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quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Som do Norte entrevista Pia Vila: "Tô aqui e nunca precisei imitar ninguém"

Na estrada há 40 anos, Juscelino Araújo Vila Nova, o Pia Vila, continua sendo um dos grandes ícones da música acreana, com uma carreira pautada pela sorte. O Igg Pop acreano se prepara para fazer um show (ainda sem data) em comemoração das 4 décadas dedicadas a música. Performático, irreverente, conversador - e, como ele mesmo se denomina, psicodélico - , Pia é um homem cheio de histórias e algumas delas ele nos contou em uma rara entrevista sua, com exclusividade para o Som do Norte. (Nany Damasceno, de Rio Branco)




Pia Villa, tu és referência para boa parte das bandas que surgiram após a década de 1970 no Acre, me conta como começou tua história com a música.

Ah, foi quando era muito novo, uns 10 anos de idade, atrás lá de casa tinha um barracão e eu usava lá pra fazer show pros meninos da rua dia de domingo, a gente reunia as panelas da minha mãe, uns pedaços de pau e inventava uns instrumentos, aí passava um pessoal vendendo uns berimbaus na rua, a gente juntava tudo e fazia nosso show.

Mas a sua carreira de fato, começou, um pouco depois de uma forma bem inusitada, não é?

Rapaz, foi uma carreira por acidente, literalmente, quando eu tinha 17 anos, sofri um acidente de moto e quebrei a perna, nisso, o Chico Pop me deu um violão Trovador de presente, até ali eu não sabia que na família havia uma veia nordestina que me levava a esse universo da música, mas aí, eu e o Chico compomos uma música, então o artista que eu estou me propondo a ser hoje começou nessa época.

Pia, tu chegou á participar do 7° Festival de Música da Amazônia, nessa mesma época. Me fala como foi participar de um festival em outro estado ainda tão novo?

Quando eu fiquei sabendo de um festival, coincidentemente, um amigo estava indo pra lá, pra  vender um Fusca, aí eu peguei meu violão, com perna quebrada mesmo, me mandei pra Manaus, foram 4 dias para chegar em Manaus, era rio, era lama na estrada, era violão, era perna quebrada, eu e mais 4 pessoas dentro daquele fusca, mas chegamos.

E me conta, como foi o festival?

Rapaz... Já na primeira noite, eu resolvi cantar um lamento, eu tinha duas composições, era esse lamento e a outra era um pop rock, mas eu escolhi o lamento e subi no palco, agora imagina a cena, eu magro, com a perna engessada, aquele óculos estilo John Lennon, o público começou a gritar enlouquecido, eu estava com tanta certeza que aquilo ia dar certo.... levei a maior vaia, sai de lá arrasado, nem terminei a música e desci do palco.

Mas aí tu desistiu do festival?

No segundo dia de festival, um amigo lá, me convidou para ensaiar com uma banda, eu disse que não ia dar tempo porque a apresentação ia ser naquela noite e já tava tarde, mas ele insistiu e eu fui quando entrei naquela sala cheia de instrumentos, aquela banda toda, tinha guitarra, baixo, bateria piano, tinha tudo... Instrumento que eu nunca tinha visto na vida! Eu fiquei paralisado, aí nós ensaiamos já outra composição.

E como foi essa segunda apresentação?

Quando entrei no palco com toda aquela banda, efeitos... eu me senti tão artista que larguei até a muleta e fiz a apresentação. Fiquei arrepiado, aquilo era maravilhoso, era o sucesso, o público foi ao delírio, fui o primeiro lugar naquele dia.

Pia, foram quase 30 anos entre o começo de carreira até gravar o seu primeiro CD, Aldeia Sideral, nesse tempo tu ficou compondo inclusive com parceiros como Chico Pop, me fala mais

É, nessa época éramos eu, Chico Pop e Felipe Jardim, éramos tipo inseparáveis, mas o Chico não subia no palco, só nos ajudava á criar, inclusive desde o começo, ele sempre me incentivou... Chico lia muita coisa e com isso ele criava muita coisa bonita.

E os festivais da praia do Amapá?

Eu toquei muito nesses festivais, Leninha (a esposa de Pia) sempre me fala que eu deveria ter tido mais sorte, como o Zezé di Camargo por exemplo, que a gente tocou na Rádio Novo Andirá... Ele passou por aqui numa época de início de carreira e tocaram pela praia da base, na rádio, mas eu acho que eu não soube investir mesmo na minha carreira, mas o importante é que tô aqui e nunca precisei imitar ninguém.

Então mesmo que as coisas não tenham sido fáceis, você acha que valeu tudo á pena?

São 40 anos de carreira entre fracassos e sucessos, sucessos e fracassos, desiste, não desiste. Sem instrumento, eu tento tocar, não dá certo. Eu monto uma banda, depois se debanda e todo mundo sai de banda, ai eu fico só, mas aí eu descobri uma coisa: eu fiz a minha identidade durante esse tempo. Tem coisas que pegam um artista. Tipo uma criança que chegou em mim, vendendo quibe em uma bacia, pegou um papelzinho e disse "seu Pia, assina aqui pra mim que eu sou seu fã" isso me enche de vontade de continuar fazendo isso, isso é o que me dá gás.

Pia são 3 CDs gravados e 1 DVD, e não é muito difícil te encontrar pelas ruas de Rio Branco de bicicleta com uma mochila nas costas fazendo a venda desse material.

É, como os CDs acabaram, agora eu mesmo gravo em casa e vendo num precinho bacana, eu quero é levar meu trabalho pro maior número de gente. Nessa de gravar em casa, outro dia eu vendi um pra um camarada, quando outro dia eu encontrei e ele disse: "Ô Pia, aquele teu CD tava em branco" Morri de vergonha e dei outro pra ele, acontece nessa produção caseira (risos) .

E os shows, Pia Vila, faz um tempo que você não se apresenta?

Estou pensando em algo bem bacana pra comemoração dos 40 anos, estou fazendo esses planos, mas as coisas demoram pra acontecer, já tive foi bursite de tanto ensaiar esse show, mas agora resolvi procurar a Fundação de Cultura e me pediram pra escrever o projeto, tenho fé que vai rolar.

Mas e CD novo, não vai ter nenhum reunindo os sucessos pra comemorar essas quatro décadas?

Tenho mais de 30 composições guardadas para os próximos trabalhos, eu fico compondo em casa , né? Não tenho feito shows, mas continuo compondo, uma hora as coisas melhoram e a gente grava.

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