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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Iza: "O público se desacostumou a ir a shows e acompanhar as bandas"


Por Raissa Lennon,
de Belém

Izabela de Almeida Alves é conhecida no meio artístico apenas como Iza Haber. Com 30 anos de idade, e 15 de carreira na música, Iza gosta de gatos e tem duas filhas chamadas Zoe (6 anos) e Alice (4 anos). Mas o que poucas pessoas sabem é que além do rock’n roll, Iza é apaixonada por música árabe e portuguesa, e viveu em uma fazenda quando criança.

O ambiente para nossa entrevista não poderia ser mais familiar do que a sua própria casa. Ao redor estavam diversos quadros (alguns feitos por ela), vários de seus gatos, e a alegre Zoe, sua filha mais velha. A conversa já fluiu naturalmente, antes mesmo de qualquer pergunta ser feita. Ela contou sobre a época em que fez mestrado em Letras na UFPA, em 2009, sobre suas aventuras com a pintura e com o vídeo, e também sobre sua vida corrida e a experiência de ser mãe. Mas especialmente para o Som do Norte falou de suas maiores paixões: a música.

Som do Norte - Quem é Iza Haber?

Iza - Sou paraense, nasci em Belém, e eu fui criada pelos meus avós. Eu conheci os meus avós como sendo meus pais, só com uns quatro anos de idade eu fui entender que eu não era filha exatamente deles. Mas isso não foi um grande problema. Eu tive uma infância interessante, porque cresci praticamente em fazenda, era na estrada de Peixe Boi, perto de Salinas. Eu ia sempre para lá. Eu digo que eu nem tive leite materno, fui alimentada até os sete anos de idade, com leite de vaca, foi muito bom. Morei em uma casa muito grande, corria e brincava sempre.

Mas o teu sobrenome é Haber mesmo? Qual é a origem dele?

Na verdade, o meu sobrenome é Alves. Mas tem uma história aí. O meu bisavô era libanês, e quando ele chegou ao Brasil não entenderam o nome dele, e ao invés de Haber, o registraram como Alves. Então, a família foi sendo batizada como Alves, mas eu sempre dizia que esse não era o nome certo. E achei esse nome interessante para trabalhar, inclusive em memória dele. Eu acho bacana essa referencia à história árabe. Até porque é forte essa descendência aqui na cidade, é difícil não ter ninguém com um parente português ou árabe por aqui.

Mas você tem alguma aproximação com essa cultura?

Muito pouca, minha família perdeu o contato quando meu avô faleceu. Já o meu outro avô era português, ele tinha uma casa no Moju, e vivia lá. Mas assim, acaba que isso tudo influencia muito na música. Por exemplo, eu acho muito interessante você voltar às raízes e tentar entender algumas coisas. Na parte árabe eu sou mais ligada ao som, acho interessante essa questão dos ritmos. Tem algumas bandas israelenses e paquistanesas, que tu nem imaginas, que fazem um trabalho fantástico. É muito bonito, é uma sonoridade que não é de fácil assimilação para o mundo ocidental, porque não temos costume de ouvir. Confesso que eu tenho vontade de aprender árabe.

Mas para o meu lado português, tem a questão do fado. Eu sou apaixonada! Gosto mesmo, eu ouço em casa, canto, eu acho lindo. Quando criança eu ouvia muito pouco, mas eu passei a ouvir mais esses tempos agora, quando comecei a prestar atenção na história toda do fado. Eu acho muito bacana você parar para analisar esse tipo de música porque é diferente. Eu tive oportunidade de ir no ano retrasado no show de uma fadista aqui em Belém, foi a Ana Moura, ela é nova, moderna, mas faz uma referência aos fados antigos também. Achei fantástico. E depois eu comecei a perceber que em algumas das minhas músicas tem essa influência, é uma coisa que não é proposital. Uma vez, ouvindo a música “Tênis Velho”, eu percebi que parecia um pouco com uma música de fado. Nos ensaios eu até brinco às vezes, e começo a cantar em português de Portugal. Eu “arranho” um pouco da língua, ainda mais quando eu bebo um vinho (rsrs).

Mas quando tu começaste a se interessar por tocar e cantar?

Minha MeninaEu me interessei por tocar um instrumento quando eu tinha uns 10 anos, e comecei a ter aula de violão com o Alberi Albuquerque. Mas na verdade eu comecei mesmo com treze anos, quando entrei na Escola de Música Carlos Gomes, e aprendi violão clássico. Estudei três anos lá e saí por besteira minha, por causa do vestibular, mas hoje eu me arrependo, não precisava. Cantar eu nunca gostei, mas tive que fazer isso na igreja da escola onde eu estudava. Era uma igreja anglicana, e era muito doido porque as celebrações eram em inglês. Aí o reverendo - não é nem pastor, nem padre - me fez cantar lá. Passou um tempo e eu comecei a compor e fiquei agoniada porque eu tocava violão clássico, mas eu queria tocar mesmo era Nirvana, Hole, coisas que eu ouvia na época. Até que chegou um dia que eu fui à casa de uns amigos e lá um amigo meu gostou da minha voz e me incentivou a cantar e nós formamos uma banda.

Já era o Stigma?

Não, era outra banda, que a gente misturava metal com grunge. O nome era Corvéia, mas terminou muito rápido. Inclusive quem chegou a tocar com a gente uma época foi o Daniel Pinheiro, que hoje toca na República (A República Imperial). Era uma banda de amigos de escola, mas a gente sonhava um monte de coisas. Teve até um episódio memorável, que foi um dia que o Daniel foi ensaiar com a gente, e quando terminamos a primeira música bateu o carro da polícia, porque do lado de casa era a Unimed (rsrsrs). E depois disso que veio o Stigma, aí eu conheci o Ivan (Jangoux) e durou todo aquele tempo.

Quanto tempo?

Foram sete anos de banda. Eu comecei com 15 anos de idade, e foi muita história, e muitas fases. E a banda foi acompanhando essa maturidade toda, tanto que antes do Stigma acabar a gente já tinha mudado para uma fase em português, porque durante muito tempo nos só cantávamos em inglês. A banda tinha várias influências, cada um com seu estilo. O Ivan no início era muito mais punk, e eu era uma coisa de grunge batido, ou então new metal, uma coisa assim mais gritada. Tinha até uma história, que eu levava uma boneca e eu arrebentava com ela nos shows. Era a minha boneca de pano, de quando eu era bebezinha, as pessoas “piravam” com isso, uma doidice.

Iza com a filha Zoe e um de seus gatos


Como era tocar aqui em Belém nessa época?

Era difícil, primeiro que quando a gente começou existia um cenário mais direcionado. Tinha uma galera do metal, do punk e do hardcore também que era bem unida. E tinha uma galera que não aparecia quase, que muita gente não sabia que existia, que era a galera alternativa. Eu lembro muito bem quando eu conheci a banda Caustic e pensei “cara, tem isso em Belém!”. E eu fiquei alucinada, era uma banda que tinha um som parecido com aqueles que eu ouvia em casa. Um tempo depois o Stigma foi formado e começamos a fazer uns shows. Eu era amiga da dona do Espaço do Reggae, que depois foi Scorpions, e a gente começou a fazer uma festa lá chamada de Fest Grunge. Na época chegamos a levar umas 300 pessoas para um show, era muito bacana, porque era um público a fim de curtir. E a gente começou a abrir espaço. Sem pensar duas vezes eu te digo, que hoje eu sinto muito orgulho de ter participado de um momento e de uma banda que ajudou a abrir espaço para o rock em Belém. Não é que a minha banda tenha sido fantástica, mas cumpriu o papel dela, de ajudar nessa reformulação de um cenário.

Na época éramos jovens, tínhamos “pique”, e não ficávamos esperando de ninguém. Criou-se uma cultura muito bacana de shows e o público foi se acostumando. Tanto é que a gente fez mais de 100 shows, contando com os pequenos e grandes, como o Tim Festival. Depois que o Stigma acabou ou fiquei um bom tempo sem ir a shows, até por conta da filha que nasceu. E quando eu voltei senti a diferença, o público era mais morno, que não interagia tanto. Hoje a gente vive no dilema de ter lugar pra tocar e de buscar um público que se desacostumou a ir a shows e acompanhar as bandas.

O rock sempre fez parte da tua vida?

Sempre fez. Pelo menos na parte da composição isso foi muito forte. Hoje nesse projeto, eu não vejo a possibilidade de não ter o rock. Mas eu me sinto muito livre para compor também, surge o que tiver que surgir, se tiver que surgir um fado, legal, ou um tango, um samba, vai acontecer. Mas assim, o rock é muito forte. Sempre vai aparecer guitarra, uma bateria mais acelerada na música.

Iza em família


Como foi esse tempo afastada da música, depois do Stigma?

Na verdade eu tentei parar, ficava só cantando musiquinhas de criança para Zoe, e fazia uma musiquinha ali e outra aqui. O Camilo (Royale) me chamou pra fazer algumas participações no Turbo, com a música “Ensina-me”. E depois eu tentei formar uma outra banda chamada Mefista, que era uma proposta mais pesada, de metal com post-rock. Só que não deu muito certo. E para mim ficou um pouco complicado ter uma banda porque demanda muita energia da pessoa. Então, o Camilo começou a botar “pilha” para eu fazer um projeto solo. Até que começaram a surgir umas músicas, e a ideia era não depender de banda. Fazer a minha história, tocar guitarra e deixar o computador acompanhando, mas não deu certo, ia ser ridículo só eu lá com um computador (rsrsrs). Aí foram surgindo convites para as pessoas, e para minha grande surpresa e felicidade, eles começaram a gosta das músicas, e para mim isso já era suficiente. Uma coisa que me incomodava muito no Stigma era que tinham músicas que eu não gostava, mas eu tocava. E agora eu faço músicas do jeito que eu quero, e como a gente já formou um grupo bem bacana, então essa questão não é um problema. A formação esta fantástica, tem o Raoni Joseph (baixo), Carlitos (bateria) e Ivan Jangoux (guitarrista e produtor), e agora entrou o Sabá (guitarra). Eu tenho muita sorte de ter tido sempre bons músicos tocando comigo, são pessoas assim que não dão trabalho, que além de executarem muito bem o que fazem, tem sensibilidade, e isso eu acho muito bacana, sou muito feliz com o grupo. Todas as decisões são em conjunto sempre.  

Como foi tocar de novo e gravar um disco?

Música Popular Roqueira
Na verdade a gente começou a fazer os shows antes de gravar, a ideia da gravação, em primeira instância, era simplesmente para mostrar para outras pessoas que iam tocar com a gente. Mas depois as gravações foram surgindo, primeiro era para ser um EP, e depois virou um CD. Mas a gente já fazia shows. Foi estranho, por mais que tu saibas que não vai ser a mesma coisa, porque tu não ta apresentando a mesma coisa, mas na tua cabeça sempre vem à cena do passado. Mas ao mesmo tempo é outra história e proposta. E hoje em dia eu fico muito feliz quando eu vejo que temos públicos diferentes. Quando a gente tocou no Rock Rio (Guamá) pra mim foi fantástico, porque tinham pessoas mais velhas, e outras que tu não costuma ver nesses locais. Muita gente que acompanhou o Stigma, queria ver aquilo, é parecido porque é a mesma voz e cantora, mas não é a mesma coisa. No show de sábado em comemoração aos 15 anos foi muito legal também, porque tiveram pessoas que acompanharam o Stigma no início e elogiaram muito a banda atual, dizendo que gostaram das músicas e tal.

Geralmente os músicos não gostam de fazer nada de manhã, e a nossa entrevista foi marcada para esse momento do dia. O no clipe de “Tênis Velho” também aparece essa relação, como é isso?

Bom, eu não tenho muito escolha. A única coisa que eu não gosto de fazer de manhã é gravar por conta da questão da voz. Ou seja, eu não tenho problema nenhum com a questão da manhã, até porque eu tenho que acordar cedo todo dia, no máximo que eu posso acordar de segunda a sexta é 7 horas. Eu gosto muito do café da manhã porque são rituais do dia, e durante muito tempo a minha vida foi muito corrida, ano passado, por exemplo, tu não ia conseguir falar comigo nesse horário. O café da manhã é fantástico. Eu adoro. E eu cresci com esse hábito na casa dos meus avós, não é que eu tenho que fazer isso todos os dias, mas sempre que eu posso. Tanto que no dia que a gente gravou o clipe de “Tênis Velho” foi no domingo. E teve bolo, tapioquinha, essas coisas.




Mas como surgiu a ideia do clipe?

Bom, a gravação foi aqui em casa. E a gente precisava de um clipe fazer a inscrição de um concurso. E eu tive que aparecer no clipe, mas eu não queria não. O Raoni (Joseph, também baixista da banda) que gravou e editou tudo, e o Ivan também fez algumas imagens. Eu disse pra ele que eu não queria aparecer muito, mas não teve jeito. Mas ele faz umas imagens que eu não apareço muito, com umas cenas cortadas e tal, foi muito bacana. O “Tênis Velho” tem esse clima mesmo de domingo, ou de uma manhã ou de um final de tarde. Eu compus essa música quando eu morava da casa dos meus pais, no meu quarto tocando, de frente para muitas mangueiras, naquele clima chuvoso de final da tarde de domingo. E ficou muito esse clima de lembrança, dos gatos, das meninas, dos livros e o café da manhã.

Além disso tudo, o que mais te influencia?

Tudo me influencia um pouco. Esse novo trabalho que a gente vai fazer agora, vai ser diferente do “Música Popular Roqueira”. Eu já tenho umas três músicas, ele tem muito mais a ver com essa relação de quebra, com passado, com conceitos, uma libertação total. Ultimamente eu tenho lido coisas do Osho. Um das músicas eu compus foi lendo um livro teórico que fala do silêncio, o silêncio como discurso. E realmente, a ausência da palavra pode dizer muita coisa. A gente fala tanto do barulho, e esquece de falar do silêncio. Então o que influencia realmente são os momentos que eu vou vivenciando e as coisas que eu tenho oportunidade de acompanhar. Até uma conversa pode virar uma música, sabe, sobre aquela experiência. Dentro claro de uma visão daquela época. O primeiro disco ainda tem muitas coisas de adolescente, porque eu fiz na época que eu era do Stigma, ou estava saindo da banda, ou na época do mestrado e tal, e isso influenciou muito.

O que mais tu podes adiantar sobre o novo disco?

Só sei isso até aqui. A história toda do projeto Iza é não ter esse tipo de preocupação, é fazer as coisas de maneira bem natural, bem tranquila. É vivenciar as coisas aos poucos até para gente ir saboreando cada passo do CD. Até porque eu não vivo da música, e eu não quero viver da música, porque a partir do momento que isso acontecer talvez eu precise fazer coisas que eu não queira. Focar num ritmo ou compor de forma que eu não queira. E a música a partir do momento que passa a ser algo obrigatório, pára de ser música para ser alguma coisa chata. Então não é a minha onda fazer a música virar isso.




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