Aqui se fala do som dos estados do Norte do Brasil: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

@SomdoNorte entrevista Humberto Finatti




Fabio Gomes - Estamos aqui em Macapá recebendo a ilustre visita de Humberto Finatti, jornalista cultural, principalmente da área de rock - brasileiro e internacional - da qual fala muito em seu site www.zapnroll.com.br, e que tem uma ligação especial com a cena rock da região Norte. Bem-vindo!

Humberto Finatti - Quero falar pra começar que eu leio o Som do Norte, eu acho o blog superlegal. O blog Zap'n'Roll existe há 11 anos e eu tou acompanhando a cena independente brasileira há quase 20, nesse processo todo eu viajei pelo Brasil inteiro, conhecendo bandas, produtores, festivais. A ligação específica com o Norte começou em 2006 ou 2007, em Rio Branco, no Acre, quando eu fui cobrir o Festival Varadouro, que era feito pelo Coletivo Catraia. Estive em Rio Branco algumas vezes, fiz grandes amigos lá, aí de Rio Branco eu fui conhecendo todo o norte do Brasil: Porto Velho, Belém, Boa Vista... A ligação com Macapá se deveu porque naquela época eu era próximo do pessoal do Fora do Eixo. Modéstia à parte, a Zap'n'Roll é um dos três ou quatro blogs de cultura pop e rock alternativo mais acessados no Brasil, tem 70 mil acessos por mês, então o pessoal aqui lia a Zap'n'Roll, e me chamava e nisso eu vim cobrir dois Festivais Quebramar aqui em Macapá, produção do pessoal do [coletivo] Palafita, o Otto Ramos sempre me tratou muito bem, uma figura muito bacana. E aí eu comecei a conhecer as bandas daqui também, tem uma banda aqui em Macapá que eu acho fantástica, a Stereovitrola, e fui fazendo amigos na cidade, sempre que eu posso eu venho pra cá observar a cena, a movimentação musical, essa coisa toda.

Que canais tu tens usado em São Paulo pra te informares sobre a movimentação do Norte?

Não fazendo média com você, o Som do Norte é um desses canais. Os megaportais não dão muito destaque pra cena independente. Leio o G1 Amapá, parte de variedades, o Terra regional, blogs como o Urbanaque... O Scream & Yell dá uma grande atenção pra cena independente do Brasil inteiro, incluso aí a região Norte. E fora isso eu construí uma rede de amigos como você, as bandas, não só aqui, em Rio Branco, Belém...

Existe uma banda no Acre que te considera o padrinho dela, que são os Euphonicos. Tu inclusive conheces um dos músicos, o Aarão Prado, muito antes de se formar a banda Euphonicos.

O Aarão eu conheci quando fui cobrir o Varadouro e fiquei conhecendo as duas grandes bandas, maravilhosas, do Acre, Los Porongas e Camundogs. O Camundogs infelizmente não teve a repercussão que Los Porongas teve, mas era uma banda fantástica também. No ano passado, eu estive lá em Rio Branco e o Aarão me mostrou [o material do Euphonicos], eu comecei a escutar e fiquei louco. O Euphonicos tem as músicas mais lindas que eu tenho ouvido da cena independente nacional. Uma qualidade fantástica, você sabe disso, a Nany Damasceno fez a entrevista com eles pro Som do Norte, é uma qualidade absurda. A beleza poética e musical das músicas.





Você comentou que Camundogs não teve a mesma repercussão que Los Porongas, mas aí temos um dado que acho que na época pesava muito, que Los Porongas, ali por 2007, foi morar em São Paulo e o Camundogs continuou no Acre. Não sei se hoje essa questão influenciaria tanto.

Não dá pra explicar quais são os mecanismos que fazem uma banda boa dar certo nesse país. Los Porongas é uma banda gigante lá em Rio Branco. Eles tocam tranquilo pra 3 mil, 4 mil pessoas lá. Camundogs, por outro lado, uma época teve uma repercussão, mas ele não conseguiu atingir esse patamar em Rio Branco. Mas em São Paulo, Los Porongas, infelizmente - infelizmente porque a banda não merece isso - Los Porongas toca pra 100 pessoas, e eu acho isso uma injustiça com Los Porongas, que é uma banda tão boa quanto Euphonicos e quanto Vanguart. Eles fizeram um show na Choperia do SESC Pompéia, onde cabem 800 pessoas, e tinham umas cento e poucas pessoas. Mas era um público empolgadíssimo, cantaram junto as músicas todas o show inteiro. (O show aconteceu em 19 de setembro de 2014 e contou ainda com a banda uruguaia Buenos Muchachos - abaixo, um vídeo deste show, filmado por Denise Paiva)





Talvez valha mais 100 pessoas empolgadíssimas do que 800 bocejando. Eu acho que falta no Brasil um ponto intermediário, porque São Paulo é um mercado gigantesco. Não existe um mercado intermediário entre ser grande numa capital do Norte ou mudar para São Paulo para tentar a sorte. Como por exemplo, há como nos Estados Unidos, se tu sai do Colorado tu não precisa ir necessariamente ir pra Nova York, há outras opções. A cena brasileira não tem essa gradação.

Ou tu tocas pra 4 mil pessoas, ou tocas pra 50. Não tem meio termo. E isso se reflete na cena independente na seguinte questão: está se buscando resgatar uma cultura rocker no Brasil. Voltou a 89 FM em São Paulo, surgiram sites especializados em rock, tem a Bizz, Rolling Stone, mas está muito longe ainda de ser o último grande movimento do rock no país, que foi nos anos 80: Legião Urbana, Ira!, Capital Inicial, Plebe Rude e por aí vai. Nos 90, Raimundos ainda. De lá pra cá não tem mais isso. Hoje tá difícil sair uma banda de rock que consiga construir um público na internet e faça show pra 10 mil pessoas. O Vanguart já conseguiu próximo disso. Se você analisar quantas milhares de bandas que tem na cena independente de 2000 pra cá, tem uma que toca confortavelmente lá em São Paulo pra mil, 2 mil pessoas, que é o Vanguart. Uma. Então isso tem que ser mudado, senão o rock independente nunca vai conseguir almejar tocar pra um grande público, porque a grande mídia não tem interesse. A mídia especializada, alternativa, como é o meu e o seu caso, tem. Agora, se o Vanguart não entrasse na novela das 7 (Além do Horizonte, 2013) com "Meu Sol", não ia estar estourado como tá.

Tem uma outra questão, a grande mídia hoje ainda é refém do esquema do jabá criado nos anos 80/90, em que as gravadoras determinam o que vai ser tocado nas rádios e TVs - só que, como o mercado mudou muito por causa da internet, os segmentos musicais que ainda estão nas gravadoras são apenas os que têm grandes vendas, como o sertanejo universitário, o gospel... A gravadora hoje não investe em que tá começando.

É, não é nem o rock, qualquer gênero musical. As gravadoras faliram no modelo de vender disco em plataforma física, seja vinil, CD, o que for. Não vende mais. Elas tiveram que se adequar à internet, troca de arquivo musical, e se hoje elas acreditam que um artista vai estourar, começam a trabalhar aquilo nas redes sociais, no YouTube, empurrar no que resta de rádio grande, com o objetivo de massacrar aquilo na cabeça do público pra formar público pra show. As gravadoras hoje administram até a carreira e os shows das bandas, arrumam um empresário fortíssimo pra conseguir shows pra 10 mil pessoas e vão ganhar uma porcentagem em cima dos shows. Então as gravadoras querem formar artistas que elas saibam que daqui a pouco vão fazer show pra 10 mil pessoas.

Ou pega um artista independente que já conseguiu se firmar, e ela chama porque sabe que ele tem público.

O Vanguart fez essa trajetória, chegou num ponto que ele ficou grande demais pra cena independente. É uma história particularíssima, inclusive, que eu tenho conhecimento de causa, porque eu acompanho a carreira do Vanguart desde que eles surgiram em Cuiabá. Quando eu vi o Vanguart, ninguém fora de Cuiabá sabia quem era Vanguart. Eu fiquei louco, eu voltei pra São Paulo berrando "Vanguart" nos quatro cantos e os meus inimigos diziam: "Imagina, o cara é louco, falar de uma banda folk de Cuiabá, ahaha", dando risada, "imagina, deve ser a coisa mais imbecil, brega, cafona e idiota do mundo". E hoje Vanguart chegou no que é. No meio desse caminho de 2005 até agora, eles foram empresariados durante um tempo por um cara muito bacana lá em São Paulo que é um amigo pessoal meu, o Glauber Amaral. O Glauber tem uma rede de contatos muito boa. Ele é empresário, ele fala que ele é "direcionador de carreiras artísticas". Isso já há mais de 20 anos, quase 30 anos. Ele já trabalhou com os maiores nomes da MPB, Elza Soares, Luiz Melodia, Jards Macalé, Lanny Gordin, ele é muito bem relacionado. Eu o conheci quando ele queria investir em banda de rock, diversificar um pouco. E ele tinha um amigo em São Paulo que era o dono do Studio SP, que já não existe mais, e o Vanguart ia tocar lá. E esse amigo dele falou: "Glauber, vai ver essa banda, vai ver o show desses moleques que você vai gostar deles". O Glauber foi, viu o show, adorou, fez proposta, aí trabalhou com eles durante uns 2 anos. 


Nesses 2 anos, através dos contatos que ele tinha, ele conseguiu um contrato do Vanguart com a gravadora Universal, que resultou naquele Multishow Registro Vanguart, ao vivo (2009). Eu tava na gravação daquele DVD. Depois que eles saíram da Universal, eles chegaram a um acordo e houve um rompimento, amigavelmente, do contrato entre o Vanguart e o Glauber. Da parte do Glauber, ele achou que investiu demais na banda e a banda não soube se posicionar dentro de uma grande gravadora. E a reclamação do Vanguart pra mim - o Helinho falou isso pra mim, o Douglas também... Eles descobriram que o Vanguart, como uma banda independente, era a última prioridade da Universal, que tinha Ivete Sangalo, Chitãozinho & Xororó, Caetano Veloso pra priorizar. Então eles gravaram o Multishow Registro e tinham contrato pra mais um disco com a Universal. E eles começaram a perguntar pra Universal quando esse disco ia ser gravado. E a Universal não dava resposta, o diretor artístico não recebia a banda, até que chegou num ponto em que eles bateram pé: Escuta, nós vamos gravar esse CD quando? E aí o diretor artístico falou: Olha, a gente tá com outras prioridades nesse momento e não vai dar pra gravar o disco agora. Não sei quando a gente vai poder gravar o próximo disco de vocês. Isso chateou muito a banda, a banda chegou à seguinte conclusão: o disco não foi trabalhado direito, eles tinham um material muito bom no Multishow Registro que podia tocar em rádio, a Universal não quis pagar jabá pra tocar na rádio as músicas daquele disco, aí os meninos se reuniram e disseram: A gente quer rescindir o contrato com a gravadora. Eles literalmente chutaram a Universal, eu fiquei besta quando eu soube: Vocês chutaram a Universal, vocês tão ficando loucos?, eles: “Não tem o que fazer, os caras não iam fazer nada pela gente mesmo. Então se eles não iam fazer nada e o pouco de dinheiro que entrasse era pra gravadora e não pra gente, a gente prefere continuar sozinho, independente, e o dinheiro que entra é nosso". E hoje eu dou razão pra eles. 


Como é uma banda que todo mundo conhece, eles negociaram com o Rafael Ramos, filho do João Augusto, que foi diretor da EMI-Odeon... Hoje o Rafael é um produtor conhecido, produziu milhões de discos, é o dono da Deckdisc. A Deck é uma gravadora de porte pequeno, que conseguiu estourar a Pitty. O Rafael contratou o Vanguart, os últimos discos deles saíram pela Deckdisc: o Boa Parte de Mim Vai Embora (2011) e o Muito Mais que o Amor (2013). Ela investiu pouco, mas trabalhou bem a mídia social, aquela coisa toda, conseguiu graças aos contatos do Rafael Ramos emplacar a música na novela da Globo e o Vanguart hoje toca confortavelmente pra 3 mil, 4 mil pessoas.


Voltando à Zap'n'Roll: eu acho muito incrível que tu fazes uma atualização semanal, tipo uma revista, um post imenso, abarcando vários assuntos. Eu, por exemplo, quando tenho alguma notícia, alguma atualização pra publicar no Som do Norte, eu escrevo e já publico. Além da Zap'n'Roll, eu sei que tu estás escrevendo um livro com tuas memórias.

A Zap'n'Roll começou no Dynamite Online, um dos maiores portais de cultura pop e rock alternativo do Brasil, que hoje faz parte de uma ONG, a Associação Cultural Dynamite, cujo presidente é o André Pomba, um dos meus melhores amigos. É quase um casamento: a gente é melhor amigo um do outro e trabalha junto há 20 anos, desde que a Dynamite era uma revista impressa. Além de ser um dos conselheiros da ONG, eu sou conselheiro editorial do site e um dos editores contribuintes, recebo um salário pra isso. A Zap'n'Roll se tornou um grande projeto na minha vida e um blog muito conhecido que até o ano passado não dava dinheiro nenhum. Começou a dar de um ano e meio pra cá, por meio de publicidade. Fora isso eu sou convidado eventualmente pra ser curador de um evento, pra ser jurado de algum outro evento... Eu fui um dos cinco curadores do último Proac, um programa de incentivo à cultura criado pelo governo do estado de São Paulo já há uns 10 anos, nos moldes da Lei Rouanet. 

Sobre o livro: eu tenho histórias tão loucas na minha vida... eu não sou nada normal! Eu tou tentando me tornar mais normal agora, mas eu fui completamente anormal a minha vida toda. Durante 30 anos da minha vida eu fui completamente insano. Um amigo de São Paulo um dia me falou assim, eu nunca esqueço essa frase dele: Finatti, você já fez na tua vida coisas que Deus duvida e o diabo desconhece. Então eu conto as histórias no Facebook e um monte de gente vem conversar comigo: Por que você não publica um livro?. Na primeira versão do livro, eu fui meio preguiçoso e selecionei uns 20 posts dos primeiros 10 anos da Zap'n'Roll, tal qual eles foram publicados, com resenha de disco, as indicações culturais da semana, resenhas de shows e as histórias malucas de putaria em festival, consumo de droga, tudo. Falei com um amigo meu, o Marcelo Viegas, editor das Edições Ideal: Bicho, tou fazendo um livro, ele: Manda pra mim. Eu mandei e ele falou: Não, pera, você não tem que fazer uma compilação de posts como eles foram publicados, não interessa pra quem vai ler o livro a resenha do show de 20 anos atrás. Faz em tom de romance, com fatos reais, em ritmo de romance. E num capítulo, só as putarias e as loucuras que você viveu... Eu joguei o arquivo do primeiro livro fora e abri um novo arquivo, o livro vai se chamar Memórias de um Jornalista Junkie, só o título já diz tudo. Modéstia à parte, tá ficando sensacional. O Luiz César Pimentel, que é editor executivo do portal R7 e vai ser um dos prefaciadores do livro, já leu e falou: Meu, tá sensacional, vai dar muito rock'n'roll esse livro




* Entrevista gravada em 31.10.14 em Macapá

Nenhum comentário:

Postar um comentário