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sábado, 24 de janeiro de 2015

@SomdoNorte Entrevista: Euterpe

2015 é um ano que já começou com grandes alegrias aqui no Som do Norte, e para citar apenas um exemplo posso dizer que tivemos a feliz oportunidade de lançar na internet o novo CD de Euterpe, Batida Brasileira 2, nosso "Disco do Mês" de janeiro. 

Nesta entrevista, a cantora e compositora roraimense conta como foi a concepção do repertório e dos arranjos, as novas parcerias, a gravação no Rio de Janeiro e fala das perspectivas para o ano que inicia. 


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Fabio Gomes - Euterpe, você me parece ser uma das poucas, pra não dizer raras, artistas brasileiras que planejam sua carreira a longo prazo. Ao lançar em 2009 o primeiro CD Batida Brasileira, você já deixava claro que a ele iriam se seguir outros dois, sendo que o segundo está sendo lançado agora no início de 2015. Quando foi que ocorreu a você a ideia desta trilogia?

Euterpe - A trilogia é uma ideia do meu produtor Eliakin Rufino para que  eu pudesse ingressar no mercado fonográfico pensando na continuidade do meu trabalho e  na afirmação da minha identidade como cantora e compositora brasileira. Foi inspirada também em outras trilogias da música e da literatura como as cartas de Griffin e Sabine do escritor Nick Bantock, e na trilogia Refazenda, Refavela e Realce de Gilberto Gil, por exemplo. A ideia é contemplar a diversidade rítmica brasileira valorizando compositores da região Norte.




Este disco tem mais composições suas do que o anterior - são 8, sendo 6 em parceria com Eliakin Rufino, também produtor do disco. Em outra entrevista nossa, sobre o primeiro disco, você comentou que primeiro ele fazia o poema, e depois você escrevia a melodia. O processo continua sendo este? 

Num primeiro momento comecei a compor musicando as letras do poeta Eliakin Rufino, que tem muitos parceiros. Depois fui aprendendo mais sobre composição com ele e ficando mais autônoma na criação das melodias e dos temas.

E a parceria com Gilberto Mendonça Telles ("Viola goiana"), foi novamente a partir de um poema escolhido por você na antologia poética dele?

Fiz algumas músicas para poemas de sua antologia Hora Aberta e  "Viola Goiana" foi uma delas.  A poética dos violeiros do Cerrado tem uma carga de brasilidade que integra bem a proposta da trilogia.



Uma das surpresas do disco é sua estreia como letrista em "Oiseau noir", vertendo para o francês o poema "Pássaro negro"da Odara Rufino em homenagem a Frida Kahlo; a melodia também é sua. Por que exatamente a opção pelo francês nesta canção (ao invés, por exemplo, do espanhol, que talvez fosse uma escolha mais óbvia, sendo Frida mexicana)?


Em Boa Vista há uma comunidade de praticantes de língua francesa por conta do caráter cosmopolita que tem a nossa cidade. Estudei francês no curso de letras da UFRR e essa composição foi uma forma de incorporar essa língua ao meu trabalho musical. Frida Kahlo foi uma pintora brilhante, tem fãs pelo mundo todo e pode ser homenageada em qualquer idioma.

Ao ouvir "Loira Linda", o ritmo contagiante e a letra algo reiterativa me fizeram pensar em Jorge Ben. Depois que eu já havia publicado o CD no blog, me ocorreu que talvez você e Eliakin pretendessem fazer uma resposta à "Lôraburra" de Gabriel o Pensador. Vocês pensaram de fato nessas referências ao compor?

"Loura Linda" é uma resposta a "Lôraburra" do Gabriel O Pensador. O verso que diz “cabelo não é burrice, quem vê cabelo não vê coração”, deixa explícita essa referência. Essa música tem a intenção de valorizar as mulheres que nasceram e as que escolheram ser louras. É uma forma afirmativa de colocá-las como protagonistas de suas vidas e de elevar sua autoestima.

Acho que uma das primeiras músicas a serem selecionadas para este CD foi "Vagabundo", poema do Álvares de Azevedo musicado pelo Naldo Maranhão, do Amapá. Lembro que você a cantou em um programa de rádio em Manaus do qual nós dois participamos (Alta Frequência, do Sandro Abecassis, na Amazonas FM, em 15 de setembro de 2012 - veja o vídeo aqui) - aliás, a convidada era você, que teve a extrema gentileza de estender o convite a mim. Nesta canção temos presente a valorização da liberdade individual, que também é uma das principais características dos poemas e das letras do seu parceiro Eliakin Rufino. Como foi que "Vagabundo" chegou até você?

Foi uma sugestão do Eliakin que me apresentou essa música que estava guardada nos arquivos de sua coleção de MPB do Norte. Me identifiquei com a liberdade proposta no tema. Não conheço o compositor Naldo Maranhão pessoalmente, mas achei genial ele ter musicado esse poema longo com estrofe e refrão, no formato de música popular. 

Em termos musicais, o primeiro CD era bem focado numa sonoridade clássica de MPB, enquanto nesse novo disco percebo um certo diálogo com o universo pop. Isto foi algo que você planejou, aconteceu devido a influências do que você e o Eliakin têm escutado, ou mesmo foi uma sugestão do arranjador Ney Conceição?

A concepção dos arranjos musicais é do Ney Conceição, que criou saídas que valorizassem a essência da minha composição e o virtuosismo dos músicos. Quase todas as faixas do CD têm improvisos especiais. Ney é um artista experiente e a sua linguagem musical deixou meu CD mais universal. 




Por que a escolha de gravar o disco no estilo "ao vivo no estúdio" (ou seja, sem playback), como já fizeram recentemente Arnaldo Antunes e, em Roraima, as bandas Veludo Branco e Mr. Jungle (e, como aliás, Elis Regina sempre gravou)? 

Para a produção do segundo CD me senti preparada e confiante para encarar um desafio musical mais dinâmico, visceral e objetivo, optando pelo formato de gravação ao vivo no estúdio.  

Os músicos foram escolhidos por você, pelo Ney Conceição, que fez a direção musical, ou por ambos? 

A escolha dos músicos foi feita pelo Ney Conceição, que convidou para integrar a banda do CD  o baterista Lúcio Vieira, o pianista  Luiz Otávio Paixão, o trompetista José Arimatéa, o trombonista Marlon Caldeira Sette, além das participações especiais do sanfoneiro Mestrinho e da guitarra portuguesa de Vitor Geraldo Lopes Aragão.

Além desses músicos fantásticos que você destacou, o CD tem a participação de Robertinho Silva nas faixas "Coração Campeão", "O Rio é Mar" e em especial em "Sertão das Águas", de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, sendo que ele já havia tomado parte na gravação original do Milton em 1990. Como aconteceu o convite a Robertinho para participar do CD? 
  
O convite ao Robertinho Silva  partiu do Ney Conceição, e tive o presente  de ter a sua participação em três faixas do CD, principalmente em "Sertão das Águas", criando um link musical com a gravação original do Milton Nascimento. 

E por que a escolha de regravar "Sertão das águas" e de colocá-la como abertura do disco?

O arranjo musical feito pelo Ney, que tem "Vera Cruz" como música incidental, deu uma atmosfera de abertura para o CD que, associada à importância dos compositores com a força do tema de floresta na abordagem da letra do poeta Ronaldo Bastos, fez com que a música ocupasse esse espaço. Para mim é uma honra gravar uma música do Milton Nascimento, um dos maiores compositores do país, e "Sertão das Águas" me emociona profundamente.  

Na letra de "Casa de Cesária", Eliakin menciona que 'as rádios tocam/ o povo canta/ aquela voz/ que enche meu peito/ de esperança', e eu não pude deixar de lembrar uma entrevista sua de 2010 para o jornal Em Tempo, de Manaus, lamentando que as rádios de Boa Vista não tocavam música de Roraima. Houve alguma melhora nesse quadro?

As emissoras de rádio tem incluído pouco a pouco a música local na programação. A cena musical de Boa Vista está fervendo e novos artistas e bandas vêm surgindo para ocupar esse espaço.


Você tem apresentado canções desse novo disco já desde o final do ano passado. Já há previsão de quando você irá fazer o show de lançamento oficial de Batida Brasileira 2? E algo previsto para a circulação deste trabalho?

Como os músicos que gravaram o CD residem no Rio de Janeiro e com a impossibilidade de trazê-los para um show de lançamento oficial, optei por fazer o show de lançamento no formato voz e violão que aconteceu no dia 23 de novembro de 2014, como parte da programação musical do Festival Gastronômico promovido pelo Sebrae,  para o qual fui convidada. Estou em fase de negociação e agendamento do meu show para 2015 em cidades brasileiras e em outros países. 



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