Aqui se fala do som dos estados do Norte do Brasil: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins

sábado, 31 de maio de 2014

Foi Show: Festa Tucuju

Patrícia Bastos


Patrícia Bastos fez ontem sua primeira aparição nos palcos após o recebimento do troféu de Melhor Cantora Regional no 25º Prêmio da Música Brasileira (a cerimônia aconteceu no último dia 14, no Rio de Janeiro; na mesma ocasião, o mais recente CD de Patrícia, Zulusa, recebeu o prêmio de Melhor Disco Regional de 2013). O retorno de Patrícia aconteceu no show Festa Tucuju, ao lado da mãe, a cantora Oneide Bastos, e do irmão, o cantor-compositor-multiinstrumentista Paulo Bastos. O espetáculo, apresentado no SESC Centro (Macapá), encerrou a programação do 9º Aldeia de Artes SESC Povos da Floresta. 


Paulo Bastos


Talvez o restaurante do SESC Centro, onde todas as terças acontece o tradicional Projeto Botequim, não fosse o lugar ideal para a apresentação de um show deste porte. Basta lembrar que, no ano passado, o show Quando Bate o Tambor, de Oneide Bastos, integrando a 8ª edição do Aldeia, aconteceu no Teatro das Bacabeiras (leia aqui nosso comentário). Mas enfim, ao menos os artistas procuraram compensar as condições do local trazendo seu próprio som, sua luz (cujo acerto na escolha vocês podem constatar nas imagens feitas por mim que ilustram este post) e ainda um praticável colocado à esquerda do palco onde ficaram dois músicos, o baterista Fábio Mont'Alverne e o percussionista Nena Silva. Isto permitiu um maior espaço no palco, que os artistas aproveitaram para se movimentar o tempo todo.


Oneide Bastos


O show foi muito bom e bem dinâmico. Além do trio Bastos, o espetáculo contou ainda com os intérpretes Brenda Melo e Adelson Preto (vocalista da banda Afro Brasil). Os cinco - Paulo, Oneide, Patrícia, Brenda e Adelson - se revezavam ao microfone, e havia ainda o detalhe luxuoso de quando uma das cantoras solava, tinha as outras duas como "backing vocals". Já Adelson e Paulo podiam contar com as três fazendo coro. Esse dinamismo, diga-se de passagem, é raro em termos de shows no Norte do país. 



Brenda Melo


Mas enfim, o importante é que o show foi de fato excelente e agradou em cheio o público que lotou o SESC, havendo muita gente que viu todo, ou quase todo, o show de pé mesmo, já que desde 21h20 chegavam interessados no show anunciado para as 22h e que iniciou perto de 23h, encerrando às 1h10, já no sábado. 


Adelson Preto


Patrícia cantou "Eu sou Caboca" (faixa-título de seu quarto CD, lançado em 2009), "Mal de Amor", do Zulusa, e ainda a inédita "Domingo de Páscoa". "Mal de Amor" teve como acompanhamento apenas a percussão de Nena e a bateria de Mont'Alverne, num arranjo que aproximou este marabaixo de Val Milhomem e Joãozinho Gomes, premiado pelo site Embrulhador como a melhor música brasileira de 2013, dos marabaixos tradicionais, sempre apresentados apenas com voz e percussão. Foi um dos momentos mais belos da noite. Outra composição do Zulusa incluída no roteiro foi "No Laguinho", que Patrícia cantou ao lado de Oneide e Brenda; o trio apresentou também outro clássico da parceria Val-Joãozinho, a animada "Mão de Couro" (que contou com a participação de Adelson nos vocais ao final).


O trio Patrícia-Oneide-Brenda


Oneide cantou músicas do seu CD Quando Bate o Tambor, como "Bacabeira", "Urubu, Mestre do Vôo" e "Bate o Tambor", que foi também o bis. Já Brenda interpretou "Formigueiro", de Val Milhomem, que irá regravar em seu segundo CD, além de cantar faixas do primeiro disco, Tática, ainda inédito. E Adelson sacudiu o salão com sucessos do Afro Brasil, como "Festa na Senzala". Paulo, além de acompanhar a todos ora ao teclado, ora ao violão, ora na caixa de marabaixo, cantou algumas composições suas, como "Balalão" e um agitado-animado rap-reggae-marabaixo. Ao lado do baixista Taronga, Paulo abriu ainda o show com um set instrumental variado que incluiu temas como "I'll Survive", "Amargo", de Lupicínio Rodrigues, e o marabaixo "Rosa Branca Açucena". 





Quase ao final do show, foram chamados ao palco os convidados Enrico Di Micelli (que cantou "Estamparia", do CD inédito Timbres e Temperos), Amadeu Cavalcante (que fez todos cantarem o clássico "Tarumã") e Val Milhomem (que também teve todas as vozes do salão a entoar o coro de "Jeito Tucuju"). 


Enrico Di Micelli


Amadeu Cavalcante


Val Milhomem


Diz Aí: Jack Nilson

Ele não conhece nem o começo, nem o fim do mundo, mas em suas letras falou sobre os principais temas que tiram o sono da humanidade: velhice, morte, tédio, memórias e – por que não? - amor. Rockstar existencialista? Não. Esse aquariano que já nasceu com nome de artista (alusão ao ator hollywoodiano Jack Nicholson), usou da despretensão para tratar de assuntos universais e atualizar a sonoridade “sessentista”, tão característica em suas composições, sem deixar de lado as referências locais. Em entrevista exclusiva ao Som do Norte, o músico Jack Nilson contou um pouco da trajetória enquanto membro da saudosa Stereoscope, a relação afetiva com a guitarra, a herança musical vinda da família e adiantou a chegada de projetos solos que em breve vão estourar pelas rádios da Mangueirosa. Vale a pena conferir esse bate papo e saber um pouco mais sobre o músico. Pode ser “agora ou depois do jantar”, ou mesmo antes de “rodar por aí” ou “se perder lá fora”. (Bianca Levy, de Belém)



Como tu descobriu a tua afinidade com a guitarra? Quando descobristes que queria ser músico?

Ainda tô descobrindo isso. Tocar guitarra foi meio uma consequência de escutar e querer fazer música de forma obsessiva. Não me considero um bom guitarrista, mas me viro. Sei fazer a parada rolar. Aprendi a tocar de forma desorganizada e escolhi essa forma de seguir tocando.

Como a tua vivência no interior (Bagre, na ilha do Marajó) influenciou nas tuas preferências musicais?  

Apesar de não ter morado exatamente no interior, fazia parte da cultura da minha casa a vida interiorana, o contato sempre foi forte. Meu avô era músico no interior, tocava choro, meu pai era seresteiro. Isso certamente moldou a minha forma de enxergar as coisas musicalmente, além de ter tido desde sempre uma aceitação e gosto naturais por certos estilos musicais que eram depreciados. Músicas cafonas sempre me atraíram e um estilo meio derramado também. Na minha cabeça nunca houve conflito entre Tom Jobim, Deep Purple e Carlos Alexandre.

E me conta sobre a Stereoscope (foto abaixo)... como a banda surgiu?


A ideia de ter uma banda sempre esteve em minha cabeça. Eu já conhecia o Ricardo (Maradei) e o Marcelo (Nazareth) e em 2002 resolvemos nos juntar pra gravar umas músicas, sem muita direção. Gostamos menos do resultado das músicas do que da experiência de estarmos juntos, compondo, tocando e cantando. Decidimos regravar tudo e o que seria um single virou um EP e depois um disco cheio. A ideia era apenas gravar, no início, depois tomou a forma de banda, especialmente com os shows. Pra gente, o nascimento da banda foi em 2003, quando lançamos o Rádio 2000, antes era mais um projetinho manso.

 
Qual a repercussão que esse álbum de estreia teve?

De um projeto sem compromisso, o disco levou a gente a tocar bastante, conhecer pessoas legais, como o Fernando Rosa, que nos chamou pro Senhor F Discos e que é uma coisa muito bacana. Também foi bacana ver, a partir deste disco, uma galera curtindo o nosso som, que tinha um apelo bem esquisito e diferente dos padrões locais da época.

É (e foi) difícil assumir uma banda com pegada sessentista aqui em Belém? Houve dificuldades em relação a isso?

No início do Stereoscope, eu percebia certo sarcasmo de algumas poucas pessoas na aproximação que a gente fazia entre a música “sessentista” e a canção popular de acento mais jovem-guardista bregueiro, em termos de sonoridade. Nossas letras não tinham nenhuma ingenuidade romântica, eram mais sarcásticas e ligadas no mundo, nesse sentido. E a gente nunca quis tocar de terninho. Nem acredito em rock psicodélico ou sessentista, era mais um gosto pela sonoridade, mesmo. No geral a aceitação foi surpreendentemente boa, acho que a cidade tem uma ligação forte com o cancioneiro da saudade e isso ajudou a processar o caldo todo. Hoje é bem mais fácil e me interessa menos isso, embora ainda seja uma referência forte.



"O Grande Passeio" (de 2006) já contou com a produção do selo Senhor F Discos. Como tu avalias esse segundo material?  E quais os prós e contras de gravar um disco com o apoio de um selo?

Pra gente, estar num selo fez uma grande diferença pro bem. Musicalmente, nós gravamos e produzimos sozinhos, mas a parte de pós-produção (mixagem, masterização e divulgação) fez algo que nós nunca poderíamos ter feito sozinhos. Artisticamente, é o nosso melhor trabalho, eu penso. O mais coeso.

O último disco de vocês, "Conjunto de Rock" (de 2010), não teve um trabalho de divulgação tão intenso quanto os dois primeiros. Já era o início de crises na banda? 

Acho que de certa forma, sim. O processo de criação e gravação foi ótimo, pois ficou claro que a gente faria um disco diferente, o que, pra mim, era muito instigante. É um disco sem backing vocals, que nós usamos muito nos dois trabalhos anteriores e ao vivo. Também teve o fato de ser um disco conceitual, temático. A ideia era cantar as aventuras de um conjunto de rock. Acontece que da gravação ao lançamento, muito tempo se passou. Isso deve ter ajudado a dar uma dispersada geral. Também a paisagem musical mudou bastante nesse meio tempo. Gravar um disco e demorar muito pra lançá-lo não é algo bom de se fazer num momento em que qualquer coisa de duas semanas atrás já pode ser considerada antiga (risos) .

Em geral, as tuas letras trazem histórias com um toque de lirismo e com começo meio e fim. Partindo desse estilo, foi tu quem deu a ideia de fazer uma ópera rock" na banda, no caso, o disco "Conjunto de Rock"?

Acho que foi que sugeri, sim. Eu sempre tive um olho na canção e outro numa possível unidade de conceito pra abrigar o conjunto delas, que eram naturalmente diversas. O Conjunto de Rock foi um trabalho muito coletivo, todo mundo topou a parada e mergulhamos fundo na história, já que era meio sobre a gente, também.

Quais foram as situações que motivaram o término da banda? 

Após o lançamento do Conjunto de Rock já estávamos bastante afastados como grupo. Tocávamos muito pouco e também todo mundo tava com atividades pessoais mais intensas. Ficou difícil arrumar tempo para a banda e uma certa falta de interesse começou a dominar. Eu achava que artisticamente precisávamos dar um outro passo, mas ficou difícil fazer isso, pois não dispúnhamos mais do tempo que tínhamos no início.



Pra ti, qual a principal marca que tu deixastes na banda, sonoramente e esteticamente falando?

Difícil dizer, mas em termos de sonoridade, meu jeito de tocar sempre foi bem cru e direto e em termos de composição tinha uma coisa meio visual, talvez. Não sei responder isso, não! (risos).

Qual a sensação que tu tens ao ouvir os discos feitos com a Stereoscope? O que mudou no teu processo de composição?

Escuto entre muito pouco e quase nunca, no geral. Quando escuto fico surpreso, pois acabei me acostumando com as versões ao vivo. Se escutar muito vou acabar me irritando. No geral acho bem legal, mas penso que podia ser mais radical. Penso que fizemos de um jeito bem particular as coisas, mas não sou nostálgico com a banda. Sempre compus muito e na época da banda usava uma parte muito pequena das coisas que eu fazia, trazia as coisas que rolariam com menos estresse. Sempre compus coisas muito diversas e acho que continuo assim.

Hoje, tu farias parte de uma banda de novo, ou preferes um trabalho solo?

Gosto do funcionamento de banda e acho que vou acabar montando uma, é como uma praga! (risos). Gosto do trabalho em conjunto, mas também é um alívio trabalhar sozinho.

Por falar nisso, o que tu tens feito agora?

Tô começando a gravar umas músicas que fatalmente serão agrupadas seguindo uma nova obsessão. Já deu de recesso.


sexta-feira, 30 de maio de 2014

11º PMW Rock Festival anuncia as bandas do Tocantins selecionadas

32 bandas do Tocantins atenderam ao chamado do 11º PMW Rock Festival e mandaram material para a curadoria do evento, que anunciou na quarta, 28, as quatro selecionadas: Trator, Um Quarto de Som, Asteroid 66 e Olho Grego (as três primeiras de Palmas, e a última de Gurupi). A curadoria é formada por André Henrique e Gustavo Andrade (ambos do próprio PMW), Alexandre Castro (Fundação Cultural de Palmas) e Jeremias Moreira (OMB-TO). 

Outra banda do Tocantins já havia sido anunciada: Infecto Feto. As cinco bandas locais se somam às atrações de outros Estados já confirmadas: Humberto Gessinger (RS), Sepultura (MG), Confronto (RJ), Olho Seco e The Dead Rocks (SP), Rupestre (BA) e Neubera Kundera (BA). Os shows acontecem dias 19 e 20 de setembro na Praia da Graciosa, em Palmas. 

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Agenda Macapá: Cortejo da Murta


Cronistas da Rua: "A gente faz o que a gente curte, sem regras"

Por Raissa Lennon,
de Belém
Foto: Raissa Lennon


“A gente segue o ritmo da rua e não ficamos criando receios, nem rótulos. O hip-hop é a rua, e a rua é o hip-hop”. É assim, que os “moleques” dos Cronistas da Rua se vêem diante da sua própria arte, a partir do olhar de quem não tem amarras para criar rimas e fazer o som que vem das ruas. E foi justamente um local ao ar livre que o duo Dime Cronista (voz) e Alonso Nugoli (beatbox) escolheu como ponto de encontro para a nossa entrevista, já que é na rua que eles se sentem em casa. No Bar do Parque, conversamos sobre o primeiro disco “Tekoha” que acaba de ser lançado, sobre as diversas inspirações para as suas músicas e sobre cultura do hip-hop na cidade das mangueiras.

Neste sábado (31), eles apresentam na loja Ná Figueredo o selo homônimo de sua marca de camisetas, com arte assinada por vários artistas do Brasil. O CD físico também estará à venda, e ainda vai rolar os shows do DJ Faca, Gaspar Du Norte, Bruno BO, Kizomba Groove, Don Perna, Aliados MCs, e dos próprios Cronistas. Saiba mais sobre o evento.

Na ilharga do som underground, mas sem deixar de lado o profissionalismo, a dupla logo terá um site onde reunirá suas músicas, clipes, loja online entre outras coisas.  Com muitos sonhos, ideias e projetos, os Cronistas da Rua estão a todo favor, impulsionando e divulgando as batidas do Norte.

Como surgiu o Cronistas da Rua?

Dime Cronista - Eu só fazia grafite e o Alonso ainda não era exatamente do hip-hop e aí numa dessas que eu fui grafitar com um amigo nosso em comum a gente se tornou amigos, “brother” e tal.

Alonso Nugoli - Eu só curtia o som e eu estava começando a fazer beatbox, mas não tinha coragem de mostrar para ninguém. Isso foi no final de 2011.

Dime - Pois é, ele ainda estava começando a fazer beatbox e eu começando a fazer grafite. Aí teve um evento aqui no centro da cidade, e ele veio para fazer beatbox e eu saquei o papo, e nesse período eu também comecei a escrever algumas letras. Depois a gente se encontrou em uma festa, e aí eu fiz uma rima e ele fez um beatbox em cima disso. A sintonia foi bacana e achamos que daria para fazer algo juntos.

Alonso - Ficamos nos falando pela internet até que rolou de fazer o “bagulho” de um festival, e rolou um lance muito engraçado...

Dime - Foi porque eu inscrevi a gente em um festival e falei para ele dias antes, me senti o dono do time (risos). Era um festival de hip-hop.

Alonso - Dias antes nada, tu me falou cerca de meio-dia, e o festival começava às 5 da tarde. É a verdade, eu não tô “aloprando” não! (risos)

E o nome já era Cronistas da Rua (ao lado, em foto de Victor Hugo Rocha)?  

Dime - Sim, porque eu já tinha feito uma música com um outro cara. E um cara do estúdio disse que a música parecia uma crônica e eu fui pensando em um nome, aí eu achei que esse nome era legal, tinha uma dicção legal. Então, fomos para esse festival, eu fiz uma rima, o Alonso um beatbox e rolou de passar entre os quatro primeiros, foi a primeira vez que a gente estava tocando. Depois que a gente passou nas eliminatórias, rolou a final na Black Soul Samba, e foi muito bom, estiveram aqui uns jurados de fora, que vieram para o evento e para conhecer a cultura local. Aí a gente viu que a “cagada” estava pronta, e decidimos tocar juntos e seguir com o projeto.

Mas como surgiu a ideia de fazer um CD?

Alonso - É o que todo grupo almeja, quando a gente inicia um trabalho a gente quer logo ter um disco, pelo menos a maioria das pessoas. Mas a gente queria ter um registro que fosse mais do que um EP, e resolvemos fazer um disco de cara.

Dime - Teve uma época que depois de tudo isso que aconteceu, eu e o Alonso nos separamos por um tempo, no final de 2012 a gente deu um “time” no grupo. Porque cada um estava em buscas diferentes, tentando encontrar outras coisas, e fomos fazendo projetos separados, e nessa época foi uma imersão para gente se auto-avaliar e para voltar com a parceria novamente. E quando a gente se reencontrou de novo já viemos com várias ideias, e conversamos. Eu já tinha um nome que é o “Tekoha”, porque a gente sempre gostou desse lance da cultura indígena. E aí o (Wagner) Bagão (o Dubalizer) me procurou para fazer um CD com a mesma batida, mas com rappers diferentes, aí eu topei. Depois disso, ele sugeriu de produzir o nosso trabalho e montar uma parceria. E nessa época nós íamos para o Rio de Janeiro, participar de um evento, e de lá e a gente conversou com ele para ver o que a gente podia fazer, e rolou.



Vocês gravaram o disco em São Paulo, como foi lá?

Dime - É, o disco foi gravado pela Audiofaya Produções, e tudo foi bem intenso. A gente acordava e ia para o estúdio e só saia de lá na hora de dormir, a gente se internou praticamente. E isso foi muito doido porque aí que eu vi que a gente se atura saca? (risos). Foi super necessário, e o Bagão ajudou muito a gente a evoluir, nesse sentido.

E o Pro.efx ajudou a produzir o disco também?

Dime - É, ele foi tipo pré-produtor, e também é o DJ do grupo. A música “Bem que te vi” e “Mestres de Capoeira” são instrumentais dele, e ele sempre esteve presente para dar algumas vias. Mas o produtor mesmo foi o Wagner Bagão, e ele respeitou muito a nossa visão, foi um pouquinho de cada.

Alonso - Ele produziu algumas bases, e tem um pouco a cara dele ali também, digamos que foi um trabalho conjunto que ele participou também. Mesmo que não sejam todas as bases dele, mas digamos que tem um pouco do toque dele nas músicas.

Mas como foi o processo de composição de vocês?

Dime - É uma viagem porque a “Amanajé” eu comecei a escrever no estúdio fechado e eu estava longe do Alonso, então eu mostrei a concepção para ele e ele escreveu a parte dele. A “Bem que te vi” a gente fez no estúdio juntos. Enfim, às vezes a gente compõe junto, às vezes eu componho em casa. Às vezes a gente tá aqui, e o tempo que o cara vai trazer uma água, já pode surgir um refrão. O lance da composição não tem regra, mas na verdade a regra foi essa de respeitar a visão de cada um. Às vezes tem muito do produtor querer moldar o disco, mas isso não aconteceu. Nesse caso, a gente escreveu o que a gente queria e saiu do nosso jeito. Como somos pessoas diferentes, às vezes ele tem um ponto de vista que nem sempre eu concordo, mas isso é legal sabe. A gente compõe diferente, mas no final dá certo. As letras falam de situações que a gente já viveu e de situações que gostaríamos de viver, às vezes tu consegues encontrar a tua utopia nas letras e às vezes não.

Alonso - “Bem que te vi” fizemos juntos e “Tekoha” foi feita quase juntos, eu fiz uma parte e ele outra, depois a gente se uniu para fazer a outra parte. Não tem regra certa mesmo.



O disco tem muitas influências, como música eletrônica, brega, samba... Como foi para juntar tudo isso?

Dime - Tipo, a gente botou as coisas que a gente gosta de escutar, eu cresci com meu pai escutando Raça Negra, e vamos para festa de música eletrônica, fora o samba, o reggae, que a gente curte. Então, é tudo influência do que a gente costuma ouvir.

Alonso - A gente faz o que a gente curte, sem regras.

Para vocês o que é essa linguagem da rua?

Dime - Cara, é porque eu já sou da rua há muito tempo, então parece que é algo natural. Mas eu acho que é não colocar barreira, porque a rua é livre, é liberta para todas as pessoas. E a gente segue o ritmo da rua, sem receios, a gente faz porque a gente curte, sem criar rótulos. O hip-hop é a rua, e a rua é o hip-hop.

Alonso - É coisa de criança ser da rua, quando tu queres estar na rua o tempo todo, jogar bola, jogar peteca, tá na rua o tempo todo, sabe? Pra mim é desprendimento também. Tem que respeitar a rua assim, como tem que respeitar a música também.

E como vocês vêem a cena do hip-hop aqui na cidade?

Dime - É aquele menino que chega da escola e quer jogar bola, e está treinando para querer se tornar um grande jogador, o hip-hop tá assim em Belém, é tipo um adolescente que está crescendo. Em todos os sentidos está crescendo, desde o moleque que anda de skate até aqueles que dançam. A tendência é que cresça cada vez mais. E essa galera é um público “do caramba”. Eu já fui para festas de hip-hop que era só eu de público, literalmente, e hoje a gente consegue ver que a galera tá aparecendo.


Com Pro.efX, Adriana Cavalcante e Leo Chermont

Mas como é tocar em Belém, como é essa busca por espaço?

Dime - Olha, a gente não tem espaço para tocar, mas não que isso seja algo para se fazer de coitadinhos. A gente não tem espaço, mas a gente vai criando espaço e fazendo eventos e chamando outros grupos, tem outra galera que esta trabalhando, tem umas rodas de rima acontecendo. Mas tem uma galera que abraça o trabalho valendo, o Ná (Figueredo) que é pai de muita gente aqui, é um deles, o disco tá saindo pelo selo dele. E desde o começo ele abraçou o trabalho. E lá é um lugar que a gente pode fazer coisas, pelo menos uma vez por mês, a gente pode estar indo lá.

Alonso - Esse espaço a gente que tem que ir atrás.

Vai acontecer um evento no dia 31 de maio lá no Ná Figueredo, conta um pouco como vai ser?

Dime - Vai ser o lançamento da marca de camisas do Cronistas da Rua e finalmente o CD físico vai chegar. A gente quer que evento seja bacana, para que cada vez mais a gente tenha mais público. O Gaspar, o Bruno BO, Kizomba Groove o Don e toda a galera que vai estar lá, já estão trabalhando bastante tempo na cena e são amigos nossos.

Alonso - Só gente boa, só os camaradas nossos!

E quem faz os desenhos dessa marca de camisa Cronistas da Rua?

Alonso - São uns camaradas aí de vários lugares, só moleque doido! (risos)

Dime - É isso mesmo, é que a gente juntou uma galera de vários lugares que trabalha com grafitagem. A gente já tinha feito essa arte para adesivo, agora transformamos em camisas. São amigos que a gente fez durante essa trajetória, de produção do disco também, então vai ser bem bacana porque a gente vai estar fazendo trabalhos que a gente admira pra “caramba”, e, além disso, pode dar algum retorno financeiro. É tipo ter um retorno para o artista, e disseminar a parada do grafite através das camisas.





E conta como foi o lançamento do disco de vocês lá no Xani Club?

Dime e Alonso - Foi muito legal! (risos)

Alonso - Lá é um espaço que tá aberto também para quem quiser fazer parceria. Foi bacana para caramba tocar lá!

Dime - Esse espaço do Xani é bacana pra caramba, porque é novo e tá aberto para tudo, se chegar um cara que produz funk ostentação a galera lá vai topar saca? Aqui tem muita casa de show, mas tem muito rótulo também, muita coisa fechada. Mas eu entendo, porque o empresário quer o retorno também. No primeiro lançamento que foi na Black Soul Samba, a gente se surpreendeu, porque eu nunca imaginei que dois moleques que começaram agora, conseguiriam um público como aquele. Nesse do Xani, a gente cometeu erros de produção, mas isso é legal, porque a gente aprende, e se preocupa mais. Mas foi ótimo, um maluco pegou o microfone da minha mãe e começou a tocar, sabe? É aquele papo que às vezes não tem mil pessoas, mas as cem que estão ali fazem barulho pra caramba.  E foi isso que rolou no Xani.

Daqui para frente o que vocês esperam para o Cronistas da Rua?

Alonso - Sucesso, fama e TV Globo... Sacanagem! (risos). Mas eu quero mandar um beijo para minha mãe e pra Xuxa!

Dime - Seria ótimo! (risos). Mas na “real”, para o cara que trabalha com arte, é muito contraditório dizer que ele não quer o sucesso. A gente almeja essa parada também, não é que seja o foco em si, mas a gente tá trabalhando para fazer com que o máximo de pessoas nos conheçam. Tem uma galera que tem problema com isso, e eu entendo que o hip-hop é underground, que é um movimento da rua, só que assim, pra tudo na vida temos que caminhar pra frente.  E para que o trabalho possa crescer no sentido de qualidade, às vezes é necessário ter grana sabe? A gente almeja que a “parada” do projeto cresça, por isso, que fazemos questão de construir um site, gravar um CD com uma qualidade legal, lançar estampa de camisas e essas coisas. Queremos que isso dê um retorno para a gente, e que cada vez mais a gente se profissionalize.

Alonso - É que nem quando tu trabalhas em uma empresa, e tu quer dar o melhor de si, pro teu patrão te reconhecer e tu ser promovido. É a mesma história, estamos trabalhando para crescer também. Às vezes a gente conversa de fazer uns projetos, como um Skate Park e tal, mas se a gente não tiver grana não dá para fazer nada. (risos).




quarta-feira, 28 de maio de 2014

Estudantes dos Estados Unidos vieram conhecer o Marabaixo e o Batuque no Curiaú

(Fotos: Fabio Gomes)

Na última sexta-feira, 23 de maio, estudantes do Warren Wilson College, de Asheville, do Estado norte-americano da Carolina do Norte, acompanhados de duas professoras, estiveram visitando o Quilombo do Curiaú, na zona norte de Macapá. O Som do Norte cobriu o evento com exclusividade. Os alunos preparam um trabalho de conclusão de curso sobre a obra da escritora amapaense Esmeraldina dos Santos, que vemos na foto à cima (no centro, à direita), junto com Adelso Preto (do grupo Afro Brasil) e uma das professoras. 



Chegados ao Brasil na véspera e tendo enfrentado uma longa escala em Brasília (como é de costume...), os estudantes chegaram ao Curiaú de ônibus por volta de 10h da manhã da sexta. 



Nem todos são norte-americanos, como se pode ver nas assinaturas neste livro de presenças. No grupo, havia pessoas da Guatemala, da República Dominicana, da Etiópia e da Turquia. Mesmo entre os americanos, nem todos são da Carolina do Norte; uma das alunas é do Estado de Ohio, por exemplo. 



Logo após chegar, todos foram ver a oficina de Confecção de Instrumentos, onde o coordenador Pedro Bolão mostrou como se faz uma caixa de marabaixo. O couro usado não é de boi, e sim de carneiro, pois este é mais fino e soa melhor. 


Logo depois, Esmeraldina falou sobre a tradição do Marabaixo e do Batuque no Amapá - as semelhanças e diferenças entre os dois ritmos, bem como suas respectivas origens. Falou também sobre o dia-a-dia no Curiaú, sempre tendo a tradução simultânea de uma das professoras (aliás, as duas mestras que vieram falam muito bem o português). A única dificuldade foi com a tradução do termo "ladrão", como são designados os cantos do Marabaixo, mas em seguida a professora encontrou um modo de explicar aos alunos e não houve confusão alguma a respeito. 



Pouco depois, o grupo Raízes do Bolão começou a tocar Marabaixo, e mais adiante Batuque. Os visitantes logo foram convidados à se integrar à roda...


... o que fizeram, aliás, com muito gosto. Ao final da apresentação, Adelso fez uma homenagem a sua avó, a Tia Chiquinha (uma das entrevistadas do nosso doc As Tias do Marabaixo)

Pouco após o meio-dia, foi servido um almoço bem brasileiro (com feijão, arroz, farofa e diversos tipos de carne, além de suco de cupuaçu. Havia gengibirra também). A sobremesa foi uma surpresa para os visitantes: a comunidade do Curiaú ofereceu um bolo para uma das estudantes, que estava de aniversário justamente naquela sexta e jamais imaginou que alguém saberia disto do outro lado do mundo :) 

Saindo dali, os estudantes foram dar um mergulho no Balneário do Curiáu, de onde voltaram ao hotel no Centro de Macapá. No dia seguinte, rumaram para a cidade de Mazagão, da qual retornam hoje, quarta, indo amanhã para ilhas da costa paraense. 


terça-feira, 27 de maio de 2014

Macapá: Laguinho festeja amanhã a Quarta-Feira da Murta

Texto: Mariléia Maciel
Fotos: Márcia do Carmo

Marabaixo


Quarta-feira da Murta do Divino Espírito Santo, 28 de maio, o Grupo Raimundo Ladislau cumpre mais uma etapa do Ciclo do Marabaixo deste ano, com o ritual que inicia às 16h e só termina no outro dia, Quinta-Feira da Hora, às 7h, quando  o  mastro é levantado. É o início dos festejos para o Divino Espírito Santo, que tem ainda novenas e bailes que se entendem o dia 30. Os festeiros Raimundo Ramos  e Iury Soledade, respectivamente neto e tataraneto do Mestre Julião Ramos, prometem treze horas de festa com ordem e segurança.

O Ciclo do Marabaixo é realizado em Macapá nos bairros Laguinho e Santa Rita, antiga Favela, e iniciou no Domingo de Páscoa. Os dois bairros são redutos de famílias negras, que, quando Macapá se tornou a capital do Território Federal do Amapá, foram transferidos do Centro para estes bairros.  A tradição é a mesma do século passado, mas cada um desenvolveu algumas particularidades. Duas famílias de cada bairro fazem a festa, no Laguinho em honra à Santíssima Trindade e ao Divino Espírito Santo,  e na Favela somente para a Santíssima.

Sábado no Mastro no Curiaú

O Divino Espírito Santo reúne inúmeros devotos, que professam a fé cantando,  dançando, fazendo e pagando promessa.  Duas famílias descendentes do precursor do marabaixo, Julião Ramos, são os responsáveis pelos festejos no Laguinho, a de Benedita Ramos e a do Mestre Pavão. Dona Benedita, conhecida como Tia Biló, única filha viva de Julião, participa até hoje da programação, atualmente comandada pelos filhos, netos e bisnetos, que formaram a Associação Raimundo Ladislau.

Sábado no Mastro no Curiaú


O mastro que será levantado foi retirado no último sábado, no Curiaú, e levado no domingo para a casa da Tia Biló. Como é tradição, na Quarta-feira da Murta, os participantes saem às ruas do Laguinho carregando os ramos, que têm uma simbologia religiosa, por remeterem ao galho que na Bíblia anunciou o final do Dilúvio Universal, e também mística, por se acreditar que espantam o mau-olhado. Os ramos são guardados junto aos dois mastros do Divino e, após uma noite inteira de rodadas de marabaixo e fogos, entre goles de gengibirra e caldo, começam a ser arrumados nos mastros às 6h. Uma hora depois eles são levantados.

Domingo do Mastro no Laguinho

A programação no Laguinho continua nos próximos dias com ladainhas, missa, banquetes e bailes, até 19 de junho, dia de Corpus Christi, quando se encerra mais um Ciclo do Marabaixo. Iury Soledade diz estar satisfeito com a participação da população e devotos que preservam a cultura e demostram sua fé durante os festejos. “Estamos preparando com muito carinho e cuidado a programação, para que todos sintam-se bem e professem sua devoção. Isso ajuda a manter viva nossa cultura do marabaixo”, disse o festeiro.   


 Domingo do Mastro no Laguinho



domingo, 25 de maio de 2014

Dia de Marabaixo, dia de filmagem do doc As Tias do Marabaixo

Foto: TV Amapá
(as demais do post: Fabio Gomes)


Agora pela manhã, acompanhei integrantes do grupo de Marabaixo Raízes da Favela e do Grupo de Folclore Tia Joaquina (este veio do bairro do Goiabal) no cortejo que fizeram para buscar o mastro da festa deste ano e realizar o Encontro das Bandeiras com o grupo de Marabaixo do Pavão. O cortejo saiu do barracão da Dica Congó, na av. Mendonça Júnior (entre Jovino Dinoá e Leopoldo Machado, no centro de Macapá), passou pela Almirante Barroso (onde prestou homenagens a duas importantes figuras do Marabaixo, a Dona Nana e o Seu Caiana) e pegou o mastro cortado ontem nas matas do Curiaú na casa de Dona Osmarina, na av. Mendonça Furtado. 

De lá, o cortejo, antecedido pela bandeira da Santíssima Trindade e acompanhado por um caminhão de trio elétrico com tocadores de caixa e cantadeiras entoando marabaixos, seguiu pela Leopoldo até a av. FAB, onde nas proximidades da Prefeitura encontrou-se com o grupo do Pavão, que tinha vindo do Laguinho. Foi emocionante ver a confraternização dos dois grupos em plena pista de uma das principais avenidas da capital, colorindo tudo de vermelho e azul durante alguns momentos. Além da equipe da Graphite Comunicação, que contratamos para realizar nosso doc As Tias do Marabaixo, apenas a TV Amapá estava filmando este momento. Em seguida, o grupo da Favela retornou com o mastro para o barracão, onde tinha à sua espera uma farta e deliciosa feijoada. Encerrou-se assim a primeira parte dos festejos do Domingo do Mastro. O mastro recolhido hoje será levantado no alvorecer do dia 9 de junho, uma segunda-feira.

Infelizmente, por bobeira minha, acabei não fazendo fotos do trajeto mencionado, pois havia deixado minha câmera em casa. As fotos de minha autoria que você vê neste post foram feitas perto do meio-dia, já após o final do cortejo.

Mas não pense que a festa acabou, não, afinal hoje é dia do 2º Marabaixo do Ciclo 2014. Agora estamos todos descansando um pouco, mas a partir das 17h começa o marabaixo no barracão da Dica Congó, com previsão de acabar só à meia-noite. Venham! 




sábado, 24 de maio de 2014

Diz Aí: Camillo Royale

Por Bianca Levy,
de Belém


Foto: André Morbach


É impossível falar do cenário rock de Belém sem mencionar a figura de Camillo Royale, da banda Turbo. Com uma cabeleira icônica, estilo peculiar e postura de palco frenética, ele tornou-se mito ao roubar a cena a cada vez que sobe ao palco e entoa seus riffs, carregados de grunge e power pop. Engana-se, porém, quem resume Royale na imagem de rockstar. Verdadeiro entusiasta da música, o "feio" mais amado do rock paraense é conhecido pela humildade e boa vontade ao ajudar bandas amigas, sejam elas veteranas ou iniciantes (quem nunca viu o Camillo carregando caixas escada acima e fazendo serviços de roadie no meio de shows, que atire a primeira pedra!).  Foi com esta autenticidade que ele compartilhou suas memórias com a equipe do Som do Norte, falando em entrevista exclusiva sobre carreira, relação afetiva com a música e causos do rock'n'roll, do tempo em que as bandas de Ananindeua (a exemplo da Eletrola) começavam a despontar.  Apertem os cintos, que para rememorar a trajetória de Camillo é preciso saturar as válvulas e acionar o turbo máximo.

Som do Norte: Como aconteceu a tua descoberta do rock? Quais foram as tuas referências iniciais?

Camillo: Na minha casa se ouvia muita música local por conta da minha tia, que recebia os discos da gravadora do Carlos Santos. E também ouviam muita música clássica, então essas foram as minhas primeiras referências quando criança. Já o Rock, eu descobri realmente aos dez anos vendo o clipe de “Smell Like Teen Spirit”, do Nirvana.

Foto: Renato Reis


Som do Norte: E tu consegues lembrar qual foi o primeiro riff que tu ouviu e que te fez querer tocar guitarra?

Camillo: O riff eu não lembro, mas desde sempre quis fazer as minhas próprias coisas, por não ser que nem o meu ídolo na infância, o pianista Richard Clayderman. Não queria tocar música dos outros.

Som do Norte: Da teoria pra ação, depois de teres recebido referências eruditas e populares, aonde e com quem tu começou a tocar?

Camillo: No início foi complicado. Ser guri e ir atrás de pessoas pra montar uma banda é uma missão. Meus amigos queriam brincar, e eu montar uma banda e ser artista. Um amigo de infância que me ensinou os primeiros acordes, e aí eu fui tratar de fazer as minhas coisas com aquilo que eu sabia.

Som do Norte: E do ‘faça você mesmo’ e da vontade de ter uma banda, surgiu a Eletrola. Me conta sobre esta formação e o processo de gravação das músicas?


Camillo: A Eletrola surgiu no início dos anos 2000, no dia em que fui visitar um amigo de infância em Ananindeua, que conhecia o Eliézer Andrade. Nos conhecemos neste dia, e soube que ele já tocava em uma banda que estava chegando ao fim. Conversamos sobre bandas de Rock e vimos que gostávamos das mesmas coisas, e eu tinha uma (guitarra) Fender Stratocaster, da marca que ele gostava também, e aí decidimos: ok, vamos tocar juntos!  Quando começamos a Eletrola de fato, começamos a ensaiar algumas músicas da antiga banda do Eliézer e depois fomos fazendo o repertório da banda. O lance de gravar um CD depois de um tempo ficou forte em nossas cabeças. O 1º disco foi gravado inteiro na sala da casa do nosso amigo Paulo Lavareda num esquema hoje em dia pré-histórico (gravação digital no Vegas! rs)  mas funcionou e ficamos felizes de nos ouvir e descobrir que tinham outras bandas fazendo músicas naquele esquema. Com o disco podíamos mandar pra rádios e tentar fazer shows fora. (Ouça o CD da Eletrola no blog Música do Norte)


Som do Norte: Pra ti, quais foram os momentos mais importantes da banda?

Camillo: Foram tantos shows, gravações, tantas coisas! Mas de todos os momentos, tocar fora de Belém e no Goiânia Noise me emociona até hoje. Foi uma aula de Rock.  

Som do Norte - Pra ti, de que forma a Eletrola influenciou no andamento da tua carreira e teu desempenho depois no Turbo?

Camillo- Ensinou muita coisa! A lista é enorme, mas o aprendizado veio mesmo com o Turbo. Ter que cantar e tocar guitarra ao mesmo tempo, ajudou a criar o meu próprio estilo. Tudo tem um motivo pra acontecer.

Som do Norte: E o Turbo, como foi que surgiu?


Camillo: A banda surgiu em 2005 com o término da Eletrola. A Vanja e eu vimos que poderia rolar alguma coisa juntos e aí fomos atrás de um batera. Hoje em dia a formação conta comigo, Wilson no baixo, Netto na bateria e Bruno Cruz, guitarra. O primeiro disco (Turbo, 2006) foi gravado pelo Ivan Jangoux e daí começamos uma parceria. Ter uma banda de rock e mantê-la é complicado, então fomos gravando e lançando o material periodicamente,  ao longo dos anos. Lançamos uma fita k7 e depois um compacto em vinil 7" masterizado no lendário estúdio Abbey Road.

Som do Norte: A Turbo é uma banda de bagagem internacional, com masterização no Abbey Road e gravação na Suécia. Me conta sobre esse trabalho que vocês fizeram no exterior?  

Camillo: O lance todo de irmos gravar na Suécia começou como uma brincadeira que depois levamos muito a sério. Gravar com o Chips Kiesbye e o Henryk durante 12 horas nos 18 dias que passamos lá é algo que nunca esqueceremos. O resultado disso vai tá no disco, que deve sair no 2º semestre. Estamos ansiosos pra que as pessoas o escutem.  Eu sou Spartacus está vindo! (Ouça entrevista que Camillo nos concedeu logo após voltar da Suécia, em fevereiro do ano passado)

Som do Norte: É interessante que tanto a Turbo quanto a Eletrola contavam com integrantes mulheres (Andréa na bateria da Eletrola e Vanja no baixo do Turbo). Pra ti, qual a importância de figuras femininas em bandas de rock? Tu achas que a cena tem um bom espaço para as mulheres ou ainda carece de mais abertura?

Camillo: Nos dois casos foi o destino que nos enviou estas pessoas maravilhosas, mas sinto falta de mais bandas com mulheres, é um outro jeito de ver e pensar nas coisas. Espaço sempre tem, mas aonde estão vocês garotas? (risos).


Foto: Andrey Moreira
(Esta imagem foi aproveitada na capa do EP da Turbo lançado 
pelo Som do Norte em 2010, Fuzzilando)

Som do Norte: A falta de mulheres nas bandas abre também a discussão sobre a atual cena de Belém. O que tu achas dela? Ela esmoreceu em relação ao ‘boom’ que rolou nos anos 2000?

Camillo: Eu acho que não. A diferença é que naquela época era tudo novo, mas de lá pra cá mais e mais artistas surgiram e é isso que eu acho legal. O barco não pode parar!

Som do Norte: É verdade. E já que o assunto é o barco não parar, quais são os projetos musicais deste ano?

Camillo: Fazer mais e mais discos e gravar com os amigos! (risos). Estamos ansiosos para mostrar o Eu sou Spartacus pras pessoas e tocar o máximo possível!  

Som do Norte: Legal, boa sorte no lançamento! Pra encerrar a entrevista: faz aí um balanço da tua carreira.

Camillo: Tudo até hoje foi produtivo. Tive sorte de tocar e gravar com vários amigos, pessoas comuns, mas que são meus ídolos. Fico feliz também em ter participado de alguma forma e ajudado a divulgar os artistas locais pra onde eu fui, seja com a Eletrola ou com o Turbo. O rock não pára no Pará, sempre se aprende com tudo, com momentos bons e ruins, e se fosse pra voltar no tempo eu não mudaria nada!