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sábado, 4 de julho de 2015

Ouvimos: Independente - Clepsidra
















Logo após o show de lançamento do CD Independente, na Sala Mestre Laurentino da loja Ná Figueredo da av. Gentil Bittencourt (Belém), Renato Torres (voz e guitarra da Clepsidra) me garantiu que, quando a banda escolheu o nome do disco, não imaginava o quão conceitual ele acabaria se tornando - isso porque, não obtendo patrocínio via leis de incentivo, o disco acabou saindo bancado pelos próprios músicos. Mas talvez não haja coincidências e tudo já esteja escrito - como diria a protagonista da minissérie Presença de Anita, de Manoel Carlos, exibida pela TV Globo em 2001. Digo isso porque a faixa que dá nome ao CD é uma parceria de Renato com Felipe Cordeiro, que homenagearam o músico paulista Itamar Assumpção (1949-2003). Itamar foi um dos líderes da Vanguarda Paulista, movimento dos anos 1970-80 que levou artistas como Arrigo Barnabé e bandas como o Grupo Rumo e Premeditando o Breque a romper com a política das gravadoras e lançarem seus discos de forma...independente (rá!). Inclusive o segundo LP solo de Itamar, lançado por ele mesmo em 1981, se chamou Às Próprias Custas S/A. 

O terceiro disco da Clepsidra, assim como os dois anteriores, chega ao público através do selo Na Music. O primeiro, Bem Musical, em 2004, foi lançado com a classificação de 'Rock'. O segundo, Tempo Líquido, de 2006, foi anunciado como de 'Nova MPB'. Já Independente não me parece tão fácil de rotular (fora que eu sempre questiono a real utilidade de um rótulo, mas enfim... ao menos ajuda as pessoas a entender do que você está falando). O resultado sonoro do disco ora lançado me parece somar as duas influências, e outras mais - basta lembrar que, lá por dezembro de 2009, ou seja, pouco tempo antes da gravação do Independente, o baterista Arthur Kunz havia criado um trio de... jazz, que teve curta duração. Nessa época, Kunz já respondia também pela bateria da Clepsidra. A banda existe desde 2001, e sempre teve como membros fixos Renato Torres e o baixista Maurício Panzera, que costumavam então chamar diversos convidados na hora de gravar os CDs. Foi de Kunz a ideia de, no Independente, ter apenas o trio, sem participações vocais nem instrumentais (o que, além de para mim reforçar a ideia expressa no nome do disco, fazia todo sentido num momento em que a Clepsidra tocava e gravava direto nos shows e CDs da maior parte dos nomes emergentes da cena MPB de Belém, entre os quais Juliana Sinimbú, Aíla, Arthur Nogueira, Felipe Cordeiro, Joelma Klaudia e Gláfira). O CD foi gravado entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011 no APCE Music por Assis Figueiredo e Ulisses Moreira, e mixado e masterizado em 2012 por Ivan Jangoux no no Vintagge Studio da AM&T (cujo proprietário, Kim Azevedo, co-produziu o CD junto com a banda). Os nomes e grifes citados estão entre os melhores de Belém em suas respectivas áreas, o que resultou num CD de excelente qualidade sonora. 

Durante os três anos entre a finalização e o lançamento do CD, cada componente do trio trilhou rumos próprios. Renato Torres, além de fazer inúmeras parcerias, lançou carreira solo em 2012, por ocasião da estreia do show Vida é Sonho. Maurício Panzera se dedicou ao ensino de música e atuou na noite de Belém ao lado de vários artistas, chegando a ser diretor musical da cantora Joelma Klaudia. Já Arthur Kunz criou em 2011, ao lado do guitarrista Leo Chermont, a banda Strobo, que intensificou a agenda de shows pelo Brasil todo que ele já fazia como integrante de projetos dos conterrâneos Felipe Cordeiro, Luê e Aíla. 

O show do dia 27 não contou com Kunz; nele, Renato e Panzera contaram com a participação do tecladista Rodrigo Ferreira e do baterista Emmanuel Penna. Ao vivo, as 8 canções do disco apresentadas (de um total de 12) me soaram bem mais rock do que na posterior audição do CD (onde, como já falei, se equilibram as diferentes influências do trio que o gravou).




A maioria das 12 faixas do CD nasceu como poema, e só depois ganhou música. Inclusive a única faixa cuja letra não é de Renato Torres: "Voragem", poema de Larissa Medeiros que ele musicou e que é uma das músicas que eu mais amo nesta vida - conheci a canção interpretada por Aíla num show de 2009; esta é a primeira gravação desta composição. As duas faixas que não nasceram de poemas são "Serena", que é a única parceria de Renato com Kunz (o baterista mostrou a melodia a Renato, que fez depois a letra e a melodia da parte B) e "Pedra Filosofal", outra parceria de Renato Torres com Felipe Cordeiro. A melodia de Felipe foi complementada e ganhou letra de Renato.

Mesmo com todo o tempo que decorreu entre a gravação e o lançamento, apenas duas músicas do Independente já haviam saído em outros discos: "Além-Mar" (parceria de Renato com Dionelpho Jr., incluída no CD Sonho Bom de Fevereiro, gravado por Juliana Sinimbú em 2010 e lançado na internet ano passado) e "Samba sobre Nada" (parceria de Renato com Henry Burnett, incluída por Gláfira no CD Jardim das Flores, de 2012). 

Embora acabem formando um todo coerente - são centrais no disco as referências a amor, ao local versus o global, a coerência artística versus a ostentação -, os poemas de Renato que viraram canções do Independente nasceram em diferentes ocasiões. O mais antigo é "Sobremesa", que Renato lembra de ter cantado no Teatro Margarida Schivasappa em 1994 - nesta letra, musicada pelo próprio Renato, e que se apóia numa metáfora bastante usada de comparar a consumação do amor a uma refeição, destaco o trocadilho descubra longo o meu segredo e, logo a seguir, um jogo de palavras onde não se sabe mais quem irá abater quem (abra a porta sem pressa/ pise com graça, abrace a presa/ que te espera devorar). "Guamá" (letra de Renato, música de Panzera) remete ao rio de Belém que passa pelo bairro com o mesmo nome (onde fica o home studio de Renato, o Guamundo) - além de falar em bairro antigo, Renato diz que o Guamá afunda surdo. Em "A Volta do Mundo", no verso começo reverso, Redenção deserta em pleno Bom Fim, há claras referências a conhecidos pontos de Porto Alegre (ao parque Farroupilha, popularmente chamado de Redenção, e ao bairro onde o parque se localiza) - é bom frisar que esta referência à capital gaúcha é quase episódica numa letra que o eu-lírico se dirige inicialmente a uma bela moça que viu passar, e que não percebeu os olhares a ela dirigidos, e segue falando dos efeitos do tempo e do frio sobre o eu-lírico. Já "Paraíso", letra de Renato musicada por ele mesmo junto com Panzera, nasceu de uma passagem por São Paulo, mais exatamente pela estação de metrô do bairro Paraíso - talvez por isso a referência a mente descarrilada nesses trilhos do mundo junto a menções a Adão, Eva e o fruto proibido. Renato parece falar do mesmo episódio bíblico na letra de "Serena" - digo parece porque, ao mesmo tempo em que fala em serpente e maçã, há uma menção a veneno - o que poderia tornar esta maçã não a oferecida pela serpente a Eva, e sim a que a bruxa induziu Branca de Neve a morder. Felizmente, assim como eu já comentei que não vejo necessidade de usar rótulos para classificar música, também já desisti da tentação de "encontrar as respostas certas" ao comentar uma obra de arte.




Falando em obra de arte, não consigo pensar em outra classificação para a canção que já ganhou as rádios de Belém e que considero a melhor faixa do disco: "Pedra Filosofal", É daquelas músicas que você ouve uma vez e passa o dia inteiro com ela na cabeça. A nosso pedido, Renato Torres postou esta faixa no Soundcloud da Clepsidra. Curte aí ;)



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