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segunda-feira, 23 de junho de 2014

Diz Aí: Ricardo Maradei

Como se um furacão derrubasse no chão tudo vivo no mundo, eu me ergo n’um segundo e me escondo no quarto. Foi assim que o músico Ricardo Maradei compôs a maioria das suas canções. Como um trabalho marcado pelo lirismo e introspecção, Ricardo firmou sua identidade musical em bandas em que dividia (e ainda divide) espaço com outros inventivos compositores, a exemplo da extinta Stereoscope e da atual A Volta do Astronauta. Além das letras criativas, a afinação da voz e o groove do baixo são outras marcas do músico, que se mostra virtuoso ao tocar também outros instrumentos, como teclado, guitarra e violão. Um pouco dessa performance pode ser conferida no primeiro disco da banda “A Volta do Astronauta”, lançado na web no início deste mês, e claro, na entrevista exclusiva que Maradei concedeu ao blog Som do Norte, onde ele conta sobre seus processos criativos  e trajetória musical. (Bianca Levy, de Belém)

Em Brasília, gravando o CD Conjunto de Rock

Ricardo, me conta como foi o teu encontro com a música popular.

Foi ainda criança, ouvindo o que minha mãe ouvia: Roberto Carlos, José Augusto, Julio Iglesias e músicas de rádio em geral (Benito di Paula, Paulo Diniz etc.) Nessa mesma época o Rock era uma música que aparecia muito também, e havia um sentimento de euforia pré-adolescente com o resquício de censura, que fazia a gente se sentir parte de alguma coisa.

A partir desse primeiro contato, quais foram as tuas impressões e referências?

Acho que foram essas. Eu gostava de música de rádio. A música vinha do rádio. Mas um dia a gente foi em uma loja de discos e trouxe de lá a coletânea Caminhos, do Raul Seixas. A primeira música, se eu lembro bem, era ‘Mosca na Sopa’, e eu, ainda moleque, criança mesmo, e trabalhado numa coisa mais radiofônica, achei aquilo bem esquisito (risos). Meu tio ouvia e batucava na mesa: “Ritmo de macumba!”. Tinha isso, que era marcante, e era também uma música que mudava de andamento e de alma, que não me parecia comum. Por algum motivo me deram o disco de presente, e depois eu comecei a entender aquilo tudo.

E o baixo? Como foi que esse instrumento te conquistou?

Foi por acaso. A primeira vez que eu vi um baixo, conscientemente (risos), foi ajudando amigos a pegar instrumentos emprestados pra um show. Conseguimos uma guitarra, depois passamos na casa de outra pessoa, e chegaram com o instrumento. Eu olhei e perguntei: Outra?  E ele me disse: Isso é um baixo! Eu era uma daquelas pessoas que não sabiam exatamente que aquele instrumento existia. Não tocava ainda. Depois comecei, primeiro com o teclado, depois violão e guitarra. Um dia o baixista teve que viajar, e eu passei a tocar o baixo no teclado. Depois ele voltou e saiu novamente da banda. Então comprei meu primeiro baixo, um Jeniffer.  

Então a partir daí iniciou a tua incursão no mundo da música? Qual foi a tua primeira banda?

Comecei tocando em dupla com meu irmão. Ele ligava dois teclados juntos e sincronizava os sons. Eu tocava guitarra. Foi meu primeiro sentimento real de estar numa banda. Era pra ser uma espécie de New Order. A gente tocava duas músicas que ele tinha feito. Era tudo muito cru, mas a gente se divertia bastante. Depois desse primeiro momento, toquei numa banda que fazia cover de músicas dos anos 80/90. Também tive uma banda com o Emanuel Paz e com Fernando (meu amigo e irmão do Emanuel), e gravamos um EP com três músicas. Mais tarde conheci o Jack Nilson e toquei com ele em duas bandas antes do Stereoscope. Na última eu já tocava baixo.


Stereoscope

Tu sempre tocou e cantou ou o canto veio com o tempo?

Veio logo no começo.

Tuas letras têm um caráter introspectivo. Me fala sobre o teu processo de composição e criação de letras?

Quando eu componho sozinho, quase sempre preciso que algo esteja me incomodando, e faço a música pra me livrar do problema. Isso desencadeia o processo e não deixa ele empacar. A música vem, a letra vem, e é fácil de concluir. Mas é difícil manter uma constância assim, porque isso não acontece sempre. Talvez por isso eu tenha muitas músicas em parceria.

E na Stereoscope, de que forma a parceria com o Jack, Marcelo Nazareth e Daniel Pinheiro te trouxeram novas referências e moldaram o teu fazer musical?

O Stereoscope foi um processo de aprendizagem. Foi ali que eu descobri o que eu poderia fazer em música e como trabalhar em conjunto. Foi também, durante períodos intercalados, uma experiência mais de gang que de banda, que foi importante na época, e me ajudou bastante, inversamente, a pensar de forma desatrelada de grupo.


Com Phillipe Seabra (Plebe Rude), gravando
o cd Conjunto de Rock


Dos três discos lançados pela Stereo, qual tu te identificas mais, qual tu achas que é ‘mais tu’?

Não sei se eu tenho um disco que identifique dessa forma. Acho o Rádio 2000 (2003) um disco interessante porque, durante o processo de gravação, não considerou o público que poderia atingir, e que viria a se formar depois, e que, pra nossa surpresa, o acolheu muito bem. O Grande Passeio (2006) já é um disco de (re)afirmação da banda, daquilo que já tinha sido feito antes, mas agora com uma intenção mais bem formatada, até mesmo mercadológica. O Conjunto de Rock (2010) já foi um início de desconstrução, de partida pra outro lado.

Partida para novos projetos como A Volta do Astronauta. Como a banda surgiu?




A Larissa Xavier e eu fizemos ‘O Cacto’ e decidimos gravar, chamando amigos pra ajudar a gente. Ela pensou no Bruno Oliveira, que já tinha tocado com ela, pra tocar a bateria, e eu chamei o Emanuel, que é meu amigo há muito tempo, pra tocar o baixo. Depois dos primeiros ensaios pré-gravação, a gente já era uma banda.

Pra ti, qual a diferença estética em relação a Stereoscope?

Em tese, deve haver alguma semelhança porque eu toquei/toco nas duas. Na prática, acho que deve haver muitas semelhanças e muitas diferenças. Assim como deve haver em relação a alguma outra banda também. É difícil de dizer, porque A Volta é uma banda recente.

Quem são os integrantes da banda e qual instrumento cada um tocou nas gravações?

Nas gravações, o Emanuel Paz tocou baixo na maioria das músicas, mas também tocou guitarra, violão, além de outros instrumentos.  A Larissa tocou guitarra, ukelele, violão, teclado etc. Eu toquei guitarra, baixo, violão, teclado etc. O Bruno tocou bateria.

Como é trabalhar em conjunto com a Larissa Xavier? Quais são os pontos positivos de ter uma visão feminina na banda?

É tranquilo. A Larissa é muito intuitiva e talentosa como instrumentista e como compositora, tem uma criatividade espontânea. Ela ajuda a equilibrar as tendências à racionalização excessiva do processo musical. Me ensinou a tocar coisas no violão, que ela teve que racionalizar pra entender o que estava me passando. Fizemos três músicas juntos, e gravamos uma com ‘A Volta’.

Como é o processo de composição e criação de letras da banda? É feito em conjunto ou separadamente?

Normalmente cada um faz suas músicas e já traz letra e melodia prontas. Mas tem as parcerias, em que isso fica em aberto. No disco eu tenho uma música que compus sozinho, e outras três, que fiz com a Larissa (O Cacto), com o Emanuel (12 Canções) e com o Jack (Noites de Circo). Em todas, é muito misturada a influência de cada compositor em letra e música. Além d’O Cacto, a Larissa tem duas parcerias musicais que estão no disco: ‘Streets os Joy’ (em parceria com Glauber Guimarães, da banda baiana Teclas Pretas) e ‘Como Morrem as Borboletas’ (com Ricardo Bezerra).

Me conta como foi o processo de gravação do disco, da escolha das músicas à mixagem?

A gente ia escolhendo as músicas e levando pra banda, sem questionamentos. A gravação foi aquele processo sempre instigante, às vezes descontraído, às vezes maçante, em que começa a aparecer o jeito de cada um de imaginar e lidar com música. Parte do disco foi gravada pelo Ivan Jangoux, no Quarto Amarelo; parte no estúdio itinerante do Aelson Maximiana (da banda Crisantempo), que aconteceu aqui em casa e na casa da Mayra, ex-vocalista deles. Mas a maior parte foi na Marcenaria do Universo, estúdio do Emanuel, que mixou e masterizou a maioria das músicas.

E agora com o disco gravado, quais os planos da banda? O que vocês estão planejando para a divulgação do álbum?

Ensaiar pra tocar ao vivo. E continuar sendo uma banda. Quanto à divulgação, ainda não pensamos nisso direito. Mas fazer clipes seria uma boa.

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