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quinta-feira, 29 de maio de 2014

Cronistas da Rua: "A gente faz o que a gente curte, sem regras"

Por Raissa Lennon,
de Belém
Foto: Raissa Lennon


“A gente segue o ritmo da rua e não ficamos criando receios, nem rótulos. O hip-hop é a rua, e a rua é o hip-hop”. É assim, que os “moleques” dos Cronistas da Rua se vêem diante da sua própria arte, a partir do olhar de quem não tem amarras para criar rimas e fazer o som que vem das ruas. E foi justamente um local ao ar livre que o duo Dime Cronista (voz) e Alonso Nugoli (beatbox) escolheu como ponto de encontro para a nossa entrevista, já que é na rua que eles se sentem em casa. No Bar do Parque, conversamos sobre o primeiro disco “Tekoha” que acaba de ser lançado, sobre as diversas inspirações para as suas músicas e sobre cultura do hip-hop na cidade das mangueiras.

Neste sábado (31), eles apresentam na loja Ná Figueredo o selo homônimo de sua marca de camisetas, com arte assinada por vários artistas do Brasil. O CD físico também estará à venda, e ainda vai rolar os shows do DJ Faca, Gaspar Du Norte, Bruno BO, Kizomba Groove, Don Perna, Aliados MCs, e dos próprios Cronistas. Saiba mais sobre o evento.

Na ilharga do som underground, mas sem deixar de lado o profissionalismo, a dupla logo terá um site onde reunirá suas músicas, clipes, loja online entre outras coisas.  Com muitos sonhos, ideias e projetos, os Cronistas da Rua estão a todo favor, impulsionando e divulgando as batidas do Norte.

Como surgiu o Cronistas da Rua?

Dime Cronista - Eu só fazia grafite e o Alonso ainda não era exatamente do hip-hop e aí numa dessas que eu fui grafitar com um amigo nosso em comum a gente se tornou amigos, “brother” e tal.

Alonso Nugoli - Eu só curtia o som e eu estava começando a fazer beatbox, mas não tinha coragem de mostrar para ninguém. Isso foi no final de 2011.

Dime - Pois é, ele ainda estava começando a fazer beatbox e eu começando a fazer grafite. Aí teve um evento aqui no centro da cidade, e ele veio para fazer beatbox e eu saquei o papo, e nesse período eu também comecei a escrever algumas letras. Depois a gente se encontrou em uma festa, e aí eu fiz uma rima e ele fez um beatbox em cima disso. A sintonia foi bacana e achamos que daria para fazer algo juntos.

Alonso - Ficamos nos falando pela internet até que rolou de fazer o “bagulho” de um festival, e rolou um lance muito engraçado...

Dime - Foi porque eu inscrevi a gente em um festival e falei para ele dias antes, me senti o dono do time (risos). Era um festival de hip-hop.

Alonso - Dias antes nada, tu me falou cerca de meio-dia, e o festival começava às 5 da tarde. É a verdade, eu não tô “aloprando” não! (risos)

E o nome já era Cronistas da Rua (ao lado, em foto de Victor Hugo Rocha)?  

Dime - Sim, porque eu já tinha feito uma música com um outro cara. E um cara do estúdio disse que a música parecia uma crônica e eu fui pensando em um nome, aí eu achei que esse nome era legal, tinha uma dicção legal. Então, fomos para esse festival, eu fiz uma rima, o Alonso um beatbox e rolou de passar entre os quatro primeiros, foi a primeira vez que a gente estava tocando. Depois que a gente passou nas eliminatórias, rolou a final na Black Soul Samba, e foi muito bom, estiveram aqui uns jurados de fora, que vieram para o evento e para conhecer a cultura local. Aí a gente viu que a “cagada” estava pronta, e decidimos tocar juntos e seguir com o projeto.

Mas como surgiu a ideia de fazer um CD?

Alonso - É o que todo grupo almeja, quando a gente inicia um trabalho a gente quer logo ter um disco, pelo menos a maioria das pessoas. Mas a gente queria ter um registro que fosse mais do que um EP, e resolvemos fazer um disco de cara.

Dime - Teve uma época que depois de tudo isso que aconteceu, eu e o Alonso nos separamos por um tempo, no final de 2012 a gente deu um “time” no grupo. Porque cada um estava em buscas diferentes, tentando encontrar outras coisas, e fomos fazendo projetos separados, e nessa época foi uma imersão para gente se auto-avaliar e para voltar com a parceria novamente. E quando a gente se reencontrou de novo já viemos com várias ideias, e conversamos. Eu já tinha um nome que é o “Tekoha”, porque a gente sempre gostou desse lance da cultura indígena. E aí o (Wagner) Bagão (o Dubalizer) me procurou para fazer um CD com a mesma batida, mas com rappers diferentes, aí eu topei. Depois disso, ele sugeriu de produzir o nosso trabalho e montar uma parceria. E nessa época nós íamos para o Rio de Janeiro, participar de um evento, e de lá e a gente conversou com ele para ver o que a gente podia fazer, e rolou.



Vocês gravaram o disco em São Paulo, como foi lá?

Dime - É, o disco foi gravado pela Audiofaya Produções, e tudo foi bem intenso. A gente acordava e ia para o estúdio e só saia de lá na hora de dormir, a gente se internou praticamente. E isso foi muito doido porque aí que eu vi que a gente se atura saca? (risos). Foi super necessário, e o Bagão ajudou muito a gente a evoluir, nesse sentido.

E o Pro.efx ajudou a produzir o disco também?

Dime - É, ele foi tipo pré-produtor, e também é o DJ do grupo. A música “Bem que te vi” e “Mestres de Capoeira” são instrumentais dele, e ele sempre esteve presente para dar algumas vias. Mas o produtor mesmo foi o Wagner Bagão, e ele respeitou muito a nossa visão, foi um pouquinho de cada.

Alonso - Ele produziu algumas bases, e tem um pouco a cara dele ali também, digamos que foi um trabalho conjunto que ele participou também. Mesmo que não sejam todas as bases dele, mas digamos que tem um pouco do toque dele nas músicas.

Mas como foi o processo de composição de vocês?

Dime - É uma viagem porque a “Amanajé” eu comecei a escrever no estúdio fechado e eu estava longe do Alonso, então eu mostrei a concepção para ele e ele escreveu a parte dele. A “Bem que te vi” a gente fez no estúdio juntos. Enfim, às vezes a gente compõe junto, às vezes eu componho em casa. Às vezes a gente tá aqui, e o tempo que o cara vai trazer uma água, já pode surgir um refrão. O lance da composição não tem regra, mas na verdade a regra foi essa de respeitar a visão de cada um. Às vezes tem muito do produtor querer moldar o disco, mas isso não aconteceu. Nesse caso, a gente escreveu o que a gente queria e saiu do nosso jeito. Como somos pessoas diferentes, às vezes ele tem um ponto de vista que nem sempre eu concordo, mas isso é legal sabe. A gente compõe diferente, mas no final dá certo. As letras falam de situações que a gente já viveu e de situações que gostaríamos de viver, às vezes tu consegues encontrar a tua utopia nas letras e às vezes não.

Alonso - “Bem que te vi” fizemos juntos e “Tekoha” foi feita quase juntos, eu fiz uma parte e ele outra, depois a gente se uniu para fazer a outra parte. Não tem regra certa mesmo.



O disco tem muitas influências, como música eletrônica, brega, samba... Como foi para juntar tudo isso?

Dime - Tipo, a gente botou as coisas que a gente gosta de escutar, eu cresci com meu pai escutando Raça Negra, e vamos para festa de música eletrônica, fora o samba, o reggae, que a gente curte. Então, é tudo influência do que a gente costuma ouvir.

Alonso - A gente faz o que a gente curte, sem regras.

Para vocês o que é essa linguagem da rua?

Dime - Cara, é porque eu já sou da rua há muito tempo, então parece que é algo natural. Mas eu acho que é não colocar barreira, porque a rua é livre, é liberta para todas as pessoas. E a gente segue o ritmo da rua, sem receios, a gente faz porque a gente curte, sem criar rótulos. O hip-hop é a rua, e a rua é o hip-hop.

Alonso - É coisa de criança ser da rua, quando tu queres estar na rua o tempo todo, jogar bola, jogar peteca, tá na rua o tempo todo, sabe? Pra mim é desprendimento também. Tem que respeitar a rua assim, como tem que respeitar a música também.

E como vocês vêem a cena do hip-hop aqui na cidade?

Dime - É aquele menino que chega da escola e quer jogar bola, e está treinando para querer se tornar um grande jogador, o hip-hop tá assim em Belém, é tipo um adolescente que está crescendo. Em todos os sentidos está crescendo, desde o moleque que anda de skate até aqueles que dançam. A tendência é que cresça cada vez mais. E essa galera é um público “do caramba”. Eu já fui para festas de hip-hop que era só eu de público, literalmente, e hoje a gente consegue ver que a galera tá aparecendo.


Com Pro.efX, Adriana Cavalcante e Leo Chermont

Mas como é tocar em Belém, como é essa busca por espaço?

Dime - Olha, a gente não tem espaço para tocar, mas não que isso seja algo para se fazer de coitadinhos. A gente não tem espaço, mas a gente vai criando espaço e fazendo eventos e chamando outros grupos, tem outra galera que esta trabalhando, tem umas rodas de rima acontecendo. Mas tem uma galera que abraça o trabalho valendo, o Ná (Figueredo) que é pai de muita gente aqui, é um deles, o disco tá saindo pelo selo dele. E desde o começo ele abraçou o trabalho. E lá é um lugar que a gente pode fazer coisas, pelo menos uma vez por mês, a gente pode estar indo lá.

Alonso - Esse espaço a gente que tem que ir atrás.

Vai acontecer um evento no dia 31 de maio lá no Ná Figueredo, conta um pouco como vai ser?

Dime - Vai ser o lançamento da marca de camisas do Cronistas da Rua e finalmente o CD físico vai chegar. A gente quer que evento seja bacana, para que cada vez mais a gente tenha mais público. O Gaspar, o Bruno BO, Kizomba Groove o Don e toda a galera que vai estar lá, já estão trabalhando bastante tempo na cena e são amigos nossos.

Alonso - Só gente boa, só os camaradas nossos!

E quem faz os desenhos dessa marca de camisa Cronistas da Rua?

Alonso - São uns camaradas aí de vários lugares, só moleque doido! (risos)

Dime - É isso mesmo, é que a gente juntou uma galera de vários lugares que trabalha com grafitagem. A gente já tinha feito essa arte para adesivo, agora transformamos em camisas. São amigos que a gente fez durante essa trajetória, de produção do disco também, então vai ser bem bacana porque a gente vai estar fazendo trabalhos que a gente admira pra “caramba”, e, além disso, pode dar algum retorno financeiro. É tipo ter um retorno para o artista, e disseminar a parada do grafite através das camisas.





E conta como foi o lançamento do disco de vocês lá no Xani Club?

Dime e Alonso - Foi muito legal! (risos)

Alonso - Lá é um espaço que tá aberto também para quem quiser fazer parceria. Foi bacana para caramba tocar lá!

Dime - Esse espaço do Xani é bacana pra caramba, porque é novo e tá aberto para tudo, se chegar um cara que produz funk ostentação a galera lá vai topar saca? Aqui tem muita casa de show, mas tem muito rótulo também, muita coisa fechada. Mas eu entendo, porque o empresário quer o retorno também. No primeiro lançamento que foi na Black Soul Samba, a gente se surpreendeu, porque eu nunca imaginei que dois moleques que começaram agora, conseguiriam um público como aquele. Nesse do Xani, a gente cometeu erros de produção, mas isso é legal, porque a gente aprende, e se preocupa mais. Mas foi ótimo, um maluco pegou o microfone da minha mãe e começou a tocar, sabe? É aquele papo que às vezes não tem mil pessoas, mas as cem que estão ali fazem barulho pra caramba.  E foi isso que rolou no Xani.

Daqui para frente o que vocês esperam para o Cronistas da Rua?

Alonso - Sucesso, fama e TV Globo... Sacanagem! (risos). Mas eu quero mandar um beijo para minha mãe e pra Xuxa!

Dime - Seria ótimo! (risos). Mas na “real”, para o cara que trabalha com arte, é muito contraditório dizer que ele não quer o sucesso. A gente almeja essa parada também, não é que seja o foco em si, mas a gente tá trabalhando para fazer com que o máximo de pessoas nos conheçam. Tem uma galera que tem problema com isso, e eu entendo que o hip-hop é underground, que é um movimento da rua, só que assim, pra tudo na vida temos que caminhar pra frente.  E para que o trabalho possa crescer no sentido de qualidade, às vezes é necessário ter grana sabe? A gente almeja que a “parada” do projeto cresça, por isso, que fazemos questão de construir um site, gravar um CD com uma qualidade legal, lançar estampa de camisas e essas coisas. Queremos que isso dê um retorno para a gente, e que cada vez mais a gente se profissionalize.

Alonso - É que nem quando tu trabalhas em uma empresa, e tu quer dar o melhor de si, pro teu patrão te reconhecer e tu ser promovido. É a mesma história, estamos trabalhando para crescer também. Às vezes a gente conversa de fazer uns projetos, como um Skate Park e tal, mas se a gente não tiver grana não dá para fazer nada. (risos).




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