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domingo, 27 de julho de 2014

@SomdoNorte Entrevista Eliézer RocknaVenta: "Continuo acreditando em fazer o simples"

É difícil pensar na cena alternativa de Belém sem a figura de Eliézer RocknaVenta (que já se assinou Eliézer Andrade e Eliézer Wonkas III). Front man das duas principais bandas de rock da geração 2000 (Eletrola e Johny Rockstar), ele embalou os corações de uma legião de fãs com seus hits bubbleguns, movimentando também o circuito musical da cidade. Em entrevista exclusiva para o Som do Norte, o compositor de “Revel”, “Não olhe pra mim” e “Alcalina” faz uma retrospectiva da carreira (dos shows ao ar livre em Ananindeua aos grandes festivais fora do estado), fala sobre novos projetos musicais e avisa aos saudosistas de plantão: “A Johny Rockstar não terminou! Num futuro próximo a gente faz um novo disco pra se divertir novamente!”. (Bianca Levy, de Belém)


Eliézer em show do Johny Rockstar no Fest Music - Belém, 2009
(foto: Renato Reis)


Eliézer, me conta sobre a tua adolescência nos anos 90; de que forma o som que tava rolando na época influenciou a tua musicalidade e fez tu quereres montar a própria banda de rock?

A maior referência que eu tenho dos anos 90 é o Nirvana e o Weezer, até porque minha família, que é evangélica, só ouvia música gospel em casa. Acho que o único artista não-gospel que minha família ouvia era o Michael Jackson. Quando eu vi o clipe do Nirvana na MTV, aquilo realmente mexeu comigo. Não pensei de imediato em montar uma banda, mas realmente me fez ouvir outras coisas como Pink Floyd, Beatles, Led Zeppelin, Queen, Black Sabbath e outras coisas. Acho que eu conheço até poucas bandas (da década) de 90 porque enquanto a garotada da época vivia na frente da MTV eu fui ouvir bandas da década de 50, 60 e 70 em vinis do meu tio e na casa de amigos.

E como foi esse teu primeiro passo na cena musical? Qual a primeira banda que tu tivestes?

A primeira banda que eu tive foi uma banda de bairro, da Cidade Nova 5 (em Ananindeua-PA), juntando amigos da escola e do bairro. A gente tocava covers do Ramones, Nirvana e Weezer... além de algumas músicas autorais. Apesar de não tocar muito bem, quer dizer, apesar de não tocar absolutamente nada, a experiência com meus amigos me deu uma perspectiva de que era possível continuar a fazer aquilo de uma forma mais organizada. A banda deu um tempo no período em todo mundo teve que fazer vestibular. Mas o aprendizado daquele período foi muito bom.

Me conta sobre a cena Rock de Ananindeua. Como era fazer parte desse circuito paralelo à cena de Belém?

Eliezer RocknaVentaDiferente de Belém, as bandas de Ananindeua faziam eventos quase todos os finais de semana. Seja por diversão ou pra juntar os amigos que gostavam de rock e isso gerava um círculo social bem interessante num período sem a força que internet tem hoje. Os shows sempre eram em lugares grandes, casas noturnas, bares e, quando a Prefeitura permitia, até em praças abertas nos dias de domingo. A grande diferença era a ausência de rádios e mídias impressas para dar um suporte para aquele circuito cultural/comercial praquilo que acontecia lá.

E a Eletrola, como surgiu?

No meio desse contexto eu passei no vestibular e agora não havia um entrave ou cobrança familiar para montar uma nova banda. Eu reencontrei antigos amigos como o Camillo Royale (hoje na Turbo) e as afinidades pelas mesmas bandas fez surgir a Eletrola. Para além disso, não foi muito difícil formar a banda, meu irmão (Natanael Andrade) já tocava e estava no quarto ao lado, eu conhecia um baterista que era quase o Dave Grohl e o Camillo tinha duas guitarras na época. Juntando o tempo livre que um adolescente tem, não foi difícil começar a fazer barulho.

Como foi dividir essa experiência de ter uma banda com o teu irmão? Como a relação de vocês influenciou no formato da banda?

É difícil falar dele porque apesar de a gente não tocar mais hoje, eu sempre olhei pra ele com a mesma admiração que eu tenho por grandes guitarristas/artistas como David Gilmour, Jimi Hendrix, George Harrison e outros grandes guitarristas. A diferença é que eu tinha um grande ídolo ali ao meu lado pra conversar e jogar conversa fora. Ele é meu irmão mais novo e meu sentimento protetor por ele sempre existiu desde criança... acho que tocar ao lado dele durante tantos anos só fez essa admiração aumentar, mesmo hoje ele seguindo outros caminhos.

Me conta sobre o disco de vocês (Eletrola, 2003); como foi o processo de composição, escolha de músicas, gravação etc?

Essa foi a parte fácil. A gente tinha um amigo que no início da popularização das gravações caseiras já conhecia o processo. Ele se dispôs a fazer o disco na brodagem e juntamos isso a algumas músicas que eu tinha na gaveta. Resultado: Rock e Distorção !

E as tours de vocês fora do estado, como foram? Me fala um pouco sobre essa experiência.

Ai foi a parte mais difícil. Viajar com uma banda quando você é adolescente e com pouca experiência de vida não é uma tarefa fácil. Mas a gente dividia as tarefas e as coisas iam acontecendo. A gente era jovem demais pra entender a importância de conhecer grandes artistas, produtores musicais, tocar em lugares muito pequenos e em grandes festivais com uma estrutura que em Belém era difícil de encontrar. Depois de me profissionalizar eu vejo como essa experiência foi importante na minha carreira. Hoje eu posso dizer que foi uma das 5 coisas mais importantes que eu fiz na minha vida de músico. Tocando ao lado dos meus amigos, passando de ônibus por São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Distrito Federal e alguns outros interiores fazendo o que você mais gosta e sendo pago por isso. Pra jovens entre 17 e 20 anos de idade é uma experiência única e realmente transformadora.


Em algum momento tu imaginou que a banda fosse ter tanta repercussão e alcançar um público tão grande?

Acredito que isso aconteceu porque a gente tinha uma fórmula simples e que ninguém estava fazendo aquele tipo de música por aqui naquele momento. Música pop, riffs de rock e refrões fáceis de grudar na sua cabeça. Até hoje o disco da Eletrola é apontando como um dos mais importantes no cenário musical de Belém e para alguns críticos especializados em música independente ele está entre os 10 mais importantes do cenário independente nacional. Continuo acreditando nessa fórmula. Fazer o simples! Não quero dizer que as bandas devem ser simplórias. Mas fazer o simples é criar identificação com quem houve sua música e isso é a maior recompensa quando se é compositor.



Eletrola: Eliézer, Natanael, Camillo e Andréa

Depois de alcançar prestígio na cena alternativa, a Eletrola acabou. Quais os motivos do término da banda?

A gente era jovem e eu principalmente era muito orgulhoso e com aquela arrogância juvenil que sempre faz discussões desnecessárias aparecerem, criando conflitos de ideias entre os membros da banda. Mas é claro que outros motivos maiores surgiram também, como por exemplo: dinheiro pra fazer um novo disco, novos shows aparecendo, novos festivais pra tocar, e até convite pra tocar em outros países. Juntando tudo isso com uma falta de maturidade jovem inerente à banda naquele momento, acho que a gente não esperava tudo que estava acontecendo (risos). Hoje conversando com o Camillo a gente nem lembra porque a banda acabou. Mas com certeza não descarta a possibilidade de fazer outras coisas novamente.

Os dissidentes do Eletrola e Suzana Flag formaram em seguida o Johny Rockstar. Qual a proposta desse novo grupo? 

Inicialmente eu queria montar uma banda de hard rock. Mas aí as pessoas foram dando uma evidência de superbanda pra Johny Rockstar. Acabou que meu lado de compositor pop se juntou à forte veia pop do meu amigo Elder Effe e a gente com toda modéstia fez um grande disco de rock (o EP Johny Rockstar ao vivo, de 2007), que as pessoas acabaram se identificando muito rápido e a partir daí a banda começou a ter sua identidade.

Pra ti, de que forma a experiência na Eletrola influenciou o som do Johny?

Na minha concepção não mudou nada. A maior diferença é que dessa vez eu não estava compondo sozinho como na Eletrola. Dessa vez o Elder Effe e meu irmão também escreviam as músicas e isso deixou o disco da Johny Rockstar com uma cara bem diferente da Eletrola. 



Cartaz da 5ª Noite Som do Norte (2011),
que teve Johny Rockstar como banda principal
(Arte: João Lemos)

Quais os principais momentos que tu vivestes no Johny, entre gravações, shows, festivais etc?

Acredito que os festivais foram nossos grandes momentos. Sempre os veículos de mídia nos apontavam como melhor show daqui de Belém e dos festivais, sendo destaque em mídias impressas e eletrônicas como MTV e blogs/sites especializados em música independente.  Além disso nosso grande momento particular era o fato da gente ter um fã-clube capitaneado pela minha grande amiga Helaine Cavalcante, que movimentava ações que levavam um grande número de fãs aos nossos shows. E isso acabava se tornando uma fórmula infalível. Apesar da banda sempre pensar em fazer um show pra cima, o mérito dos nossos shows sempre serem destaque com certeza é a presença dos fãs e do público que se identificou com a gente.


Johny Rockstar: Ivan, Natanael, Eliézer e Elder
(Foto: Tita Padilha)


O Johny Rockstar foi uma banda que rapidamente conseguiu vários fãs e espaço na cena local e depois de um espaço de tempo também se desfez. Quais as causas desse término?

A Johny Rockstar não terminou! (risos) Ela fechou um ciclo, um ideal que a gente queria alcançar: diversão e rock’n’roll. Diferente da separação de outras bandas. A gente não brigou. A gente só achou que era o momento de fechar um ciclo. No momento a gente não tem um show novo pra oferecer para os fãs se divertirem. Mas num futuro próximo a gente faz um novo disco pra se divertir novamente.

Das composições que fizestes para ambas as bandas, quais as preferidas e que te dão mais saudade de tocar no palco? 

“Sem Querer” do Eletrola e “Canção do Sol” da Johny Rockstar são as únicas músicas que eu escrevi sobre uma experiência pessoal. E que têm um significado muito especial para mim. Não que as outras músicas não sejam importantes pra mim, mas elas foram feitas pra amigos e outras pessoas próximas e que por algum motivo outras pessoas acabaram se identificando.



Capa do single "Monoral", de 2009


Atualmente tu atuas como professor e não moras em Belém. Qual o espaço da música nessa nova realidade? Como essa nova vivência influencia na tua musicalidade?

Acho que eu tenho mais tempo agora pelo fato de trabalhar somente segunda, terça, quarta e quinta. Os outros dias: sexta, sábado e domingo eu trabalho em projetos musicais que em breve irão dar as caras.

E quais projetos são esses, tu podes adiantar?

Eu sempre estou compondo e produzindo. No momento eu auxiliei na produção da banda gospel do meu amigo Mário Antunes que foi baterista da Eletrola. Além disso, gravei alguns jingles para rádios de Salinas e Castanhal. Atualmente estou ensaiando e compondo música com um power trio formado por mim, Ariel Andrade (ex-The Baudelaires) e Jr. Feitosa (Johny Rockstar e Espoleta Blues). Em breve a gente começa a gravar um novo disco e fazer shows pra tirar a  ferrugem.


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