do Álibi: foi a mim que Rui Paiva telefonou em busca de contato com Rafael Mergulhão, que filmara parte de um show de Nanna Reis que eu dirigira em 2010. Semanas depois, Rui Paiva anunciou como novos guitarristas do Álibi Rafael Mergulhão e Elaine Valente, guitarrista da banda que eu ajudei Nanna a montar no segundo semestre de 2010. Elaine Valente tocou no Álibi até o final de 2014. 
  • Atualmente o Álibi de Orfeu é formado por: Karen Iwasaki (voz), Rafael Mergulhão e Sabá Netto (guitarras), Sidney KC (baixo) e Rui Paiva (bateria).