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domingo, 15 de junho de 2014

Kelen Mendes: "Compor preenche a alma"

Foto: Talita Oliveira


Por Nany Damasceno,
de Rio Branco


Kelen Mendes, com mais de 20 anos de carreira  é dona de um repertório focado na MPB e samba, incorporando ao estilo as tendências que influenciaram parte de sua geração como o pop, o funk, o soul e até  o rap.

A cantora tem um EP lançado, “Inundação” O nome faz uma homenagem à cidade de Rio Branco, ao barranco do rio Acre e aos moradores que habitam a beira do rio, como ela mesma, que viveu toda sua vida em um bairro às margens do rio que corta toda a capital acreana.

"Inundação" traz seis composições de ícones da música acreana: "Chico Rei", de Tião Natureza;  "Conselho de Amigo", famosa na interpretação do grande sambista Da Costa; "Inundação", de Narciso Augusto;  o clássico "Bambu", de Damião Hamilton; "Plantação de Bacuri", de Beto Brasiliense, que ficou conhecida na versão de Pia Villa; e "Dom Quixote", de Sérgio Patchouli.

A intenção da cantora ao pensar o EP foi tirar do baú as canções que costumava ouvir na Rádio Difusora Acreana, quando adolescente com o objetivo de torná-las conhecidas da nova geração, e essa ânsia de trazer o antigo para a atualidade continua nos trabalhos recentes da cantora que está cheia de novidades e novos planos na vida múltipla de cantora, compositora, produtora, musicista, funcionária pública e mãe, e nesse frenesi, Kelen encontrou um tempinho e conversou com o Som do Norte a respeito desses novos planos.

Kelen, você tá fazendo um show mensal, o projeto Sambackriolo. Explica pra gente um pouco o que é o Sambackriolo. 

Sambackriolo é a ideia de juntar o samba de raiz, que eu gosto, com um pouco do “back” ou “baque” de samba do Acre, justamente um samba de caboco; a gente tá descobrindo estas coisas agora; parte da nossa cultura que agora, só os mais velhos conhecem. Esta parte é o que tá rolando; agora a segunda parte é pra chegar até o samba-rock, que é outra coisa que eu gosto muito; na primeira parte recebo o Grupo Hélio Melo. Na segunda parte, espero dividir com Chris Guto, que faz essa praia e tá com a banda pronta; fiz agora o convite pro Chris, ele já sabe da intenção de fazer este trabalho juntos. Chegou a hora de tentar um patrocínio (risos).

Alguns shows já aconteceram, quantos foram e você pretende fazer mais? É um projeto com data pra término ou tu vais fazendo enquanto estiveres afim?

Conseguimos fazer quatro edições, de fevereiro até maio, sendo que uma única apresentação foi vendida; as outras três eu investi do meu bolso e tive apoio das fundações de cultura. Mas o projeto vai crescer e pretendo que cresça muito até o final de 2014, sem deixar falhar nenhum mês. Nós estamos fazendo uma hora e meia de apresentação e quando agregar a segunda parte será baile mesmo; é uma festa pra dançar muito.

Quais músicos te acompanham nesse show?

Os meninos do Grupo Hélio Melo (Tião Sete Cordas, Raimundinho no cavaco, Ronaldo no violão seis cordas, e Júnior no tan-tan) estão me acompanhando. Além de ótimos instrumentistas, também cantam e tem repertório e trabalho próprios. Contamos ainda com o acompanhamento luxuoso do Gabriel Brito no pandeiro.

Fala um pouco pra gente como têm sido essas apresentações.

As duas primeiras edições aconteceram no Clube Tentamen, um lugar que acho lindo. Depois fomos para o Casarão; gosto de coisas antigas, músicas, casas, mas de coisas modernas também. Então, tive o prazer de receber uns artistas para assistir o show, como o seu Pereirinha, Zé Jarina, o Sérgio Satiê, Rodolfo Minari, de quem canto uma poesia que musiquei, “Sessenta Anos” e é nosso flerte com o baque de samba do Acre.

Alguns desses shows tiveram participações especiais, fala um pouco pra gente dos teus convidados e porque os escolheu.

Cantei com a Camila Cabeça uma música do João Donato, “Sambou, sambou”. A Ana Kássia fez “As rosas não falam” do Cartola. As duas estão começando e é sempre bom um espaço a mais pra apresentar o que se sabe fazer; também são as meninas que estão por perto, junto com a gente. A Camila é também uma das linhas de frente do Banzeiro.

Kelen, como surgiu essa idéia do Sambackriolo? Ele é realizado pela Rede Banzeiro não é isso?

Nany, eu tinha a vontade de montar algo cantando samba, que gosto desde criança. Com o segundo ano da Rede Banzeiro, que tá construindo um cortejo carnavalesco regionalizado, a vontade cresceu porque samba e carnaval são primos, né; aproveitei a força do carnaval pra iniciar o Sambackriolo. Na verdade, tanto o show como o cortejo contam comigo, Jessé Luiz, Camila e agora o Alexandre Anselmo se envolvendo mais diretamente também na produção, executiva mesmo; somos nós, a nossa força de trabalho. Também estamos contando daqui pra frente com o apoio do Rodolfo, do Zé Jarina, Regina Cláudia e da Verônica Padrão mais diretamente no Banzeiro.

Fala pra gente sobre a rede, quais são as ações de vocês, porque criaram essa rede e se tá dando certo?

Faz parte do trabalho do Banzeiro tentar impulsionar nossa música e pra isso propus um recorte musical reunindo quatro grupos: a nossa Marujada resguardada pelo mestre Aldenor, o baque de samba do Acre, representado no cortejo por seu Antônio Pedro, Dona Carmem e banda, a música produzida pelo folguedo urbano contemporâneo Jabuti Bumbá, junto com todo um conceito de música produzida aqui (por Narciso Augusto) e reunidas no grupo Baquiry; os quatro grupos reúnem-se para o cortejo carnavalesco “Baquiry”. O Clenilson Batista (cantor e compositor) tinha pensado algo neste sentido e topou na hora agitar a ideia cujo nome ele mesmo sugeriu, Banzeiro (que significa "sucessão de ondas provocadas por uma embarcação em deslocamento"). Pra esse impulso, a música e nossa sustentabilidade artística, pensei em oficinas realizadas durante todo o ano que preparem a comunidade para aderir ao movimento e o próprio cortejo. No entanto, a operacionalização da ideia, a construção da Rede, tudo está em andamento, em construção mesmo. Acho que tem tudo pra dar certo, porque o conceito de “rede” está sendo ampliado na sociedade e os grupos e artistas agregados pela Rede Banzeiro estão começando a vivenciar o que podemos fazer juntos, como coletivo. A proposta está seguindo para o seu terceiro ano de construção e a terceira edição do “Cortejo Baquiry” é para o carnaval de 2015.


No lançamento do EP Inundação

Como é essa coisa de além de cantar, compor, se apresentar ali pro público, ainda ter que ser a própria produtora e fazer os seus eventos?

Muito trabalho e a gente não consegue fazer tudo mesmo, mas estamos começando no Acre um processo de preparação de produtores; empresas de eventos; ainda não sei como isso vai acontecer de fato, porque os recursos são sempre pequenos e o pessoal da produção melhor preparado acaba sendo nós mesmos, que passamos uma vida fazendo; porém nem todos os grupos têm acesso ou condições de acessar apoios e patrocínios; a Rede é uma tentativa de progresso em grupo (risos).

Na verdade essa coisa de produzir, vem de longa data, né? Você sempre foi articulada e participou dos  primeiros festivais aqui do Estado. Fala um pouco desse teu inicio.

Vixe (risos); dos primeiros não, porque era criança, mas FAMP (Festival Acreano de Música Popular) e Festival do Amapá foram o material da monografia que fiz para concluir o curso de Ciências Sociais. Mas sim, cheguei a ganhar o prêmio de primeiro lugar no FAMP de 1993. Eu tinha dezenove anos. Depois participei dos festivais da UFAC (Universidade Federal do Acre) de 2005 e 2006, e de alguns outros com e sem concorrência. Até um concurso de marchinhas de carnaval, onde tirei o terceiro lugar. Todo início é difícil; não ficou fácil (risos), mas hoje tenho alguma experiência e o acalanto de compor; antes apenas cantava e agora, acho que compor preenche a alma porque o processo da criação é terapêutico. O canto também é agora, a criação, a composição é o que me realiza.


No lançamento do EP Inundação

Como tu te descobriste no meio musical?

Canto desde criança, na escola. Mais ou menos aos vinte e três anos, quando estava terminando a Faculdade, abri o olho, e vi que já fazia isso há um “tempão”, quase vivia só pra música e não existia nenhuma chance de voltar pra tentar outra coisa. Agregar outras histórias sim: as Ciências Sociais, a rádio, a comunicação, elaboração de projetos, regente de coro infantil. Noventa por cento do meu cérebro só processa informações musicais.

Hoje, é complicado viver de música?

Atualmente, sou funcionária pública do Estado, concursada; se não fosse isso, não conseguiria sobreviver: tenho um filho; sou mãe solteira e sem pensão (risos). O excesso de mídia para a indústria de entretenimento, audiovisual, musical, não nos deixa qualquer chance de sobrevivência artística. Todo um sistema precisa mudar e até encontrarmos novas formas de diálogo e financiamento, muita cultura irá perder-se. Apenas tentamos fazer com que algo resista para que nossos filhos possam desfrutar de saber quem eles são. As identidades perdem-se e transformam-se; contribuímos de alguma forma.

Como é o dia a dia de quem faz essa arte?

Acho que fazer arte é refletir e desafiar; os artistas são considerados loucos, porque desafiam a lógica capitalista e mostram que nem tudo resume-se aos valores de compra e venda e que outras coisas têm valor. A arte é uma delas. Arte custa caro, no entanto, precisamos de uma transformação de consciência para que seja valorizada no Brasil. Pra fazer por algum tempo é possível fazer sem reflexão, só entretenimento; agora se você decide ficar na arte, acaba refletindo, desafiando e criticando, mesmo sem querer. No mais é cuidar da casa, do trabalho, da família e “ralar” muito antes da diversão, que é está no palco.



Quais são os CDs que vc lançou? Quais são os planos que você tem pra esse ano?

Só lancei um EP com seis músicas de compositores locais, “Inundação”, financiado com recursos da lei de incentivo estadual, antes de ser funcionária do Estado. Tenho um Cd com músicas próprias no forno (PorAquiry); só esperando patrocínio e além de levar o Sambackriolo até o final do ano, quero também lançar um clipe, que já está sendo produzido, e conseguir vender shows para fora do Estado e do país.


2 comentários:

  1. grata Fábio! Parabéns pelo seu trabalho divulgando nossos sons e pensamentos!

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