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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Entrevistão @SomdoNorte: Samara Noronha

A tarde de 2 de janeiro corria plácida aqui na redação quando eis que repente uma mensagem foi postada no mural da fan page do Som do Norte no Facebook (curte lá!). A assessora de imprensa Luma Costa, de São Paulo, postou um videoclipe recentemente lançado pela cantora Samara Noronha, também morando em São Paulo, e era possível ver, mesmo na miniatura, que o clipe fôra gravado na avenida Paulista. Assisti o clipe, gostei, e mandei uma mensagem para Luma dizendo que gostaria de fazer uma entrevista com a cantora, mas no caso para o blog Jornalismo Cultural, já que o Som do Norte, como vocês sabem, é reservado para os artistas da Amazônia; inclusive postei o link do clipe na fanpage do blog JC. Ela respondeu no dia seguinte, passando alguns links de recentes publicações sobre Samara e o Facebook pessoal da artista. Na segunda, 5, logo cedo eu a adicionei, enquanto Luma mandava já outro link recém-publicado, no blog Música e Arte! - é, a moça tá em alta mesmo! :);  - e comentei com Luma que iria ler todo o material enviado e provavelmente mandar as perguntas pro e-mail de Samara à noite. Pois bem, foi ao cair da tarde d'ontem que, a folhas tantas do material enviado, eu li que a moça não era de São Paulo, e sim de Rondônia! "Pára tudo!" De imediato, comuniquei a ambas que a entrevista seria veiculada no Som do Norte. Feito isto, fui ouvir as outras músicas de Samara, no seu Soundcloud; ao ouvir as 6 músicas que estão ali, pude perceber "links" com algumas sacadas de "Caos", que cheguei a comentar com a própria Samara no Facebook... e, pronto, aquela idéia inicial de fazer umas poucas perguntas apenas para complementar a postagem do clipe foi descartada completamente, com honras ao mérito! Dali a pouco, encaminhei a ela as perguntas, que ela respondeu de imediato - em menos de três horas, em plena madrugada (!), já recebi as respostas (não lembro de outra entrevista tão a jato em minha carreira). O resultado você lê, vê, ouve a seguir.

***




Fabio Gomes - Samara Noronha, você está tendo um começo de ano memorável, imagino, já que seu clipe "Caos", lançado no final de 2014, já tem mais de 2 mil views (neste momento, exatos 2.222) e foi resenhado por vários blogs nacionais. Como está sendo isto pra você? Você imaginava isso quando tava deitada na faixa de segurança na avenida Paulista, com a Gabriela Noronha filmando você num tablet doado?

Samara Noronha - Hahahaha...na verdade, não imaginava exatamente enquanto estava deitada na faixa da Avenida Paulista, mas imaginei bastante enquanto me deitava antes de dormir! Não é que eu tivesse qualquer certeza de que eu teria tantas felizes surpresas com a música, mas eu sonhava acordada todos os dias - ainda sonho - pensando em como seria bacana alcançar um estágio de carreira onde eu pudesse compartilhar momentos musicais mágicos com um monte de gente que pensa como eu, que se identifica, que está sintonizado na mesma frequência! Em um show, por exemplo, é como se todo mundo se tornasse uma coisa só! Temos muito chão pela frente, mas é com isso que sonho todos os dias da minha vida! Eu, a Gabriela Noronha (minha irmã mais-que-parceira) e minha mãe! Somos muito, muito unidas e elas abraçaram meu sonho como se fosse o sonho delas! Somos um triângulo forte, inquebrável!



Gravação do clipe "Caos" - dez/14


Bom, vamos pro começo dessa história. Você nasceu em Pimenta Bueno, interior de Rondônia, começou nas artes pintando e desenhando, e aos 11 anos apaixonou-se pela música, chegando a ficar em terceiro lugar num festival realizado em Porto Velho. Aos 14, ganhando sua primeira guitarra, você começou a compor. Até decidir morar em São Paulo, já com 20 anos, você seguia trabalhando com música? O que você escutava? Chegou a morar na capital? Fale um pouco mais desse seu início musical em Rondônia.

Na verdade, eu trabalhava na banca de revistas da minha mãe! Se você for à Pimenta Bueno e perguntar pelas "meninas da banca", todo mundo vai saber quem são! Só não garanto que a fama vá ser das melhores! hahahaha
Pimenta Bueno é uma cidade que fica bastante distante da capital Porto Velho, e isso dificultava bastante o acesso a oportunidades artísticas. Nunca consegui montar uma banda lá, porque a maioria das pessoas gostava de estilos totalmente diferentes como sertanejo, forró... claro que sempre tem um ou outro louco como a gente querendo fugir à regra, e eu tive um amigo que me apresentou bandas como Radiohead, Sonic Youth, Neutral Milk Hotel... logo na minha adolescência eu comecei a ouvir bastante essas bandas, bem como R.E.M., Dinosaur Jr., Smiths, Joy Division...mas a revolução aconteceu mesmo quando escutei Nirvana! Noooossa! Lembro como se fosse hoje! Foi quando pedi pra minha mãe me comprar uma guitarra! Eu tive um violão desde os 9 anos de idade, mas depois de ver o Kurt Cobain no programa Fantástico da Rede Globo eu sabia que meu negócio era barulho em três acordes com power chord! haha



Nirvana by Samara Noronha


Já em São Paulo, você cursou Produção Musical na Universidade Anhembi Morumbi, nos anos de 2011 e 2012. No que acredita que ele auxiliou você a desenvolver o som que faz hoje? Foi lá que você conheceu o Vinny, que fez arranjo e produção musical do single "Caos"?

Pois é! Na verdade, em 2010 eu ingressei num curso de Filosofia e abandonei porque eu não conseguia pensar em nada mais além de música! Então decidi cursar Produção Musical exatamente para tentar gerir minha própria carreira e, quem sabe, montar uma banda, né?? (risos) Confesso que eu, do interiorzão desse nortão e sem um tostão furado no bolso me senti muito mais deslocada do que o esperado na universidade, pois apesar de ser um curso de artes, a realidade cultural e social da galera é completamente outra lá, então os planos da banda foram por água abaixo; mas o aprendizado, esse sim mudou minha vida! As pessoas costumam reclamar bastante do curso, mas pra mim tudo, absolutamente tudo era novidade! Eu cheguei lá sem nunca sequer ter ouvido uma música em fone estéreo, pra você ter ideia! Um nível de analfabetismo técnico absurdo! Então aprendi muito, muito lá. Existe uma Samara antes e uma depois do curso. Claro que dois anos não fazem milagre, mas hoje eu posso entrar num estúdio e ter noção de praticamente tudo que se passa. Tenho noção do funcionamento de uma mesa de som, da importância de uma boa microfonação, do papel de um produtor, etc, etc. Me ajudou muito a expandir os horizontes. Agora, a "surpresa" Vinny não veio de nenhum canto óbvio! Por acaso minha irmã adicionou ele no Facebook e mostrou meu trabalho pra ele; ele se interessou, achou bacana e decidiu contribuir como pode pra que eu pudesse seguir minha estrada musical. Até hoje não nos conhecemos pessoalmente, somos modernetes, fazemos tudo virtualmente! (haha) O Vinny é, com certeza, meu anjo da guarda!


Ouça e baixe "Caos"


Você tem um Soundcloud onde dá pra ouvir sons que você gravou nos últimos dois anos, o que resulta num panorama bem legal da sua evolução musical. O que de cara chama a atenção são as versões - o que o Bruci Fernandes, do blog A Toca do Lobo Invernal, considerou um ponto a seu favor. De fato, hoje é mais fácil vermos artistas postando covers do que se dedicando a fazer uma letra própria para um hit internacional. Por que esta opção? E já aproveito para perguntar: ao verter "New Dawn Fades" do Joy Division, como "Chuva Contraluz", você foi mais Erasmo Carlos (que não sabia inglês e fazia uma letra nova para a melodia original) ou Fred Jorge (que traduzia de fato a letra)?

Então! "Chuva Contraluz", na verdade, não é exatamente uma versão da música "New Dawn Fades". Eu simplesmente me apropriei do arranjo e compus em cima algo sem pensar em ser parecido, nem melodicamente nem na letra. Na verdade, a letra tem algumas partes que são de um amigo meu (aquele que me apresentou algumas boas bandas no passado). Fiz dessa maneira não tanto por escolha, mas por ter dificuldades de criar um arranjo do zero mesmo. Acho muito mais desafiador fazer uma versão de fato, com a responsa que isto implica. Nunca fui boa em compor sobre um tema pré-definido, e creio que uma versão vai mais ou menos nesse pacote. Acho que não me atreveria! rs




A outra faixa que você classificou de versão me parece ter uma história não tão simples quanto a outra... falo de "Via Radial", que é um remix com "I'm New", do israelense Kutiman, que em 2009 lançou o projeto ThruYOU liberando no YouTube várias composições para quem quisesse samplear. Nesse caso, não havia uma letra original (logo, a meu ver, não é exatamente uma versão... mas então como classificar, né?). Como você tomou conhecimento do projeto do Kutiman? Você chegou a utilizar na produção dessa faixa algo que aprendeu na Anhembi Morumbi?

Pois é, não é uma versão exatamente, é mais um "bem bolado", acho! (risos) "Via Radial" já existia, era uma música que eu já tinha escrito há bastante tempo e, por acaso, coube no arranjo do Kutiman, foi encaixada para compor esse remix. Conheci o trabalho do Kutiman na Anhembi Morumbi! Me apaixonei perdidamente pela estética do remix e, inclusive, meu trabalho de conclusão de curso (TCC) abordou a questão do remix e da flexibilização dos direitos autorais. A voz dessa faixa e da "Logos" foram gravadas no estúdio da Universidade nos intervalos das gravações para o TCC! No curso de Produção Musical me aproximei bastante de trabalhos de mashup apresentados pelo professor Fernão Ciampa e gambiarras eletrônicas do professor Felipe Julian. Esses foram meus maiores mestres lá, e hoje são uma das minhas principais referências de estética, de ousadia sonora e de estratégias digitais.

Tem ainda uma música em inglês, "My Rockstar", onde sua voz tá bem diferente, tá um vocal mais rasgado, mais bluesy, numa pegada à la Janis Joplin. Como surgiu esta canção? Você tem outras composições em inglês, ou esta é uma exceção?

Tá aí, você me pegou!! haha
Realmente minha voz é o que se pode chamar de versátil; se você me ouvisse cantar há alguns anos não reconheceria! Eu era muito mais agressiva, explorava muito mais o grave e o drive da minha voz, por motivos que acredito compreender. Acho que tinha a ver com o momento que vivia. Algumas pessoas que respeito e admiro me sugeriram, várias vezes, "amansar" meus drives, dosar um pouco mais minha agressividade. Um amigo produtor em específico disse que eu perderia 50% do meu possível público só por esse "rasgar da voz". Não sei, mas atualmente decidi uma espécie de meio termo, certamente bem diferente do que eu fazia há um tempo atrás. "My Rockstar" foi composta em 2010, e gravada em um estúdio que oferece serviços gratuitos na Cidade Tiradentes. Tenho muitas outras composições em inglês mas, por opção, eu foco mais em escrever em português. Acho que tenho mais de 100 composições, pouco mais da metade em português. Prefiro mesmo.


Suas letras, que criticam muitos aspectos da sociedade atual - "Vida é o que se passa enquanto você está no celular", Caos; "São tantos trilhos, cabelos ao vento/ Tá todo mundo com essa pressa de chegar/  A um lugar que eu não conheço/ De um passado que não vai voltar", Via Radial -, ao mesmo tempo acabam funcionando como um convite para a vida - o que lembra muito uma característica das letras de Vinicius de Moraes. Nas suas canções, o convite pode ser uma simples 'cutucada', como no final de Caos - "Você está sem tempo pra viver?" -, ou mais diretamente, como em "Viva a milhão", onde o convite é o próprio título. Essa certa unidade temática nas suas letras é algo que você programou, ou vem ao natural?

Não, nada é programado pra mim quando se trata de compor. Quando me mudei para São Paulo naturalmente passei a escrever mais sobre pressa, poluição, enfim... Minha maneira de compor é o que costumo chamar de "à la Chico Xavier" (risos); quando a coisa vem, ela vem!! hahaha
Na maior parte das vezes - principalmente quando tem muita coisa aprisionada precisando ser liberada - eu escrevo freneticamente e então, só depois, leio tudo e vou entendendo o significado das coisas! Não é sempre... em "Logos", por exemplo, foi um desabafo muito mais consciente mesmo. Mas no geral, compor é quase inconsciente, é uma espécie de expressão mediúnica pra mim; é tipo uma obrigação, que cobra, perturba se você tenta ignorar. Não tem como. É tipo tensão sexual, se aprisionar vai dar merda! (risos)

Falando em "Viva a milhão", esta é uma canção que tem clipe no YouTube, e lá na descrição você comenta que a música foi "composta para o lendário jornalista Humberto Finatti", que por sinal é meu amigo e esteve em Macapá há dois meses. Como foi que nasceu esta canção?


Sim, esta música foi composta para o Finatti que é esta figura ímpar que você pode amar ou odiar, mas jamais ignorar! haha
O Finatti é um poço de inspiração pra qualquer artista. Eu sempre quis escrever sobre ele. A canção acabou surgindo em um momento muito difícil da vida dele, enquanto enfrentava um terrível tumor na garganta que ele, felizmente, venceu. A música era inicialmente diferente, muito mais triste do que a versão que eu gravei. Era praticamente um plágio de "Pennyroyal Tea" do Nirvana, só que três vezes mais melancólico! Então eu mostrei a música para alguns amigos e um em especial disse que não seria um bom presente para o Finatti naquele momento algo tão pra baixo; então eu coloquei uma batida no violão um pouco mais à la "Hole" e mandei ver! Homenageei esse figuraça rocker loker que é o Humberto Finatti e fiquei hiper feliz por ele, aparentemente, ter gostado da faixa!

Você já falou em "Logos", esta me parece uma letra um pouco diferente, pois nela você se coloca não na posição de uma crítica do mundo, como em "Caos", mas como alguém que parece lamentar um passado onde o melhor dele ficou preso ("E eu presa num passado que eu não deixei pra trás/ O mundo cresce e é tão constante/ Em meio às sobras que guardei daquele ser pensante/ Que eu costumava ser"), e a pessoa entende que precisa retomar essa sua essência ("ah, eu preciso me achar/ ah, eu preciso me encontrar") para de algum modo poder se considerar no mesmo nível das outras pessoas ("Eu me distraio tudo é tão distante/ E todo mundo tão interessante") - o que seria uma maneira de se libertar e se proteger "dessa guerra que eu travo a cada dia que eu tenho em que viver". Ou seja, o eu-lírico desta canção é bem menos autoconfiante do que o de "Caos" ou "Via Radial"; é isto mesmo, ou eu viajei legal? (risos)

É, você analisou muito bem o significado da letra! Essa é uma das minhas composições mais sinceras e dilacerantes. Me emociono muito toda vez que a canto. Compus ela no ônibus indo para a faculdade, pois era um longo percurso de aproximadamente duas horas. Eu realmente me sentia um zero à esquerda lá em alguns aspectos. Estava sempre cansada e com fome, uma fadiga mental tremenda, me distraía com facilidade, tinha acabado de passar por momentos muito traumáticos na minha vida, auto-estima estava lá embaixo e eu estava tentando me reerguer. Metrô lotado todos os dias não ajudava, e nessa música eu falo de um ser pensante que existia na época em que eu tinha tempo e disposição para ler, quando me achava inteligente e com potencial. Chegar em uma cidade como São Paulo, nas circunstâncias em que me encontrei, é complicado, pois a gente percebe que não é tão bom quanto imaginou, todo mundo parece saber mais, conhecer mais, existe mesmo um pouco dessa coisa da arrogância paulistana, sabe? Na faculdade todo mundo ou já tinha estúdio, ou trabalhava na área, e eu era uma "zé ninguém". Nem dinheiro pro café tinha. Então às vezes eu pensava "ou São Paulo me abraça ou me cospe de uma vez!". Por isso eu digo que precisava me encontrar. Precisava reencontrar minha autoconfiança. Nem faz muito tempo que isso começou a melhorar. O Vinny com certeza tem contribuído muito para isso!

Falando em "viagem"... a frase "Eu morri, eu sei", que abre o refrão de "Caos", é ou não uma referência ao Morrissey?



Você me pegou mais uma vez!!! hahaha
É sim uma referência ao grande Morrissey! Eu estava ouvindo uma das minhas canções preferidas de todos os tempos, que é "How Soon Is Now", e foi daí que veio a inspiração pra uma parte de "Caos". Vi o clipe e depois assisti uma versão no YouTube ao vivo, mais recente, dele cantando a faixa. Senti uma melancolia forte, não sei, é como se algo tivesse apagado nele. Amo o Morrissey e isso me deixou aflita. Um tempo depois, infelizmente, eu li uma entrevista dele contando sobre sua luta contra o câncer, dizendo "Se eu morrer, eu morri. Se não morrer, então não morri. (...) Muitos compositores de música clássica morreram aos 34 anos e eu ainda estou aqui, e ninguém sabe o que fazer comigo".


Bom, começo de ano geralmente é momento de fazer planos. O que você almeja para este ano que já começou tão bem? O que pode adiantar para nossos leitores em termos de gravações, shows, novos clipes? Alguma possibilidade de você tocar no Norte?

Nossa, não há nada que eu queira mais pra esse ano do que ver esse projeto encaminhado, fazendo a engrenagem rodar! Atualmente estou em um momento de elaboração de repertório junto com o Vinny. Dependo muito dele, e ele é um cara muito atarefado, tem a carreira dele, família, dissertação de mestrado pra cuidar! E a Samara pra dar mais trabalho! (risos). Confio plenamente que em breve colocaremos o trem nos trilhos e rumaremos Brasil adentro pra fazer esses shows no Norte, Nordeste, ou onde nos solicitarem a presença!




Desenhos: Samara Noronha

Fotos: acervo pessoal da artista

2 comentários:

  1. Muito bom esse material. Entrevista de primeira, além de ir passeando pelas canções. Trabalho de primeira, meu caro! Paguei pau pra você aqui, Fábio Gomes!

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