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sábado, 31 de maio de 2014

Diz Aí: Jack Nilson

Ele não conhece nem o começo, nem o fim do mundo, mas em suas letras falou sobre os principais temas que tiram o sono da humanidade: velhice, morte, tédio, memórias e – por que não? - amor. Rockstar existencialista? Não. Esse aquariano que já nasceu com nome de artista (alusão ao ator hollywoodiano Jack Nicholson), usou da despretensão para tratar de assuntos universais e atualizar a sonoridade “sessentista”, tão característica em suas composições, sem deixar de lado as referências locais. Em entrevista exclusiva ao Som do Norte, o músico Jack Nilson contou um pouco da trajetória enquanto membro da saudosa Stereoscope, a relação afetiva com a guitarra, a herança musical vinda da família e adiantou a chegada de projetos solos que em breve vão estourar pelas rádios da Mangueirosa. Vale a pena conferir esse bate papo e saber um pouco mais sobre o músico. Pode ser “agora ou depois do jantar”, ou mesmo antes de “rodar por aí” ou “se perder lá fora”. (Bianca Levy, de Belém)



Como tu descobriu a tua afinidade com a guitarra? Quando descobristes que queria ser músico?

Ainda tô descobrindo isso. Tocar guitarra foi meio uma consequência de escutar e querer fazer música de forma obsessiva. Não me considero um bom guitarrista, mas me viro. Sei fazer a parada rolar. Aprendi a tocar de forma desorganizada e escolhi essa forma de seguir tocando.

Como a tua vivência no interior (Bagre, na ilha do Marajó) influenciou nas tuas preferências musicais?  

Apesar de não ter morado exatamente no interior, fazia parte da cultura da minha casa a vida interiorana, o contato sempre foi forte. Meu avô era músico no interior, tocava choro, meu pai era seresteiro. Isso certamente moldou a minha forma de enxergar as coisas musicalmente, além de ter tido desde sempre uma aceitação e gosto naturais por certos estilos musicais que eram depreciados. Músicas cafonas sempre me atraíram e um estilo meio derramado também. Na minha cabeça nunca houve conflito entre Tom Jobim, Deep Purple e Carlos Alexandre.

E me conta sobre a Stereoscope (foto abaixo)... como a banda surgiu?


A ideia de ter uma banda sempre esteve em minha cabeça. Eu já conhecia o Ricardo (Maradei) e o Marcelo (Nazareth) e em 2002 resolvemos nos juntar pra gravar umas músicas, sem muita direção. Gostamos menos do resultado das músicas do que da experiência de estarmos juntos, compondo, tocando e cantando. Decidimos regravar tudo e o que seria um single virou um EP e depois um disco cheio. A ideia era apenas gravar, no início, depois tomou a forma de banda, especialmente com os shows. Pra gente, o nascimento da banda foi em 2003, quando lançamos o Rádio 2000, antes era mais um projetinho manso.

 
Qual a repercussão que esse álbum de estreia teve?

De um projeto sem compromisso, o disco levou a gente a tocar bastante, conhecer pessoas legais, como o Fernando Rosa, que nos chamou pro Senhor F Discos e que é uma coisa muito bacana. Também foi bacana ver, a partir deste disco, uma galera curtindo o nosso som, que tinha um apelo bem esquisito e diferente dos padrões locais da época.

É (e foi) difícil assumir uma banda com pegada sessentista aqui em Belém? Houve dificuldades em relação a isso?

No início do Stereoscope, eu percebia certo sarcasmo de algumas poucas pessoas na aproximação que a gente fazia entre a música “sessentista” e a canção popular de acento mais jovem-guardista bregueiro, em termos de sonoridade. Nossas letras não tinham nenhuma ingenuidade romântica, eram mais sarcásticas e ligadas no mundo, nesse sentido. E a gente nunca quis tocar de terninho. Nem acredito em rock psicodélico ou sessentista, era mais um gosto pela sonoridade, mesmo. No geral a aceitação foi surpreendentemente boa, acho que a cidade tem uma ligação forte com o cancioneiro da saudade e isso ajudou a processar o caldo todo. Hoje é bem mais fácil e me interessa menos isso, embora ainda seja uma referência forte.



"O Grande Passeio" (de 2006) já contou com a produção do selo Senhor F Discos. Como tu avalias esse segundo material?  E quais os prós e contras de gravar um disco com o apoio de um selo?

Pra gente, estar num selo fez uma grande diferença pro bem. Musicalmente, nós gravamos e produzimos sozinhos, mas a parte de pós-produção (mixagem, masterização e divulgação) fez algo que nós nunca poderíamos ter feito sozinhos. Artisticamente, é o nosso melhor trabalho, eu penso. O mais coeso.

O último disco de vocês, "Conjunto de Rock" (de 2010), não teve um trabalho de divulgação tão intenso quanto os dois primeiros. Já era o início de crises na banda? 

Acho que de certa forma, sim. O processo de criação e gravação foi ótimo, pois ficou claro que a gente faria um disco diferente, o que, pra mim, era muito instigante. É um disco sem backing vocals, que nós usamos muito nos dois trabalhos anteriores e ao vivo. Também teve o fato de ser um disco conceitual, temático. A ideia era cantar as aventuras de um conjunto de rock. Acontece que da gravação ao lançamento, muito tempo se passou. Isso deve ter ajudado a dar uma dispersada geral. Também a paisagem musical mudou bastante nesse meio tempo. Gravar um disco e demorar muito pra lançá-lo não é algo bom de se fazer num momento em que qualquer coisa de duas semanas atrás já pode ser considerada antiga (risos) .

Em geral, as tuas letras trazem histórias com um toque de lirismo e com começo meio e fim. Partindo desse estilo, foi tu quem deu a ideia de fazer uma ópera rock" na banda, no caso, o disco "Conjunto de Rock"?

Acho que foi que sugeri, sim. Eu sempre tive um olho na canção e outro numa possível unidade de conceito pra abrigar o conjunto delas, que eram naturalmente diversas. O Conjunto de Rock foi um trabalho muito coletivo, todo mundo topou a parada e mergulhamos fundo na história, já que era meio sobre a gente, também.

Quais foram as situações que motivaram o término da banda? 

Após o lançamento do Conjunto de Rock já estávamos bastante afastados como grupo. Tocávamos muito pouco e também todo mundo tava com atividades pessoais mais intensas. Ficou difícil arrumar tempo para a banda e uma certa falta de interesse começou a dominar. Eu achava que artisticamente precisávamos dar um outro passo, mas ficou difícil fazer isso, pois não dispúnhamos mais do tempo que tínhamos no início.



Pra ti, qual a principal marca que tu deixastes na banda, sonoramente e esteticamente falando?

Difícil dizer, mas em termos de sonoridade, meu jeito de tocar sempre foi bem cru e direto e em termos de composição tinha uma coisa meio visual, talvez. Não sei responder isso, não! (risos).

Qual a sensação que tu tens ao ouvir os discos feitos com a Stereoscope? O que mudou no teu processo de composição?

Escuto entre muito pouco e quase nunca, no geral. Quando escuto fico surpreso, pois acabei me acostumando com as versões ao vivo. Se escutar muito vou acabar me irritando. No geral acho bem legal, mas penso que podia ser mais radical. Penso que fizemos de um jeito bem particular as coisas, mas não sou nostálgico com a banda. Sempre compus muito e na época da banda usava uma parte muito pequena das coisas que eu fazia, trazia as coisas que rolariam com menos estresse. Sempre compus coisas muito diversas e acho que continuo assim.

Hoje, tu farias parte de uma banda de novo, ou preferes um trabalho solo?

Gosto do funcionamento de banda e acho que vou acabar montando uma, é como uma praga! (risos). Gosto do trabalho em conjunto, mas também é um alívio trabalhar sozinho.

Por falar nisso, o que tu tens feito agora?

Tô começando a gravar umas músicas que fatalmente serão agrupadas seguindo uma nova obsessão. Já deu de recesso.


Um comentário:

  1. Música no DNA.
    Curto muito música boa. Com poesia na letra e na sonoridade!
    Sucesso, Querido!

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