Aqui se fala do som dos estados do Norte do Brasil: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins

terça-feira, 21 de julho de 2015

Na Rede: Papo Reto com Fabio Gomes no Roraima Rock'n'Roll

Ontem cedo o colega Victor Matheus, do blog Roraima Rock'n'Roll, me entrevistou para a sessão Papo Reto da coluna que ele mantém, com o mesmo nome do blog, na Folha de Boa Vista. A conversa, no estilo do nosso Café com Tapioca, versou sobre o Som do Norte, rock e cinema, e saiu hoje na edição impressa do jornal e também no blog. Dá um confere! (Fabio Gomes)


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COLUNA RORAIMAROCKNROLL - ANO 5 - 8ª EDIÇÃO

PAPO RETO 

*Créditos: Prsni Nascimento 


O jornalista Fábio Gomes, editor do blog Som do Norte, 
responde a quatro perguntas do Papo Reto da nossa coluna: 


Como nasceu a idéia do do blog Som do Norte? Já conhecia a música produzida no extremo norte do Brasil? 

Conhecia alguns artistas isoladamente, mas só fui pensar em termos de cena musical nortista quando estive no Acre cobrindo o festival Varadouro 2008. As bandas do Norte foram as que mais me chamaram a atenção, e em menos de um ano lancei o blog. 

A relação do blog Som do Norte com rock amazônico é muito próxima. Chegando aos 6 anos de história, que momento do blog marcou pra você? 

Um momento muito marcante foi a primeira Noite Som do Norte, em 2011. Foi tanta gente na festa que o dono da casa teve que mandar fechar o portão ali por 1h30 da manhã, e quem conhece a noite de Belém sabe que a essa hora os "trabalhos" recém estão começando. 

O Som do Norte agora produz cinema, e lançou curtas do doc ‘As Tias do Marabaixo’. A cultura do norte do Brasil ainda é pouco conhecida em todo país? 

Na real não é de hoje que venho filmando a música nortista - inclusive, minha primeira filmagem foi do show da Veludo Branco em Porto Alegre (2010) -, mas ano passado decidi abraçar o cinema como carreira. Comecei filmando material para um doc de longa-metragem sobre As Tias do Marabaixo. No começo deste ano, lancei cinco curtas do projeto, que já foram exibidos em Macapá e nesta quarta, 22/7, estreiam no Tocantins. A cultura popular do Brasil em geral, não só do Norte, ainda é pouco conhecida pelo brasileiro, pois o grande público só tem acesso a informações via TV. A internet tem uma oferta cultural maior, mas sua difusão ainda se dá mais em nichos, e não em massa. 

Quem salva o rock no Brasil hoje? 

Bueno, não sei se o rock precisa ser 'salvo', apenas tem menos rock brasileiro na grande mídia, como já rolou nos anos 70. Afora as bandas da Amazônia, que escuto sempre, destaco a cena do Rio Grande do Norte também (que comentei em http://vamosfalar-jornalismocultural.blogspot.com.br/2015/03/musica-novidades-potiguares.html), mas olha, tem rock bom em qualquer parte do Brasil - apenas não em destaque na mídia de massa.



* Publicado originalmente no Roraima Rock'n'Roll

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Foi Show: Palmas Moto Capital

Na noite do sábado, 17 de julho, acompanhei a última noite de shows do 2º Palmas Moto Capital, na Praia da Graciosa. A parte musical do evento contou com a curadoria de André Donzelli, o "Porkão", dono do Tendencies Rock Bar (que durante o final de semana se transferiu para a praia) e organizador do Tendencies Rock Festival (que motivou minha primeira vinda à capital do Tocantins, há cinco anos).



Quem abriu a noite foi a banda local Cão de Rua, que mandou um set de inspirado rock indie, com direito a crítica social nas letras. A apresentação foi valorizada pela boa utilização do telão, projetando imagens que remetiam às canções apresentadas. Dentro de um set majoritariamente autoral, a banda mandou uma releitura de "Ainda é Cedo", da Legião Urbana. 




Falando em Legião, a atitude do vocalista da banda que veio a seguir, Four de Reis, lembrava um pouco a presença de palco de Renato Russo. A banda priorizou a apresentação das músicas que compõem seu novo EP, Mistura Volátil. 










A terceira banda a se apresentar foi Baranga, de São Paulo. Não cheguei a acompanhar o show, porque como o grupo se atrasou para subir ao palco, aproveitei para conversar com alguns amigos um pouco distante da área dos shows.



Mas assim que iniciou o show da banda carioca Rats, não havia quem quisesse ficar longe do palco, nem conseguisse ficar parado! A banda, cujo instrumental inclui banjo, acordeom e bandolim, faz uma mistura inusitada de ritmos, indo do rock à polca (sim! Polca) passando por quase tudo que você possa imaginar, incluindo a MPB. Um dos momentos que mais surpreendeu o público foi um belo arranjo da Rats para o tema de abertura da série de TV Game of Thrones (os fãs da série, eu incluído, ouviram a versão praticamente em êxtase). Foi, para mim, a grande revelação da noite. 




Encerrando a noite, tivemos o virtuose da guitarra Kenny Brown. Acompanhado de músicos locais, o americano fez um show quase todo instrumental, improvisando longamente sobre temas de blues e fazendo todo mundo dançar.




O grande momento da noite acabou acontecendo de improviso. Ao ver uma garota com a camiseta de Four de Reis dançando próximo ao palco, Brown a chamou para subir...

  

... e participar do show com ele tocando cow bell. 



Fotos: Fabio Gomes

Veja a cobertura completa na página 

Post nº 4700: Curtas As Tias do Marabaixo estreiam fora do Amapá

Nesta quarta, 22 de julho, será realizada a primeira sessão dos curtas da série As Tias do Marabaixo fora do Amapá. 

O evento acontece na Oficina Geral, em Paraíso (TO), cidade distante 63 da capital, Palmas. As fotos que retratam o making off das filmagens também estarão em exposição no local. 

Após a sessão, o diretor dos filmes, o jornalista Fabio Gomes (ao lado, em foto com Tia Chiquinha) conversa com o público presente. Encerrando a noite, haverá uma roda com músicos apresentando trabalhos autorais. 

Serviço

Mostra dos curtas As Tias do Marabaixo
Oficina Geral
Paraíso, TO
Quarta, 22/7, 20h


sexta-feira, 17 de julho de 2015

Foi Show: Mostra Mutum

Palmas - Estou desde sexta, 10 de julho, no Tocantins, onde vim acompanhar o Mutum - 1ª Mostra de Música Instrumental e Cultura Popular do Tocantins. É isso mesmo, você não leu errado: o evento propôs uma mistura de vertentes no mínimo inusitada - ao menos eu não sei de outro festival com proposta idêntica. Quem compareceu a Taquaruçu (distrito ecoturístico a 40km de Palmas) onde as atividades do Mutum se desenvolveram nos dias 10,11 e 12, pôde comprovar o acerto da ousadia do diretor geral do evento, o produtor cultural e educador musical Diego Britto.

As manhãs do evento foram integralmente dedicadas à cultura popular. Não pude acompanhar na manhã da sexta, em função de estar chegando à capital, a cantoria indígena, seguida de café da manhã tradicional com paparuto (comida típica do povo Krahô, feita com mandioca ralada misturada a pedaços de carne de porco, que são enterrados entre brasas) e roda de conversa indígena. Nos dias seguintes, fiz questão de madrugar para não perder esta parte da programação que proporcionou momentos únicos.


No sábado, logo cedo, acompanhei um cortejo em honra ao Divino Espírito Santo reunindo foliões das comunidades de Natividade (de vermelho na foto acima) e Monte do Carmo (de camisa violeta) pelas ruas de Taquaruçu, com paradas na igreja de Nossa Senhora do Rosário e na casa do devoto Selcimar Cirqueira. Chegando ao espaço Terreiro dos Povos, fomos recebidos por uma mesa de folião, um café da manhã com produtos típicos (biscoitos de polvilho, sucos e frutas da estação, como melão e banana). Findo o café, arredou-se a mesa para se realizar uma roda de viola e catira.


Roteiro semelhante foi seguido na manhã do domingo pelo Cortejo Jalapeiro, reunindo quilombolas de Barra do Aroeira (município de Santa Teresa do Tocantins) - incluindo Nilo José, que conheci em Porto Alegre durante o Acorde Brasileiro 2009, pouco tempo após lançar o Som do Norte (na foto ao lado, Nilo está de chapéu e camisa amarela, tocando viola de buriti) - ouça aqui a entrevista que fiz com ele há quase 6 anos. Desta vez o cortejo não fez paradas no trajeto, indo direto da Praça Joaquim Maracaípe ao Terreiro dos Povos, onde se repetiu o café típico, seguido de contação de histórias pela escritora Irma Galhardo e apresentação de danças típicas da comunidade quilombola, como a dança do lenço, o maculelê dançado com bastões e facões e a suça de mulheres. Identifiquei uma herança africana direta muito preservada no grupo, o que logo compreendi quando dona Isabel Rodrigues, uma liderança da comunidade, contou a história de Barra do Aroeira: o povo quilombola ali presente vive em terras dadas pelo imperador Dom Pedro II ao patriarca da família Rodrigues, o soldado negro Félix José Rodrigues; a doação foi um reconhecimento pela bravura demonstrada pelo militar durante a Guerra do Paraguai (1864-70). Todos os moradores do local descendem de Félix José, falecido em 1915. 

O evento também contou com diversas oficinas, a maioria voltadas para músicos, nesse caso tanto os da vertente música instrumental (como, por exemplo, o Workshop de Bateria e Improvisação Coletiva, na manhã do sábado) quanto da cultura popular (como o Encontro de Rabequeiros e Violeiros de Buriti, na tarde do domingo, que ensinou a construir instrumentos e culminou numa roda de viola). Houve ainda uma oficina focada em cultura popular, sem vínculo com música - a de Benzimento e Fitoterapia, na tarde do sábado. 

A separação entre as duas vertentes se diluiu na parte mais visível do Mutum, a programação de shows do palco Sumidouro, junto à praça Joaquim Maracaípe. Assim como houve momentos mais focados na cultura popular - a abertura dos três dias era sempre com o grupo, ou os grupos, que haviam feito vivências pela manhã (cantadores indígenas na sexta, roda de suça com os Catireiros da Natividade e o Grupo Mãe Ana no sábado e os violeiros e rabequeiros de buriti no domingo; todos estes foram momentos que transmitiam grande emoção e encantamento por evidenciar a riqueza da tradição tocantinense) - e outros totalmente ancorados na música instrumental (como o belo show que encerrou a programação do sábado, reunindo o violonista Felix Junior e o gaitista Gabriel Grossi - foto abaixo -, cujo repertório incluiu Astor Piazzolla e Villa-Lobos), também tivemos, já na sexta, o show do grupo Três Matutos e Um Arigó, que promoveu releituras jazzísticas de clássicos de Luiz Gonzaga e Dominguinhos. Outro momento de destaque na aproximação entre as duas vertentes do festival foi no sábado: Paraíba dos 8 Baixos, músico de Taquaruçu, foi acompanhado pelo grupo do guitarrista  tocantinense Paulio Celé, que havia feito o show de encerramento da sexta. 



No sábado, Leandro Medina surpreendeu com bons sambas e referências às tradições de seu estado natal , o Pará. enquanto o Duo Negróide, formado pelos goianos Edilson Morais (percussão) e Luciano Clímaco (guitarra) misturou sons da África com eletrônica, tendo duas participações especiaís: a de Dorivã, um dos maiores nomes da música do Tocantins, e do rabequeiro Jeferson Leite, que havia feito o show mais arrebatador da sexta - 90 minutos de forró que colocaram todos da praça Joaquim Maracaípe para dançar forró, xote, baião e xaxado. Jeferson demonstra ter a "pegada" de um Hermeto Paschoal ao sentir a vibração do público e devolver a este o que ele espera, criando uma verdadeira sintonia entre palco e plateia. 

O domingo teve apresentação do Palmas Música, grupo de formação e repertório eruditos (que teve como destaque a interpretação de "Uirapuru", do paraense Waldemar Henrique, e que encerrou com um portentoso arranjo de "Carinhoso", de Pixinguinha) e dois dos shows mais marcantes do Mutum, exatamente os dois que encerraram o evento. Falo de Tambores do Tocantins e do show que reuniu os cantadores e violeiros Juraildes da Cruz (TO) e Xangai (BA)(foto abaixo). 



O grupo Tambores (que tem entre seus integrantes Diego Britto, diretor do Mutum, como baixista) promoveu um verdadeiro passeio pelo repertório de várias partes do Brasil, indo de "Coroné Antônio Bento", do maranhense João do Vale e do alagoano Luiz Wanderley, a "Tambor de Couro", do paraense Ronaldo Silva, passando por temas dos tocantinenses Dorivan e Juraildes da Cruz. A baiana Selma de Oliveira, de Jequié, que veio a Taquaruçu especialmente para acompanhar o Mutum, chegou a comparar a qualidade do trabalho de Tambores do Tocantins à do mundialmente famoso grupo Olodum, de sua terra. Foi um dos shows mais animados do Mutum inteiro, com todos na praça dançando muito.

Depois da dança, a audição atenta. O público que se manteve na praça até por volta da 1h30 da segunda-feira, 13, foi premiado por um belíssimo show de Xangai e Juraildes, no qual o baiano homenageou seu parceiro tocantinense, interpretando clássicos como "Vida no Campo" - a dos versos A vida no campo é fruta madura/ Amizade é coisa pura, é mel no coração/ Gado no curral, cuscuz com leite/ Café com queijo, eu gosto é de um requeijão...

Aliás, falando em comida. Um dos acertos do evento foi credenciar comerciantes de Taquaruçu para oferecer opções gastronômicas para o público do Mutum. As barracas ficavam dispostas de forma que quem queria fazer um lanche não precisava parar de ver os shows, como às vezes acontece em eventos desta natureza. As opções eram as mais diversas, de beijus e pastéis, até o cuscuz recheado da chef Mary Help. E para beber, as opções variavam de sucos de frutas típicas da região até cervejas artesanais. 

As fotos que ilustram o post foram retiradas do blog do evento


* Fabio Gomes esteve em Taquaruçu a convite da produção do evento.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Agenda Macapá: Kassya Karoline



Roberto Carlos abriu seu disco de 1983 com os versos Se o amor está fora de moda/ Eu estou um tanto quanto antiquado..., o que evidentemente era uma baita ironia, pois o amor é não só o tema primordial da carreira de Roberto, como da grande maioria dos artistas ao redor do mundo, o que, no presente caso, inclui uma cantora que é uma grande revelação do meio do mundo. Falo da paraense radicada em Macapá Kassya Karoline.

Conheci Kassya logo que cheguei a Macapá para minha primeira temporada prolongada, em maio de 2013. Na época ela cantava esporadicamente na noite da capital do Amapá, e demorei a ouvi-la cantar, primeiramente participando de shows alheios, e mais adiante em shows completos seus em bares (incluindo uma maratona de dois na mesma noite, em agosto passado). Trata-se de uma artista em franca evolução, com timbre de voz agradabilíssimo, e que sabe onde quer chegar. 

Por tudo isso, recomendo a quem estiver em Macapá que se agende para assistir o novo show acústico de Kassya, Love Songs, no próximo dia 23 (informações na imagem acima). Você consegue imaginar programa melhor para uma noite de quinta que ouvir uma mulher linda e talentosa cantando o amor? Eu não.



sábado, 4 de julho de 2015

Ouvimos: Independente - Clepsidra
















Logo após o show de lançamento do CD Independente, na Sala Mestre Laurentino da loja Ná Figueredo da av. Gentil Bittencourt (Belém), Renato Torres (voz e guitarra da Clepsidra) me garantiu que, quando a banda escolheu o nome do disco, não imaginava o quão conceitual ele acabaria se tornando - isso porque, não obtendo patrocínio via leis de incentivo, o disco acabou saindo bancado pelos próprios músicos. Mas talvez não haja coincidências e tudo já esteja escrito - como diria a protagonista da minissérie Presença de Anita, de Manoel Carlos, exibida pela TV Globo em 2001. Digo isso porque a faixa que dá nome ao CD é uma parceria de Renato com Felipe Cordeiro, que homenagearam o músico paulista Itamar Assumpção (1949-2003). Itamar foi um dos líderes da Vanguarda Paulista, movimento dos anos 1970-80 que levou artistas como Arrigo Barnabé e bandas como o Grupo Rumo e Premeditando o Breque a romper com a política das gravadoras e lançarem seus discos de forma...independente (rá!). Inclusive o segundo LP solo de Itamar, lançado por ele mesmo em 1981, se chamou Às Próprias Custas S/A. 

O terceiro disco da Clepsidra, assim como os dois anteriores, chega ao público através do selo Na Music. O primeiro, Bem Musical, em 2004, foi lançado com a classificação de 'Rock'. O segundo, Tempo Líquido, de 2006, foi anunciado como de 'Nova MPB'. Já Independente não me parece tão fácil de rotular (fora que eu sempre questiono a real utilidade de um rótulo, mas enfim... ao menos ajuda as pessoas a entender do que você está falando). O resultado sonoro do disco ora lançado me parece somar as duas influências, e outras mais - basta lembrar que, lá por dezembro de 2009, ou seja, pouco tempo antes da gravação do Independente, o baterista Arthur Kunz havia criado um trio de... jazz, que teve curta duração. Nessa época, Kunz já respondia também pela bateria da Clepsidra. A banda existe desde 2001, e sempre teve como membros fixos Renato Torres e o baixista Maurício Panzera, que costumavam então chamar diversos convidados na hora de gravar os CDs. Foi de Kunz a ideia de, no Independente, ter apenas o trio, sem participações vocais nem instrumentais (o que, além de para mim reforçar a ideia expressa no nome do disco, fazia todo sentido num momento em que a Clepsidra tocava e gravava direto nos shows e CDs da maior parte dos nomes emergentes da cena MPB de Belém, entre os quais Juliana Sinimbú, Aíla, Arthur Nogueira, Felipe Cordeiro, Joelma Klaudia e Gláfira). O CD foi gravado entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011 no APCE Music por Assis Figueiredo e Ulisses Moreira, e mixado e masterizado em 2012 por Ivan Jangoux no no Vintagge Studio da AM&T (cujo proprietário, Kim Azevedo, co-produziu o CD junto com a banda). Os nomes e grifes citados estão entre os melhores de Belém em suas respectivas áreas, o que resultou num CD de excelente qualidade sonora. 

Durante os três anos entre a finalização e o lançamento do CD, cada componente do trio trilhou rumos próprios. Renato Torres, além de fazer inúmeras parcerias, lançou carreira solo em 2012, por ocasião da estreia do show Vida é Sonho. Maurício Panzera se dedicou ao ensino de música e atuou na noite de Belém ao lado de vários artistas, chegando a ser diretor musical da cantora Joelma Klaudia. Já Arthur Kunz criou em 2011, ao lado do guitarrista Leo Chermont, a banda Strobo, que intensificou a agenda de shows pelo Brasil todo que ele já fazia como integrante de projetos dos conterrâneos Felipe Cordeiro, Luê e Aíla. 

O show do dia 27 não contou com Kunz; nele, Renato e Panzera contaram com a participação do tecladista Rodrigo Ferreira e do baterista Emmanuel Penna. Ao vivo, as 8 canções do disco apresentadas (de um total de 12) me soaram bem mais rock do que na posterior audição do CD (onde, como já falei, se equilibram as diferentes influências do trio que o gravou).




A maioria das 12 faixas do CD nasceu como poema, e só depois ganhou música. Inclusive a única faixa cuja letra não é de Renato Torres: "Voragem", poema de Larissa Medeiros que ele musicou e que é uma das músicas que eu mais amo nesta vida - conheci a canção interpretada por Aíla num show de 2009; esta é a primeira gravação desta composição. As duas faixas que não nasceram de poemas são "Serena", que é a única parceria de Renato com Kunz (o baterista mostrou a melodia a Renato, que fez depois a letra e a melodia da parte B) e "Pedra Filosofal", outra parceria de Renato Torres com Felipe Cordeiro. A melodia de Felipe foi complementada e ganhou letra de Renato.

Mesmo com todo o tempo que decorreu entre a gravação e o lançamento, apenas duas músicas do Independente já haviam saído em outros discos: "Além-Mar" (parceria de Renato com Dionelpho Jr., incluída no CD Sonho Bom de Fevereiro, gravado por Juliana Sinimbú em 2010 e lançado na internet ano passado) e "Samba sobre Nada" (parceria de Renato com Henry Burnett, incluída por Gláfira no CD Jardim das Flores, de 2012). 

Embora acabem formando um todo coerente - são centrais no disco as referências a amor, ao local versus o global, a coerência artística versus a ostentação -, os poemas de Renato que viraram canções do Independente nasceram em diferentes ocasiões. O mais antigo é "Sobremesa", que Renato lembra de ter cantado no Teatro Margarida Schivasappa em 1994 - nesta letra, musicada pelo próprio Renato, e que se apóia numa metáfora bastante usada de comparar a consumação do amor a uma refeição, destaco o trocadilho descubra longo o meu segredo e, logo a seguir, um jogo de palavras onde não se sabe mais quem irá abater quem (abra a porta sem pressa/ pise com graça, abrace a presa/ que te espera devorar). "Guamá" (letra de Renato, música de Panzera) remete ao rio de Belém que passa pelo bairro com o mesmo nome (onde fica o home studio de Renato, o Guamundo) - além de falar em bairro antigo, Renato diz que o Guamá afunda surdo. Em "A Volta do Mundo", no verso começo reverso, Redenção deserta em pleno Bom Fim, há claras referências a conhecidos pontos de Porto Alegre (ao parque Farroupilha, popularmente chamado de Redenção, e ao bairro onde o parque se localiza) - é bom frisar que esta referência à capital gaúcha é quase episódica numa letra que o eu-lírico se dirige inicialmente a uma bela moça que viu passar, e que não percebeu os olhares a ela dirigidos, e segue falando dos efeitos do tempo e do frio sobre o eu-lírico. Já "Paraíso", letra de Renato musicada por ele mesmo junto com Panzera, nasceu de uma passagem por São Paulo, mais exatamente pela estação de metrô do bairro Paraíso - talvez por isso a referência a mente descarrilada nesses trilhos do mundo junto a menções a Adão, Eva e o fruto proibido. Renato parece falar do mesmo episódio bíblico na letra de "Serena" - digo parece porque, ao mesmo tempo em que fala em serpente e maçã, há uma menção a veneno - o que poderia tornar esta maçã não a oferecida pela serpente a Eva, e sim a que a bruxa induziu Branca de Neve a morder. Felizmente, assim como eu já comentei que não vejo necessidade de usar rótulos para classificar música, também já desisti da tentação de "encontrar as respostas certas" ao comentar uma obra de arte.




Falando em obra de arte, não consigo pensar em outra classificação para a canção que já ganhou as rádios de Belém e que considero a melhor faixa do disco: "Pedra Filosofal", É daquelas músicas que você ouve uma vez e passa o dia inteiro com ela na cabeça. A nosso pedido, Renato Torres postou esta faixa no Soundcloud da Clepsidra. Curte aí ;)



sexta-feira, 3 de julho de 2015

O Marabaixo é de Todos!

Estou em Belém, primeira etapa de minha viagem para divulgação dos curtas-metragens da série As Tias do Marabaixo. Os cinco filmes serão exibidos no final da próxima semana na Mostra Mutum, festival de culturas populares e música instrumental realizado em Taquaruçu, próximo a Palmas, capital do Tocantins. 

Nos últimos dias em Macapá antes da viagem, participei do lançamento da Campanha de Reconhecimento e Valorização da História do Marabaixo, a convite de Elísia Congó, presidente da Federação Folclórica do Amapá. Elísia é filha de Dica Congó, nome histórico do Marabaixo da Favela, e ano passado foi uma das festeiras do Ciclo do Marabaixo, inclusive boa parte do meu longa-metragem foi rodado em sua casa. 

Elísia Congó

Elísia teve uma ideia tão simples quanto genial: confeccionou cartazes com dizeres alusivos ao Marabaixo, para que as pessoas pudessem se fotografar com eles e postar estas imagens nas redes sociais, usando a hashtag #CampanhadeValorizacaodoMarabaixo. Estivemos em escolas, universidades, emissoras de rádio, bares e diversos outros locais públicos, registrando bastante adesão e compartilhamento. Inclusive três das Tias do Marabaixo aderiram à Campanha. 


     Tia Zefa

Tia Zezé

Natalina

A foto de Natalina foi feita na Assembleia Legislativa do Amapá, logo após a sessão solene do Dia Estadual do Marabaixo, na manhã de 16 de junho. A data foi criada em 2010 por iniciativa do deputado estadual Dalto Martins, já falecido, e cujo nome hoje batiza o plenário da Assembleia. Os grupos presentes aproveitaram para protestar contra a atitude de um delegado de polícia de Macapá que havia, dias antes, mandado interromper uma festa de Marabaixo alegando o alto volume do equipamento de som que estaria sendo utilizado - sendo que todas as casas que sediam festas do Ciclo obtém previamente alvará junto à Prefeitura para a realização do evento. 

À noite, diversos grupos de Marabaixo finalizaram os festejos do Dia Estadual com um grande Marabaixão no barracão Tia Gertrudes, no bairro da Favela. 

A campanha de valorização continua. Elísia continua levando os cartazes a eventos - o mais recente foi a passagem do ministro da Cultura, Juca Ferreira, por Macapá, para inaugurar a nova sede da superintendência do Iphan no Amapá, no dia 25 de junho. 

Você também pode participar da campanha - basta confeccionar seu cartaz de apoio ao Marabaixo, produzir uma selfie e postar nas redes sociais com a hashtag #CampanhadeValorizacaodoMarabaixo .