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quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O Marabaixo no Amazonas

Que o Marabaixo surgiu no Amapá é assunto fora de questão. O único relato conhecido de festa de Marabaixo fora do Amapá é o apresentado pelo antropólogo Nunes Pereira em seu livro O Sahiré e o Marabaixo, cuja primeira edição é de 1951, e que pude consultar em sua edição de 1989 na Biblioteca Pública Elcy Lacerda (Macapá), em 26 de janeiro de 2016, ocasião em que fiz as fotos que ilustram este post. 

Depois de visitar Macapá e Mazagão Velho em agosto de 1949, Nunes Pereira esteve no ano seguinte em Marabitanas, no Amazonas. Marabitanas está situada no distrito de Cucuí, no município de São Gabriel da Cachoeira, às margens do Rio Negro, na tríplice fronteira do Brasil com a Colômbia e a Venezuela. O local já abrigou o Forte de São José de Marabitanas, cuja construção iniciou em 1763, e que não mais existe; em seu lugar, estão hoje uma capela, uma escola e algumas casas, onde moram aproximadamente 80 pessoas – situação não muito diferente da encontrada por Nunes Pereira, pois em seu livro ele classifica Marabitanas como “lugarejo inexpressivo”, “célula insignificante da vida do município”.

Não era assim um século antes, segundo o naturalista britânico Alfred Russel Wallace, que visitou o local em 1851:

Os habitantes de Marabitanas são famosos pelas suas festas. Costuma-se dizer na região que eles passam a metade de suas vidas nas festas e a outra metade preparando-se para elas… (...) Mais ou menos uma ou duas semanas antes de cada festa – que sempre coincide com um dia santo da Igreja Católica Romana – um grupo de dez ou doze moradores sai de canoa pelos arredores, visitando todos os sítios e aldeias indígenas situadas num raio de 50 a 100 milhas, levando consigo a imagem do santo a ser homenageado, diversas bandeiras e alguns instrumentos musicais. O grupo é bem recebido em cada casa por que passa. Os moradores fazem questão de beijar o santo e dar algum presente para sua comemoração. O presente pode ser um frango, ou alguns ovos, ou um cacho de bananas, ou até mesmo dinheiro. É comum reservarem animais ainda vivos para servirem de presente a um determinado santo. Aconteceu-me muitas vezes chegar a um sítio para comprar provisões e receber respostas como ‘aquele porco é o de São João’, ou ‘esses frangos pertencem ao Divino Espírito Santo’ etc”. 

De todo modo, moradores de Marabitanas relataram em 1950 ao antropólogo a presença de Marabaixo em suas comemorações da Festa do Divino Espírito Santo. O mastro do Divino era levantado em frente à capela de Marabitanas, sem haver a preparação com a busca da murta (que Nunes Pereira chama de “bater murta”). Depois da levantação, havia um cortejo aberto por uma “madrinha” conduzindo a bandeira do Divino, à frente do Imperador ou da Imperatriz. No primeiro domingo da festa (o autor não informa a duração dos festejos), havia, como diziam os moradores de Marabitanas, “‘dança grossa’, dança do Marabaixo, com um tocador de caixa que a dirige e faz o solo, a que os foliões correspondem, com as vozes das mulheres, homens e crianças cantando versos”. O último dia da festa era marcado pela eleição não só dos festeiros do ano seguinte, como também de “juízes, juízas, mordomos, porta-bandeiras”, num total de 60 funções. Após o almoço, os nomes dos eleitos eram lidos em frente à capela, derrubando-se então o mastro com “Marabaixo e muita folia”. 

O antropólogo apresenta em seu livro uma série de versos que eram cantados na festa, cada um em um momento específico (“Alvorada”, “Às Seis Horas, “Ao Meio-Dia”, Antes da Reza”, “Depois da Reza”, “Coroação” etc.), numa estrutura mais próxima, por exemplo, da Folia de Reis, com suas canções de chegada e de despedida, do que das celebrações atuais do Ciclo do Marabaixo em Macapá, onde a cantadeira ou o cantador que estiver como solista tem liberdade para escolher qual ladrão irá interpretar, ou mesmo improvisar. Abaixo, uma das páginas com os cantos, recolhidos por Nunes Pereira no caderno de um morador local, conservada a ortografia da época. Nunca ouvi em Macapá estes cantos, nem nenhum dos outros citados no livro como pertencendo ao Marabaixo de Marabitanas. 




Já a presença de um Imperador do Divino guarda semelhanças com algumas celebrações atuais da Folia do Divino Espírito Santo pelo país, como as das cidades de Palmas de Monte Alto (BA), Nova Roma e Pirenópolis (GO), Santo Amaro da Imperatriz (SC) e Alcântara (MA), além do Vale do Guaporé, em Rondônia, fronteira com a Bolívia (cujo trajeto passa por 37 cidades brasileiras e bolivianas). Apenas nas festas de Santo Amaro da Imperatriz e de Alcântara existe a figura da Imperatriz do Divino, mas sempre ao lado do Imperador, e não como soberana única da festa, o que, segundo o relato de Nunes Pereira, acontecia eventualmente em Marabitanas.

E como o Marabaixo teria chegado a Marabitanas? Segundo Nunes Pereira, “aquela tradição” fôra “levada para Marabitanas de Santarém e de Alter do Chão [sic!], dos campos de Macapá e Mazagão Velho, naturalmente – dada a subordinação do Amazonas [até 1850] à vida administrativa, política e econômica do Grão-Pará”. Salvo se o autor estiver se referindo ao trajeto que africanos e/ou afrodescendentes do Amapá que dançavam o Marabaixo tenham feito para chegar a Marabitanas, esta seria a única menção em sua obra (e, de resto, em todo o material que conheço) de que poderia ter havido Marabaixo naquelas duas cidades paraenses. Agradeço se alguém puder me enviar informações a respeito. 

Este mapa no final do livro mostra como Marabitanas é distante de Macapá (são 1.755 km em linha reta, trajeto naturalmente impossível de ser feito, ainda mais em meio à Amazônia). Macapá está na parte superior direita e Marabitanas à esquerda - clique no mapa para melhor visualização).




O livro não traz fotos do Marabaixo em Marabitanas. Das poucas fotos do Marabaixo em Macapá, selecionei esta que mostra a colheita da murta nas matas do Curiaú, provavelmente feita em 1949, quando da passagem de Nunes Pereira por Macapá. 



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