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quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Cheia de Graça: O Brasil não conhece Pindorama

Por Zé Vaz*


Nos anos 70, os compositores Mauricio Tapajós e Aldir Blanc tiveram uma de suas parcerias imortalizada na voz de Elis Regina: “Querelas do Brasil”. Em seus versos insistentemente repetidos - "o Brazil não conhece o Brasil" - criticavam o olhar e o ouvir daqueles que privilegiam o que vem do exterior, particularmente da cultura anglo-saxã, ao mesmo tempo em que desprezam ou não dão a atenção devida à riqueza das coisas nossas, da cultura popular do nosso país.

Ao ouvir o CD Cheia de Graça\ - da amapaense radicada em Brasília Emília Monteiro - não há como não aproveitar o mote dos geniais compositores e parafraseá-los: o Brasil não conhece Pindorama.

Pindorama, em tupi-guarani, é como os indígenas se referiam ao nosso território antes da chegada dos europeus.  Tem como tradução mais usual "Terra das Palmeiras", que correspondia à paisagem vista pelos que habitavam o litoral brasileiro, índios que hoje estão praticamente extintos.

Porém a herança cultural indígena sobrevive na maior região do Brasil, que também é a mais desconhecida pela maioria dos brasileiros: o Norte. Uma região de baixa densidade populacional, coberta de densas florestas e rios caudalosos, onde é difícil se deslocar.  Mas também uma região em que pulsa uma surpreendente diversidade de expressões culturais.

Passados mais de cinco séculos, apesar de toda a violência do processo civilizatório, ainda existem vigorosos traços dessa cultura ancestral de Pindorama. Cultura que sobreviveu e se enriqueceu, ao mesclar-se com expressões culturais trazidas pelos africanos e ibéricos.

Lá no Norte habitam sonoridades desconhecidas da grande maioria dos que vivem no “sul maravilha” (expressão de humor ácido consagrada na fala da Graúna, inesquecível personagem do cartunista Henfil). Ainda que recentemente a cena musical do Pará venha ganhando espaço no mercado musical, o som do Norte, de uma forma geral, ainda é uma novidade nos grandes centros urbanos do país.

Porém, nesse CD,  essa sonoridade não é apresentada de forma pura. Não se trata de um trabalho de etnologia musical. Como manda a nossa boa vocação antropofágica, Emília Monteiro faz uma leitura contemporânea bem pessoal, mesclando influências das mais diversas.

Fotos: Thiago Sabino/Nayara Viana


Emilia canta o carimbó, o lundu, o batuque e o envolvente marabaixo - essa a principal expressão musical de sua terra, o Amapá. Sempre com uma leitura bem singular, com arranjos instrumentais ousados, mas que respeitam a base rítmica desses gêneros. Cabe aqui destacar o trabalho do arranjador João Ferreira.

A primeira faixa do CD é um cartão de visitas pra não deixar dúvidas do que vem pela frente: “Mandacaru” (Nanon) é quase um manifesto da proposta musical do CD. É como se avisasse que, daí em diante, iremos ouvir a voz de uma cabocla que anda descalça, que nunca quis ficar pra titia, que dá no couro, que “leva a vida desse jeito assim”. Vigorosa e doce, decidida e passional. Assim é a interpretação de Emilia Monteiro.

O marabaixo “Mal de amor”, da dupla amapaense Joãozinho Gomes e Val Milhomem, é de uma beleza melódica e poética indescritível. Emilia dá a essa canção uma interpretação suave, que contrasta e se afina com o bater dos tambores do marabaixo. De arrepiar.



Emilia ainda interpreta algumas baladas e gêneros dançantes, que evocam uma sensualidade cabocla-cafuza que dispensa discursos. Apenas enreda, envolve e seduz. Simples assim. E cheia de graça. A participação especialíssima de Dona Onete em duas faixas é a cereja do bolo (em “Eu Quero Esse Moreno pra Mim” e “Veneno de Cobra”).

O CD termina com um batuque, designação genérica que denomina muitos gêneros de “DNA” afro-ameríndio. “Mão de Couro” (Joãozinho Gomes - Val Milhomem) traz uma polirritmia embalada por um competente naipe de metais, com a voz de Emília alinhavando versos e melodia com precisão.



Arte: Ralfe Braga




Emília faz a sua estréia com brilho. E, para quem tiver a oportunidade e o privilégio de vê-la ao vivo, saiba que ainda vai se encantar com a sua beleza física e o carisma com que domina o palco.

O CD Cheia de Graça pode ser uma ótima introdução ao universo musical do Norte do país, mas que não se restringe a isso. No mundo de hoje a música regional não se prende às fronteiras geográficas nas quais se inscreve, pois há o inevitável flerte com as vizinhanças. Assim, o CD de Emilia Monteiro namora com as Guianas e Antilhas no balanço do dançante zouk love, se enrosca com o Maranhão de Zeca Baleiro, se encanta com o Centro-Oeste de Ellen Olléria e devaneia com canções de compositores das cidades cosmopolitas do Sudeste.  

Um trabalho que aumenta em nós o orgulho da nossa brasilidade, da nossa imensa diversidade cultural, dos frutos da nossa miscigenação. Emilia Monteiro nos mostra que essa nossa riqueza é ainda maior do que imaginávamos.

Crítico musical 





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