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domingo, 3 de agosto de 2014

Do Acre para o mundo: João Donato, 80 anos

A publicação deste bate-papo com o mestre João Donato é muito especial para nós. Para comemorar os cinco anos do Som do Norte no ar, fomos ouvir aquele que seja, talvez, o maior nome vivo da música nortista - o acreano que é, ao mesmo tempo um criador genial que não se dobra às exigências do mercado, e um artista cuja fama abrange todos os continentes. Mistura esta que, modestamente, tentamos reproduzir em nosso trabalho. Mais que o blog, hoje, quem está de parabéns é a repórter Nany Damasceno, que se saiu muitíssimo bem do desafio de ficar frente a frente com Donato, um dos maiores nomes da música brasileira de todos os tempos. Ah, sim, a publicação é duplamente comemorativa: pelos 5 anos que o blog completa hoje, e pelos 80 que Donato completa em 17 de agosto. (Fabio Gomes)


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Do Acre para o mundo: 

João Donato, 80 anos


Por Nany Damasceno,
de Rio Branco



Filho de um dos primeiros pilotos acreanos, nascido em 1934, João Donato completa no próximo dia 17, 80 anos. Destes, 60 são dedicados à música como profissão. Mas a verdade é que o gosto pela arte começou muito cedo, quando sua irmã, três anos mais velha, praticava piano dentro de casa.

Donato fala com muito orgulho de sua infância, fala sobre seu pai que mais parece um herói quando conta que ele ajudou a construir o mapa territorial do estado do Acre. Acrescenta ainda que recebeu todo o apoio da família para ingressar na música.

Quando tinha por volta de 5 anos de idade, ganhou uma sanfona de brinquedo e começou a tocar músicas infantis: “Meus pais então notaram aquilo, contrataram um professor e me compraram uma sanfona de verdade, foi aí que eu fui criando ainda mais gosto pela música”, ressalta com muito carinho e saudosismo. Ainda na infância, se apresentou na Rádio Difusora Acreana, a primeira emissora do Acre “Era um programa ainda em fase experimental e eu fui um dos primeiros a participar”. 


Nany Damasceno entrevista João Donato
- Rio Branco, 25.7.14
(foto: Thiago Cabral)


Ao ser perguntado sobre como a música deixou de ser apenas algo que ele gostava e passou a ser sua profissão, o pianista revela que seu sonho na verdade era ser piloto de avião, como o pai. Chegou a fazer o teste, mas não passou, descobriu aí que era daltônico. ”Meu pai chegou a pedir que eu refizesse o teste, pois não acreditou no resultado, refiz, mas não teve jeito, pensei: Já sou músico até agora, se não deu certo ser piloto vou continuar como  músico;  e pra isso tive todo o apoio do meu pai que me disse que ser músico era tão bom quanto ser piloto”.

Aos 11 anos de Idade, sai do Acre e vai morar no Rio de Janeiro com toda sua família, foram acompanhar o pai militar:

Ele queria nos dar uma boa educação, naquela época o Acre não era isso tudo que é hoje não, era pequeno, o meio de transporte eram canoas que transportavam os passageiros pelo rio, eram os nossos ônibus. Havia poucos carros e meu pai então escolheu ir pro Rio, lá ele já conhecia”. 

Assim como tudo que lhe aconteceu na vida de músico, a primeira gravação em estúdio também não foi decisão dele, foi um convite feito por Altamiro Carrilho, em 1949, na Rádio Guanabara, onde gravaram “Minha Saudade”, uma de suas primeiras músicas, que mais tarde ganhou letra de João Gilberto - seu parceiro também em outras canções. 

Donato nem se lembra bem como foram suas primeiras apresentações musicais, mas diz que começou a participar de programas de rádio e um dos primeiros foi o Papel Carbono, onde participou tocando uma música de Luiz Gonzaga. E então começou fazer parte da equipe do programa que era semanal.

Na época de escola, Donato conta que se apresentava com sua irmã nos shows de talento que o colégio promovia, formavam a dupla “Os Irmãos Oliveira” Foi ainda na época de colégio que  ele conheceu Os Namorados da Lua, primeiro grupo musical em que participou profissionalmente “Na época eles desfizeram o grupo e depois alguns resolveram retomar e me chamaram, com eles nós gravamos muita coisa que inclusive é referência na história da bossa nova”, conta.

Donato lembra que, uma época, as coisas ficaram muito difíceis para a música nova no Brasil “Eu e uma turma gostávamos de inovar, e não havia espaço pra isso, as pessoas só queriam saber daquilo que já estavam acostumadas”. 

Então foi para os Estados Unidos: “Chegando lá também não foi o que eu queria, o espaço lá era apenas para a música latina: o mambo, o tchá-tchá-tchá e esses ritmos, então o espaço pro jazz era muito limitado”. João conta ainda que teve muita dificuldade de aceitação pelos próprios músicos brasileiros que residiam nos Estados Unidos: “Eles me achavam muito americanizado (pausa pra risadas), então eu não me adaptei nem com os brasileiros nem com os americanos.”

“Na verdade, recebi um convite de Nanai (integrante d'Os Namorados da Lua), eu fui aos Estados Unidos fazer só 4 semanas de apresentações em um cassino, ao fim dessas 4 semanas, chegaram pra mim e disseram: Não dá pra você voltar porquê nós compramos sua passagem de vinda a prestação (pausa para mais risos), pensei: "Tô lascado, os brasileiros não me querem e os americanos também não, o que quê eu vou fazer?” 

Assim, João Donato ficou 12 anos nas terras de Tio Sam. Nesta época, ele lembra que já tinha simpatia pela música latina, mas não sabia tocá-la. Então, um dia viu um cartaz que dizia que haveria um show de Carl Tjader, músico de quem já conhecia o trabalho e resolveu então esperar. “Quando Carl Tjader chegou, eu já fui falando com todo o quinteto como se conhecesse, então me convidaram para tocar uma música com eles, logo depois recebi o convite pra tocar com eles e assim passei uma temporada, uns três ou quatro anos, mesmo sem saber direito tocar a música latina”.

Nessa temporada no exterior, Donato também tocou com João Gilberto numa excursão pelos Estados Unidos.

Após  12 anos, João Donato retorna ao Brasil e começa a preparar seu novo trabalho que, como os outros, seria mais um instrumental, porém, o cantor Agostinho dos Santos questionou esse trabalho “Ele me disse: vai gravar outro disco, tocando piano de novo? Você já fez isso, se eu fosse você eu botava letra porque nós cantores não podemos cantar suas músicas porque elas não tem letra.” E foi aí que começaram as composições e surgiu o LP Quem é Quem - considerado um dos 100 melhores discos de todos os tempos pela revista Rolling Stone-  e então começaram a surgir os vários sucessos como ‘Simples Carinho”, ‘A Paz’, ‘Emoriô’ e ‘Bananeira’, além das grandes parcerias com músicos como Gilberto Gil, Dorival Caymmi  e Caetano Veloso.


Depois desse período, Donato (ao lado, em foto de Thiago Cabral) ficou quase vinte anos em hiato, segundo ele, isso aconteceu pela falta de espaço, diferente do que foi quando saiu do Brasil anos antes, desta vez, a música que o brasileiro queria era o novo e não mais o habitual.

Meu som não era, como eu posso dizer, comercial, com isso minhas músicas perderam espaço pras novas coisas que surgiam”.

O músico começou então a fazer arranjos para outros artistas, o importante era viver a música como fosse.

Em 1996, João volta a gravar e lançou o álbum Coisas tão simples, onde gravou uma parceria com Cazuza, ‘Doralinda’. E de lá pra cá ele não parou mais, lançou mais discos, fez participações e ganhou homenagens.

Engana-se quem pensa que Donato e seus 80 anos são apenas jazz e bossa nova, ele já fez participação no DVD de Marcelo D2, por exemplo, onde junto com o rapper misturou a bossa nova com o hip hop, além disso, recentemente recebeu em seus shows Tulipa Ruiz e Mariana Aydar. Ele explica que isso se deve ao filho de 28 anos, Donatinho, também músico, que está sempre levando novas músicas: “meu filho é pianista, gosta de rock, hip hop e ele tem essa linguagem mais pop. Isso acabou me levando a ficar mais por essa área”.

Dentre as várias lembranças que carrega em todos estes anos de carreira, quando lhe perguntei se havia alguma que lhe trazia boas risadas sempre que lembrava, Donato contou uma história de quando convidaram João Gilberto para fazer uma temporada de shows e ele foi junto: “Era início de carreira, ele não era conhecido e eu muito menos. Foi em São Lourenço, eu acho, em alguma estação de água mineira. Fomos contratados para fazer duas semanas de shows em um hotel, e após a nossa primeira apresentação, o dono do hotel chegou e nos falou para não nos preocuparmos com nada, nem com alimentação, hospedagem, passagens estava tudo ok; ele pediu apenas que pelo amor de Deus nós não tocássemos mais”. Mal sabia o contratante o que os dois Joões viriam a se tornar...

Hoje, às vésperas de seu aniversário, João Donato vive no bairro carioca da Urca. É pai de Jodel, Joana e Donatinho, é casado há 14 anos com a jornalista Ivone Belém, que participou de boa parte da nossa entrevista esbanjando simpatia, bom humor e ajudando o pianista a lembrar partes de sua longa história.


Foto: Ivone Belém


João hoje leva uma vida sossegada e tem uma alma quase infantil, um sorriso sincero e uma mente que não pára, só temos a desejar que haja mais inspiração para que mestre Donato continue nos presenteando com suas obras.



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