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quinta-feira, 9 de maio de 2013

Uma noite de marabaixo no Laguinho

Macapá - Perto das 22h de ontem, eu estava sentado na frente da casa da cantora Oneide Bastos, onde fôra acompanhar uma gravação que seu filho, o compositor e instrumentista Paulo Bastos, iria fazer - aliás, fez, mas já havia acabado quando cheguei. Acontece. Felizmente minha ida até lá rendeu um convite irrecusável - a cantora Patrícia Bastos, filha de Oneide e irmã de Paulo, me disse que estava indo para o marabaixo na casa da Tia Biló, no bairro do Laguinho, e perguntava se eu queria ir junto. Na hora!

Tia Biló

Quando chegamos a animação era grande na casa, sede da Associação Cultural Raimundo Ladislau. Tia Biló é a única filha viva de Mestre Julião Ramos, que escolheu o Laguinho para morar quando o município optou por deslocar famílias do Centro. Ali Julião se fixou e ali deu continuidade às festas de marabaixo, "Tradição secular do Amapá", conforme consta do banner afixado numa das paredes da casa.  Logo que chegamos, Patrícia me apresentou Danniela Ramos, neta de mestre Julião. Ela está à esquerda na foto abaixo.

Cantadeiras

Eu já tinha acompanhado uma noite de marabaixo (e batuque) anteriormente - foi o encerramento do 18º Encontro dos Tambores, no Centro de Cultura Negra, também no bairro do Laguinho, em 24 de novembro de 2012. Mas há diferenças significativas para o Encontro e para uma festa de marabaixo em casa. No Encontro, cantadores/ cantadeiras e tocadores de caixa de marabaixo ficam no palco, enquanto no chão o público fica ou assistindo somente, ou dançando, fazendo a mandala (rodando em sentido anti-horário). Já ontem eu vi algo muito mais interessante - enquanto um coro de cantadeiras ficava alinhado junto à parede, o cantador rodava na mandala junto a quatro tocadores de caixa (este parece ser o padrão, poucas vezes se juntou um quinto tocador, este invariavelmente mirim) - convenhamos, é muito melhor você dançar tendo a poucos passos o centro nervoso percussivo do que ficar apreciando-o à distância.



O clima na casa sempre foi animado, porém respeitoso. Mesmo com farto consumo de gengibirra, bebida alcoólica à base de gengibre, não vi incidente algum. Apenas chamou a atenção que algumas das meninas que dançavam, todas com saias longas, em certos momentos suspendiam a saia tão alto que chegavam a mostrar a calcinha. Outras, para evitar isto, vieram com uma bermuda sob a saia.

Ontem o Raimundo Ladislau recebia a visita do Grupo Quilombola São João I do Maruanum II. Eu já havia testemunhado no Encontro como os diversos grupos convivem em harmonia, o que mais uma vez ficou comprovado ontem. Inclusive alguns dos cantos (oficialmente, as músicas cantadas numa festa de marabaixo se chamam "ladrão") do Raimundo Ladislau homenagearam o Maruanum, distrito a 80 km de Macapá. Em outro momento, a cantadeira Laura saudou a presença de Patrícia Bastos. Ou seja, há espaço para improviso nos cantos. Embora o que predomine no repertório sejam cantos tradicionais, muitos em louvor a Nossa Senhora, São José (padroeiro de Macapá) e o Divino Espírito Santo. Muito natural, pois a festividade anual do Ciclo do Marabaixo está totalmente ligada a eventos religiosos - inicia sempre no Domingo de Páscoa e só encerra no domingo seguinte ao dia de Corpus Christi. Em 2011, a Associação Raimundo Ladislau comemorou com festas de marabaixo os dias de São José (19 de março) e São Jorge (23 de abril). A festa de ontem marcava a Quarta-Feira da Murta do Divino Espírito Santo (a murta é usada para atrair bons fluidos para o mastro e também passada nos pés dos dançarinos do marabaixo). Iniciada às 17h, a festa foi até o amanhecer de hoje.

Conheça a programação do marabaixo da Raimundo Ladislau aqui - http://somdonorte.blogspot.com.br/2013/05/agenda-macpa-ciclo-do-marabaixo-do.html

Existem em Macapá 5 famílias que promovem anualmente o Ciclo do Marabaixo entre a Páscoa e Corpus Christi - duas no Laguinho, duas na Favela (atual bairro Santa Rita) e uma no distrito de Campina Grande. Saindo da casa da Tia Biló, eu e Patrícia passamos pela outra festa do Laguinho, a do Grupo do Pavão. Ao contrário da outra, que reunia muita gente ainda perto de 1h da manhã (tanto que nem todos conseguiam dançar, várias pessoas ficavam na frente da casa só apreciando), no Pavão basicamente estava apenas a família organizadora. O cantador e duas caixas de marabaixo rodavam quase sem companhia, enquanto duas cantadeiras, com microfones de pedestal, faziam o coro. Lá encontramos Tia Chiquinha do Curiaú, figura histórica do marabaixo, já homenageada em música do paraense Adelbert Carneiro. Com 92 anos (!!), não aparenta mais de 70. Muito bem disposta, fazia alguns passos, de vez em quando, ao som dos tambores.

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O player abaixo reúne algumas gravações que fiz no Encontro dos Tambores de 2012, com amostras dos diversos cantos "ladrão" entoados pelos grupos. São quatro marabaixos (o 4º com levada semelhante ao do samba), e dois batuques. São temas comuns a todos os grupos, o "Senhora me Agûenta" foi um dos últimos que ouvimos ontem no Raimundo Ladislau, e coincidentemente o primeiro que ouvimos ao chegar no Pavão.



* As fotos que ilustram o post foram enviadas por Mariléia Maciel, e mostram momentos de festas de 2009 e 2010. A foto de Patrícia Bastos é de sua fan page no Facebook.

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