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sábado, 24 de maio de 2014

Diz Aí: Camillo Royale

Por Bianca Levy,
de Belém


Foto: André Morbach


É impossível falar do cenário rock de Belém sem mencionar a figura de Camillo Royale, da banda Turbo. Com uma cabeleira icônica, estilo peculiar e postura de palco frenética, ele tornou-se mito ao roubar a cena a cada vez que sobe ao palco e entoa seus riffs, carregados de grunge e power pop. Engana-se, porém, quem resume Royale na imagem de rockstar. Verdadeiro entusiasta da música, o "feio" mais amado do rock paraense é conhecido pela humildade e boa vontade ao ajudar bandas amigas, sejam elas veteranas ou iniciantes (quem nunca viu o Camillo carregando caixas escada acima e fazendo serviços de roadie no meio de shows, que atire a primeira pedra!).  Foi com esta autenticidade que ele compartilhou suas memórias com a equipe do Som do Norte, falando em entrevista exclusiva sobre carreira, relação afetiva com a música e causos do rock'n'roll, do tempo em que as bandas de Ananindeua (a exemplo da Eletrola) começavam a despontar.  Apertem os cintos, que para rememorar a trajetória de Camillo é preciso saturar as válvulas e acionar o turbo máximo.

Som do Norte: Como aconteceu a tua descoberta do rock? Quais foram as tuas referências iniciais?

Camillo: Na minha casa se ouvia muita música local por conta da minha tia, que recebia os discos da gravadora do Carlos Santos. E também ouviam muita música clássica, então essas foram as minhas primeiras referências quando criança. Já o Rock, eu descobri realmente aos dez anos vendo o clipe de “Smell Like Teen Spirit”, do Nirvana.

Foto: Renato Reis


Som do Norte: E tu consegues lembrar qual foi o primeiro riff que tu ouviu e que te fez querer tocar guitarra?

Camillo: O riff eu não lembro, mas desde sempre quis fazer as minhas próprias coisas, por não ser que nem o meu ídolo na infância, o pianista Richard Clayderman. Não queria tocar música dos outros.

Som do Norte: Da teoria pra ação, depois de teres recebido referências eruditas e populares, aonde e com quem tu começou a tocar?

Camillo: No início foi complicado. Ser guri e ir atrás de pessoas pra montar uma banda é uma missão. Meus amigos queriam brincar, e eu montar uma banda e ser artista. Um amigo de infância que me ensinou os primeiros acordes, e aí eu fui tratar de fazer as minhas coisas com aquilo que eu sabia.

Som do Norte: E do ‘faça você mesmo’ e da vontade de ter uma banda, surgiu a Eletrola. Me conta sobre esta formação e o processo de gravação das músicas?


Camillo: A Eletrola surgiu no início dos anos 2000, no dia em que fui visitar um amigo de infância em Ananindeua, que conhecia o Eliézer Andrade. Nos conhecemos neste dia, e soube que ele já tocava em uma banda que estava chegando ao fim. Conversamos sobre bandas de Rock e vimos que gostávamos das mesmas coisas, e eu tinha uma (guitarra) Fender Stratocaster, da marca que ele gostava também, e aí decidimos: ok, vamos tocar juntos!  Quando começamos a Eletrola de fato, começamos a ensaiar algumas músicas da antiga banda do Eliézer e depois fomos fazendo o repertório da banda. O lance de gravar um CD depois de um tempo ficou forte em nossas cabeças. O 1º disco foi gravado inteiro na sala da casa do nosso amigo Paulo Lavareda num esquema hoje em dia pré-histórico (gravação digital no Vegas! rs)  mas funcionou e ficamos felizes de nos ouvir e descobrir que tinham outras bandas fazendo músicas naquele esquema. Com o disco podíamos mandar pra rádios e tentar fazer shows fora. (Ouça o CD da Eletrola no blog Música do Norte)


Som do Norte: Pra ti, quais foram os momentos mais importantes da banda?

Camillo: Foram tantos shows, gravações, tantas coisas! Mas de todos os momentos, tocar fora de Belém e no Goiânia Noise me emociona até hoje. Foi uma aula de Rock.  

Som do Norte - Pra ti, de que forma a Eletrola influenciou no andamento da tua carreira e teu desempenho depois no Turbo?

Camillo- Ensinou muita coisa! A lista é enorme, mas o aprendizado veio mesmo com o Turbo. Ter que cantar e tocar guitarra ao mesmo tempo, ajudou a criar o meu próprio estilo. Tudo tem um motivo pra acontecer.

Som do Norte: E o Turbo, como foi que surgiu?


Camillo: A banda surgiu em 2005 com o término da Eletrola. A Vanja e eu vimos que poderia rolar alguma coisa juntos e aí fomos atrás de um batera. Hoje em dia a formação conta comigo, Wilson no baixo, Netto na bateria e Bruno Cruz, guitarra. O primeiro disco (Turbo, 2006) foi gravado pelo Ivan Jangoux e daí começamos uma parceria. Ter uma banda de rock e mantê-la é complicado, então fomos gravando e lançando o material periodicamente,  ao longo dos anos. Lançamos uma fita k7 e depois um compacto em vinil 7" masterizado no lendário estúdio Abbey Road.

Som do Norte: A Turbo é uma banda de bagagem internacional, com masterização no Abbey Road e gravação na Suécia. Me conta sobre esse trabalho que vocês fizeram no exterior?  

Camillo: O lance todo de irmos gravar na Suécia começou como uma brincadeira que depois levamos muito a sério. Gravar com o Chips Kiesbye e o Henryk durante 12 horas nos 18 dias que passamos lá é algo que nunca esqueceremos. O resultado disso vai tá no disco, que deve sair no 2º semestre. Estamos ansiosos pra que as pessoas o escutem.  Eu sou Spartacus está vindo! (Ouça entrevista que Camillo nos concedeu logo após voltar da Suécia, em fevereiro do ano passado)

Som do Norte: É interessante que tanto a Turbo quanto a Eletrola contavam com integrantes mulheres (Andréa na bateria da Eletrola e Vanja no baixo do Turbo). Pra ti, qual a importância de figuras femininas em bandas de rock? Tu achas que a cena tem um bom espaço para as mulheres ou ainda carece de mais abertura?

Camillo: Nos dois casos foi o destino que nos enviou estas pessoas maravilhosas, mas sinto falta de mais bandas com mulheres, é um outro jeito de ver e pensar nas coisas. Espaço sempre tem, mas aonde estão vocês garotas? (risos).


Foto: Andrey Moreira
(Esta imagem foi aproveitada na capa do EP da Turbo lançado 
pelo Som do Norte em 2010, Fuzzilando)

Som do Norte: A falta de mulheres nas bandas abre também a discussão sobre a atual cena de Belém. O que tu achas dela? Ela esmoreceu em relação ao ‘boom’ que rolou nos anos 2000?

Camillo: Eu acho que não. A diferença é que naquela época era tudo novo, mas de lá pra cá mais e mais artistas surgiram e é isso que eu acho legal. O barco não pode parar!

Som do Norte: É verdade. E já que o assunto é o barco não parar, quais são os projetos musicais deste ano?

Camillo: Fazer mais e mais discos e gravar com os amigos! (risos). Estamos ansiosos para mostrar o Eu sou Spartacus pras pessoas e tocar o máximo possível!  

Som do Norte: Legal, boa sorte no lançamento! Pra encerrar a entrevista: faz aí um balanço da tua carreira.

Camillo: Tudo até hoje foi produtivo. Tive sorte de tocar e gravar com vários amigos, pessoas comuns, mas que são meus ídolos. Fico feliz também em ter participado de alguma forma e ajudado a divulgar os artistas locais pra onde eu fui, seja com a Eletrola ou com o Turbo. O rock não pára no Pará, sempre se aprende com tudo, com momentos bons e ruins, e se fosse pra voltar no tempo eu não mudaria nada!  

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