Aqui se fala do som dos estados do Norte do Brasil: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Foi Show: Mostra Mutum

Palmas - Estou desde sexta, 10 de julho, no Tocantins, onde vim acompanhar o Mutum - 1ª Mostra de Música Instrumental e Cultura Popular do Tocantins. É isso mesmo, você não leu errado: o evento propôs uma mistura de vertentes no mínimo inusitada - ao menos eu não sei de outro festival com proposta idêntica. Quem compareceu a Taquaruçu (distrito ecoturístico a 40km de Palmas) onde as atividades do Mutum se desenvolveram nos dias 10,11 e 12, pôde comprovar o acerto da ousadia do diretor geral do evento, o produtor cultural e educador musical Diego Britto.

As manhãs do evento foram integralmente dedicadas à cultura popular. Não pude acompanhar na manhã da sexta, em função de estar chegando à capital, a cantoria indígena, seguida de café da manhã tradicional com paparuto (comida típica do povo Krahô, feita com mandioca ralada misturada a pedaços de carne de porco, que são enterrados entre brasas) e roda de conversa indígena. Nos dias seguintes, fiz questão de madrugar para não perder esta parte da programação que proporcionou momentos únicos.


No sábado, logo cedo, acompanhei um cortejo em honra ao Divino Espírito Santo reunindo foliões das comunidades de Natividade (de vermelho na foto acima) e Monte do Carmo (de camisa violeta) pelas ruas de Taquaruçu, com paradas na igreja de Nossa Senhora do Rosário e na casa do devoto Selcimar Cirqueira. Chegando ao espaço Terreiro dos Povos, fomos recebidos por uma mesa de folião, um café da manhã com produtos típicos (biscoitos de polvilho, sucos e frutas da estação, como melão e banana). Findo o café, arredou-se a mesa para se realizar uma roda de viola e catira.


Roteiro semelhante foi seguido na manhã do domingo pelo Cortejo Jalapeiro, reunindo quilombolas de Barra do Aroeira (município de Santa Teresa do Tocantins) - incluindo Nilo José, que conheci em Porto Alegre durante o Acorde Brasileiro 2009, pouco tempo após lançar o Som do Norte (na foto ao lado, Nilo está de chapéu e camisa amarela, tocando viola de buriti) - ouça aqui a entrevista que fiz com ele há quase 6 anos. Desta vez o cortejo não fez paradas no trajeto, indo direto da Praça Joaquim Maracaípe ao Terreiro dos Povos, onde se repetiu o café típico, seguido de contação de histórias pela escritora Irma Galhardo e apresentação de danças típicas da comunidade quilombola, como a dança do lenço, o maculelê dançado com bastões e facões e a suça de mulheres. Identifiquei uma herança africana direta muito preservada no grupo, o que logo compreendi quando dona Isabel Rodrigues, uma liderança da comunidade, contou a história de Barra do Aroeira: o povo quilombola ali presente vive em terras dadas pelo imperador Dom Pedro II ao patriarca da família Rodrigues, o soldado negro Félix José Rodrigues; a doação foi um reconhecimento pela bravura demonstrada pelo militar durante a Guerra do Paraguai (1864-70). Todos os moradores do local descendem de Félix José, falecido em 1915. 

O evento também contou com diversas oficinas, a maioria voltadas para músicos, nesse caso tanto os da vertente música instrumental (como, por exemplo, o Workshop de Bateria e Improvisação Coletiva, na manhã do sábado) quanto da cultura popular (como o Encontro de Rabequeiros e Violeiros de Buriti, na tarde do domingo, que ensinou a construir instrumentos e culminou numa roda de viola). Houve ainda uma oficina focada em cultura popular, sem vínculo com música - a de Benzimento e Fitoterapia, na tarde do sábado. 

A separação entre as duas vertentes se diluiu na parte mais visível do Mutum, a programação de shows do palco Sumidouro, junto à praça Joaquim Maracaípe. Assim como houve momentos mais focados na cultura popular - a abertura dos três dias era sempre com o grupo, ou os grupos, que haviam feito vivências pela manhã (cantadores indígenas na sexta, roda de suça com os Catireiros da Natividade e o Grupo Mãe Ana no sábado e os violeiros e rabequeiros de buriti no domingo; todos estes foram momentos que transmitiam grande emoção e encantamento por evidenciar a riqueza da tradição tocantinense) - e outros totalmente ancorados na música instrumental (como o belo show que encerrou a programação do sábado, reunindo o violonista Felix Junior e o gaitista Gabriel Grossi - foto abaixo -, cujo repertório incluiu Astor Piazzolla e Villa-Lobos), também tivemos, já na sexta, o show do grupo Três Matutos e Um Arigó, que promoveu releituras jazzísticas de clássicos de Luiz Gonzaga e Dominguinhos. Outro momento de destaque na aproximação entre as duas vertentes do festival foi no sábado: Paraíba dos 8 Baixos, músico de Taquaruçu, foi acompanhado pelo grupo do guitarrista  tocantinense Paulio Celé, que havia feito o show de encerramento da sexta. 



No sábado, Leandro Medina surpreendeu com bons sambas e referências às tradições de seu estado natal , o Pará. enquanto o Duo Negróide, formado pelos goianos Edilson Morais (percussão) e Luciano Clímaco (guitarra) misturou sons da África com eletrônica, tendo duas participações especiaís: a de Dorivã, um dos maiores nomes da música do Tocantins, e do rabequeiro Jeferson Leite, que havia feito o show mais arrebatador da sexta - 90 minutos de forró que colocaram todos da praça Joaquim Maracaípe para dançar forró, xote, baião e xaxado. Jeferson demonstra ter a "pegada" de um Hermeto Paschoal ao sentir a vibração do público e devolver a este o que ele espera, criando uma verdadeira sintonia entre palco e plateia. 

O domingo teve apresentação do Palmas Música, grupo de formação e repertório eruditos (que teve como destaque a interpretação de "Uirapuru", do paraense Waldemar Henrique, e que encerrou com um portentoso arranjo de "Carinhoso", de Pixinguinha) e dois dos shows mais marcantes do Mutum, exatamente os dois que encerraram o evento. Falo de Tambores do Tocantins e do show que reuniu os cantadores e violeiros Juraildes da Cruz (TO) e Xangai (BA)(foto abaixo). 



O grupo Tambores (que tem entre seus integrantes Diego Britto, diretor do Mutum, como baixista) promoveu um verdadeiro passeio pelo repertório de várias partes do Brasil, indo de "Coroné Antônio Bento", do maranhense João do Vale e do alagoano Luiz Wanderley, a "Tambor de Couro", do paraense Ronaldo Silva, passando por temas dos tocantinenses Dorivan e Juraildes da Cruz. A baiana Selma de Oliveira, de Jequié, que veio a Taquaruçu especialmente para acompanhar o Mutum, chegou a comparar a qualidade do trabalho de Tambores do Tocantins à do mundialmente famoso grupo Olodum, de sua terra. Foi um dos shows mais animados do Mutum inteiro, com todos na praça dançando muito.

Depois da dança, a audição atenta. O público que se manteve na praça até por volta da 1h30 da segunda-feira, 13, foi premiado por um belíssimo show de Xangai e Juraildes, no qual o baiano homenageou seu parceiro tocantinense, interpretando clássicos como "Vida no Campo" - a dos versos A vida no campo é fruta madura/ Amizade é coisa pura, é mel no coração/ Gado no curral, cuscuz com leite/ Café com queijo, eu gosto é de um requeijão...

Aliás, falando em comida. Um dos acertos do evento foi credenciar comerciantes de Taquaruçu para oferecer opções gastronômicas para o público do Mutum. As barracas ficavam dispostas de forma que quem queria fazer um lanche não precisava parar de ver os shows, como às vezes acontece em eventos desta natureza. As opções eram as mais diversas, de beijus e pastéis, até o cuscuz recheado da chef Mary Help. E para beber, as opções variavam de sucos de frutas típicas da região até cervejas artesanais. 

As fotos que ilustram o post foram retiradas do blog do evento


* Fabio Gomes esteve em Taquaruçu a convite da produção do evento.

Nenhum comentário:

Postar um comentário