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segunda-feira, 9 de junho de 2014

Diz Aí: Jayme Katarro (Delinquentes)

Por Bianca Levy,
de Belém


Foto: Christian Braga


Atitude é substantivo, mas se tratando de Jayme Katarro essa palavra é facilmente transformada em adjetivo, ou mesmo nome de guerra. Foi com essa garra que ele levantou a cena punk belenense e não desistiu do sonho de tocar a banda dele para frente (Delinquentes), apesar das dificuldades encontradas no caminho.  As experiências de 29 anos de carreira retratadas em letras ácidas e a cara de durão não escondem, porém, o coração mole, deste que é considerado o punk mais amável da cidade. Em entrevista exclusiva ao Som do Norte, Jayme rememora a trajetória musical (do envolvimento com o movimento punk à gravação DVD Planeta do Macacos) e faz acreditar que é possível e que vale a pena investir na música paraense, especialmente a com distorção.

Jayme, me conta como foi o teu contato inicial com a música. Quais foram as tuas primeiras referências?

Quando criança, recebi influencias do meu pai que ouvia muito som e dos meus irmãos, que ficavam entre a MPB e o rock em geral da época (progressivo, blues, etc.). No início da adolescência eu ouvia Bob Seger, Bob Dylan, Pink Floyd e Led Zeppelin em fitinhas cassetes esquecidas por eles no quarto. Achava o máximo.


Delinquentes no Teatro Waldemar Henrique (1994)


Do rock tu partiu para um subgênero específico, no caso o punk. Como foi essa transição, como tu descobriu o punk?

Rude Boy film.jpegPrimeiro passei pro heavy. Meus primeiros discos que comprei foram AC/DC e Iron Maiden. Fui sugado pelas capas a esse mundo (risos). Ouvi o punk pela primeira vez com o Ramones, também numa fita cassete. Depois vi um vídeo do The Clash (Rude Boy, de 1980) e disse a mim mesmo: “Ah! Agora já posso cantar”, e que é justamente a máxima do punk. Todo mundo pode. Foda-se o virtuosismo que afasta a banda do público. Depois ouvi uma outra fita cassete, com Ratos de Porão, Inocentes, Sex Pistols e Cólera. Depois disso, não dava mais pra voltar atrás. Meu mundo já tava conectado. Ah! Aqui em Belém, importante frisar um show em especial, Pulmão do Novo Mundo (em 1984), quando vi o Insolência Pública pela primeira vez. Esse show me desnorteou por completo, me chapou de cara e me conduziu pro que queria fazer pro resto da vida.

Foi difícil assumir a identidade e estilo de vida punk aqui em Belém, especialmente no período da ditadura?

Na verdade já era uma época pós-ditatura, mas sentíamos a ressaca dos milicos ainda. O que mais pegava era o próprio provincianismo da cidade, na conjuntura que vivíamos. Usar moicano, calças rasgadas, era coisa de outro mundo. Quando cortei meu cabelo espetado e botei uma jaqueta do Sex Pistols, fui criticado até pelos meus colegas heavys. Para se ter uma ideia da época, íamos na feira do açaí e os pescadores jogavam caroço de açaí na gente, como se fossemos ETs. Mas só achávamos graça (risos). Mas a polícia deu sua contribuição. Algumas vezes chegaram a retirar nossos coturnos. Mais de uma vez, voltou todo mundo descalço pra sua casa.

De que maneira o movimento punk contribuiu para a tua formação pessoal e política? Atuastes em movimentos sociais, estudantis etc?

Em 1988, o movimento punk criou o Núcleo de Consciência Punk (depois substituído para Popular) Fazíamos reuniões, grupos de estudo. Éramos tão radicais que quem não freqüentasse as reuniões semanais, não era considerado punk (risos). Fazíamos atos-shows, debates em centros comunitários, exibíamos vídeos sobre o golpe militar. Era um trabalho de conscientização mesmo. Além disso, estivemos fortemente presentes nas manifestações pela meia passagem (só que íamos além, lutávamos pelo passe livre).


Priimeira viagem da Delinquentes:
Aracaju, 1988, para o Festcore


A tua primeira banda já foi a Delinquentes mesmo? Como ela surgiu?

Sim. Surgiu no Recírio de 1985, entre uns goles e outro de cachaça, sugerido pelo Regis (do Insolência Pública). Mas cheguei a tocar em outras bandas depois, como os Desesperados (1987), Desgraça Periférica (1990), N.T.N. (1991) e o Norman Bates (1993 ou 94).


Jimmy Night (1998)

Tu chegastes a aprender a tocar um instrumento ou desde o começo atuastes como frontman?

Nunca aprendi de fato. Mas isso não me impediu de tocar uma guitarra ou um baixo aqui ou ali, inclusive em shows quando alguém da banda faltava. No Desgraça Periférica toquei guitarra e no N.T.N., toquei baixo, mas nem conta, porque eram tudo duas notas apenas (risos).

Me fala sobre os materiais que vocês (Delinquentes) produziram lançaram ao longo da carreira.




A primeiro demo-tape foi a Infecto Humano, lançada em 1988. Mas antes, havíamos participado de duas coletâneas em fitas: a Açaí Azedo (1985, só com bandas daqui) e a Fúria e Ódio (1987, produzida em Aracajú pelo zine Buracajú). Depois vieram várias, como a coletânea local Gritos de Agonia e Desespero (que pretendemos relançar) até chegar aos discos em formato CD. Primeiro foi o Açaí Pirão, coletânea do Ná Music com bandas da época, depois, o primeiro CD individual de uma banda local do selo, o Pequenos Delitos, em 2000. Em 2009 lançamos o Indiocídio, depois o single virtual Formigueiro febril e em 2012 o DVD Planeta dos Macacos.




Hoje a Delinquentes não é mais uma banda genuinamente punk. Como se deu essa transição estética da banda?


Delinquentes hoje: 
Pablo Cavalcante (baixo e backing vocals), Jayme Katarro (vocal), 
Raphael Lima (bateria e backing vocals) e Pedro Bernardo (guitarra)
(Foto: Christian Braga)


Com as constantes mudanças na formação. Antes eu era muito ditador. Não deixava mudar o estilo ou a galera jogar suas influências. Hoje sou mais relax com isso. Minha praia é o hardcore. É o que mais curto e ouço. Mas hoje permito os integrantes soltarem suas influências, e isso acabou moldando uma nova fase na banda, mais crossover.

Essas novas referências musicais, além da tua música, transformaram o teu modo de ver o mundo. Alguns fãs mais radicais acham que você é desertor do movimento punk. O que você acha dessas colocações?   

Não ligo pra isso. Foi-se o tempo pra me incomodar (risos). Mas tudo são ciclos. Pessoas que de certa forma criticavam há duas décadas atrás, hoje já sumiram. E os que criticavam há uma década, poucos vão em shows ou fazem algo. Acho que é muito importante a pessoa ser feliz e aproveitar ao máximo seu momento no mundo. Se um dia preferir ir a um show de uma Karina Buhr, Manoel Cordeiro ou Marcelo Jeneci, eu vou. Mas tem dias que minha veia pede uma guitarra distorcida. Tá no sangue.

É difícil viver de música. Quais foram os trabalhos paralelos que tu desempenhastes ao longo desses anos?

Bom, montei um estúdio de ensaio. É ralação. Pouco saio, mal sobra grana (falo sem vergonha nenhuma). Mas é a minha vida. Deixei de ser um comerciário lotérico para seguir essa vida. Imagina só. Nem de futebol eu gosto. Imagina “tocar” pra frente uma loteria. Não tenho carro, mas sou feliz (risos).

Como surgiu a ideia de montares um estúdio?

Devo muito essa ideia à minha mãe. Quando decidi que aquilo não era vida pra mim (onde passei parte da minha adolescência e juventude trabalhando), ela me ‘despediu’ e com a indenização, comecei a montar o estúdio. Primeiro aos poucos e depois fui aprimorando. A ideia surgiu principalmente quando eu vim de uma tour da Delinquentes pelo Nordeste e ensaiamos em vários estúdios lá. Já vim com a ideia pronta. Quando cheguei aqui, descobri que já haviam alguns estúdios (pouquíssimos) e resolvi meter a cara. Jacob Franco, dos Rennegados, (na época baixista dos Delinquentes) foi quem mais me ajudou nessa primeira fase, me ajudando a escolher os equipas certos. Hoje o Fábrika é o estúdio de ensaio mais antigo na ativa da cidade, e olha que somos novinhos ainda. Vai completar nove anos em outubro.

Tu achas que os subgêneros rock de pegada mais pesada tem um espaço e o incentivo merecido na cena de Belém?  O que pode melhorar?

De um tempo pra cá tem melhorado. Foi-se o tempo que o rock pesado “migalhava” (mistura de ‘miguel’ com ‘migalhas’) um espaço como o Café com arte ou Studio Pub. O novo rock pesado daqui começou a se encontrar e pegar força primeiro nos subúrbios, em casas como o Mat-Tperê (antigo Heavys Bar) da Cidade Nova (NR: Ananindeua, município vizinho a Belém) ou o Mata-Gato de Icoaraci. E agora mais recentemente com o Xani Club, abrindo suas portas toda semana para o punk e metal. Isso deu uma alavancada no estilo. Além disso, produtoras como o Xaninho Produções, Metal Hard, Leprosys Produções, Abunai Distro, Fat Pride, e outras, que estão sempre trazendo bandas de fora do Estado, estão ajudando a fomentar a cena. Isso sem falar de festivais (incluindo o Fabrikaos, Pitiú, Madruga Fest), que vez ou outra abre as portas, não deixando a coisa esmorecer.

Me conta sobre a gravação do DVD Planeta dos Macacos. O que esse trabalho representa pra ti?

Pra mim foi um divisor de águas na história da banda. Na década de 1980, mal conseguíamos registrar as imagens. Os equipamentos eram raros e caros. Quase três décadas depois, conseguimos registrar, na praça que foi símbolo de toda uma geração rock da cidade (NR: Praça da República), um show nosso na íntegra em vídeo. Gravar a céu aberto, sem palco, foi um desafio. Nós mesmos duvidamos que pudesse acontecer da forma como foi realizado. Graças ao espírito aventureiro e a coragem da Greenvision e dos diretores (Priscilla Brasil e Brunno Regis), o registro ficou fodaço. Temos planos de relançá-lo, dessa vez em DVD prensado mesmo e com alguns extras para diferenciar do material que foi lançado (em formato envelope, quase um DVD-demo).

Hoje, com quase trinta anos de estrada na cena musical de Belém, qual o teu balanço? O que mais te marcou e o que tu farias diferente? 


Gravação do DVD 
(foto: Marcelo Lelis)


As viagens pelo Nordeste são inesquecíveis. Amizades eternas foram construídas ali. Mais recentemente pelo Centro-Oeste também. Mas uma imagem não sai da minha cabeça. Foi quando íamos começar a tocar na gravação do DVD. Estávamos concentrado no ICA (ao lado do teatro Waldemar Henrique, porque eles se recusaram a nos dar abrigo como camarim) e quando saímos da passagem de som, ainda início da tarde, haviam poucas pessoas no anfiteatro. Quando chegamos ao local, havia simplesmente três mil pessoas, como nos velhos tempos da praça, gritando e pogando mesmo antes de começarmos. Cheguei ao ouvido de alguém da banda e disse: “Bicho, vai ser foda” (risos). E foi. O que eu faria de diferente? Não sei. Talvez priorizar mais as amizades na banda. Pode parecer meio ingênuo isso, mas isso ainda é mais importante para mim do que técnica musical.

Quais são os novos projetos da Delinquentes?

Temos vários projetos em pauta, e não sei em que ordem isso acontecerá de fato, mas são planos para serem realizado daqui para o ano que vem: relançar o DVD, desta vez em um formato oficial mesmo (penso em chegar numa Fox Vídeo e ver meu DVD ali para ser alugado, é sonho de criança, rs); lançar nosso material antigo de demos em CD prensado (muitos dos fãs ‘das antigas’ cobram isso); relançar o Pequenos Delitos, que foi um marco para nós (inclusive quem sabe em vinil); e lançar um single esse ano, com 2 ou 3 músicas novas, virtualmente e quem sabe em compacto.

No Festival Se Rasgum (2010)

Soube que tu entrastes numa incursão como blogueiro, com o blog Caldo de Crânio. Me conta essa história!

Nos anos 80 eu editava um fanzine punk, o Secreção Esporádica. Chegou a ter umas 10 ou 11 edições durante uns três anos. Também participei com o amigo da banda Desesperados, Ricardo Pereira, do zine Desespero de Causa, e cheguei a ter algumas colunas em sites e blogs, como o Norte ao Rock nos anos 2000, Pro Rock e Agência Invisível, do pessoal da Aeroplano. O Caldo de Crânio nada mais é que uma continuação de tudo isso, e na verdade é como eu vejo os blogs hoje: como zines do século 21.  

Faltou falar de um disco, o CD Um Tributo Delinquente, produzido pela Rádio Cultura FM, me conta aí sobre ele, como rolou essa história.

Era niver da banda e também do programa Balanço do Rock. 19 anos do programa. Foi no mesmo ano que lançamos o CD Indiocídio,  2009. Resolveram homenagear a banda, chamando vários artistas paraenses, de estilos variados, para darem sua interpretação às nossas músicas. E algumas saíram geniais. Iva Rothe e Pio Lobato com o Massa Grossa reinventaram "Luomo Delinquente". Bruno B.O. rapeando a música "Delinquentes", Ana Clara (ainda começando sua carreira), transformando um hardcore violento nosso, "Utopia Milenar", em bossa nova. Amei todas as versões. tanto as porradas quanto as "transformadas". Graças a esse tributo, Delinquentes conseguiu rodar nas rádios sem ser no programa Balanço do Rock ("Planeta dos Macacos", na versão do Suzana Flag, virou pop rock e entrou na programação da rádio Cultura). Obra genial do produtor e diretor da rádio Cultura, o Beto Fares.


Um comentário:

  1. Gostaria de saber do proprio Jayme Katarro : o relançameto das coletaneas Açai Azedo (1985), Furia e Odio (1987), e da demo Infecto Humano (1988) em CD totalmente remasterizado ainda será em 2015 ou 2016 ?

    Por favor, Jayme Katarro, me informe o quanto antes, pois estou muito afim de adquirir esse material raro do Delinquentes.

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