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sexta-feira, 31 de maio de 2013

Foi Show: Oneide Bastos

Brenda Melo, Silmara Lobato, Oneide Bastos, Ana Martel e Patricia Bastos
(Foto: Marclene Oliveira)


A foto acima ilustra o ponto alto do show de lançamento do CD Quando Bate o Tambor, da cantora amapaense Oneide Bastos, realizado ontem no Teatro das Bacabeiras (Macapá). Oneide contou com a participação especialíssima destas quatro intérpretes que, pode-se dizer, formam com ela uma espécie de "time dos sonhos" da MPB amapaense contemporânea -  Brenda Melo, Silmara Lobato, Ana Martel e Patricia Bastos dividiram com Oneide os vocais no samba-enredo "Canto a Amazônia" (Paulinho Bastos - Oneide Bastos).  

(Para essa profusão de vozes a cantar uma mesma música só encontro paralelo, no Norte da minha memória, na estreia do show Nua Ideia, em junho de 2011 em Belém, quando Juliana Sinimbú chamou Aíla, Luê, Gigi Furtado e  Lia Sophia para entoarem com ela "Ensaboa", de Cartola). 

Voltando ao show de ontem. Tão apoteótico foi este momento juntando as cinco vozes a cantar em uníssono as belezas da fauna e flora amazônicas, que antes mesmo dele acabar eu me dizia que este deveria ser o número de encerramento do show, e não estar no meio (era recém a 5ª música do espetáculo). Minha percepção de algum modo estava certa, pois logo em seguida o diretor musical Paulinho Bastos anunciou um rápido intervalo, algo inusitado em shows no Norte ou em qualquer parte deste nosso imenso país. O intervalo, que serviu para a troca de roupa de Oneide, e no qual Paulinho apresentou três composições suas, cada uma interpretada por uma jovem cantora local, em nada acrescentou ao espetáculo, e poderia ter sido suprimido ou alterado para uma exibição do talento dos instrumentistas presentes no palco - o show reuniu excelentes músicos de Macapá: além do já citado Paulinho no teclado e piano, William Cardoso (violão), Taronga (baixo), Fábio Mont'Alverne (bateria), Adelso e Ismael (caixas de marabaixo, tambores dobrador e amassador e pandeiros) e Gorete Bastos (backing vocal).

A primeira parte do show foi a mais rítmica. Oneide começou com a bela "Promessa de Mãe" (André Luiz Barreto - Cássio Pontes), sobre o Círio de Nazaré (durante a execução, foram projetadas num telão ao fundo do palco imagens da procissão em Belém). Em seguida, cantou "Jurupari", em que os compositores Paulinho Bastos e Leandro Dias comparam o rufar dos tambores da região à fala desta figura mitológica da  Amazônia. Fechando essa sequência inicial, em que Adelso e Ismael tocaram caixas de marabaixo, "Urubu, Mestre do Vôo" (Eudes Fraga - Joãozinho Gomes), antes da qual Oneide fez um apelo para que as pessoas cuidem da destinação do lixo que produzem (ao lado, urubus numa rua central de Macapá, em foto de Fabio Gomes). A seguir ao som dos tambores de batuque dobrador e amassador, Oneide relembrou o sucesso "Não Peguei o Ita" (Nilson Chaves) e sem demora convocou Ana, Brenda, Patrícia e Silmara para fecharem a primeira parte com chave de ouro no já citado sambão "Canto a Amazônia". 

Passado o intervalo, teve início o momento mais romântico da noite. Acompanhada pelo piano de Paulo e o violoncelo do convidado Pedro Henrique Sousa (coordenador do grupo Le Phénix), Oneide brilhou nas interpretações de "Bacabeira" (Enrico Di Micelli - Cléverson Baía - Joãozinho Gomes), "Lamento" (tema de Fernando Chaves com todo um jeito de samba-canção dos anos 1950, ao estilo dos de Tito Madi ou do jovem Tom Jobim) e "Dovê" (composição em italiano, parceria de Oneide com o professor de dança Agesandro Rêgo). Na primeira, estiveram presentes as caixas de marabaixo de Adelso e Ismael e nas outras duas a discreta bateria de Mont'Alverne (um pouco menos discreta em "Dovê", deixando o resultado final não tão intimista quanto parecia ser a proposta). Encerrado esse set, Oneide agradeceu a presença de Pedro, que se despediu da plateia, e chamou ao palco Val Milhomem. Oneide retirou-se, e Val cantou seu grande sucesso, "Mal de Amor", parceria com Joãozinho Gomes lançada em 1998 por Emília Monteiro, recentemente regravado por ela em seu CD Cheia de Graça e por Patrícia Bastos no disco Zulusa, ambos lançados este ano. Val também cantara este marabaixo na terça, 28, na única participação do show Canta Brasil, que Brenda Melo apresentou no SESC Centro. Mas, se na terça o SESC quase veio abaixo com a vibração do público cantando junto com Val o "Mal de Amor", o mesmo não se repetiu no Bacabeiras ontem, o público se limitou a apreciar, um que outro cantando baixinho, discretamente. (Em tempo: este solo de Val bem poderia ter sido a atração do intervalo do show de ontem).


Brenda Mela no show de terça no SESC Centro
(com Fabinho à esquerda e Nena Silva ao fundo)

De volta ao palco, com a banda completa, Oneide comandou a reta final  do show, em que interpretou "Cabocla Linda" (William Cardoso), louvação à beleza de uma mulher que o sujeito da canção teria conhecido na ilha do Marajó. Nesta, e na música seguinte, houve a participação de uma dançarina, toda de branco. A ela se juntaram, para dançar o número final, as cantoras Ana Martel, Brenda Melo e Patrícia Bastos. Oneide encerrou o show ao som dos tambores de batuque de Adelso e Ismael, com "Bate Tambor" (Leci Brandão - Zé Maurício), tema que inspirou o nome do disco lançado ontem.

O show de Brenda na terça e o de Oneide na quinta integraram a programação do evento 8ª Aldeia de Artes Povos da Floresta, promovido pelo SESC Amapá desde segunda até hoje. Quem não assistiu Quando Bate o Tambor ontem só terá nova oportunidade daqui a dois meses, conforme me falou a própria Oneide ao final da apresentação. Recomendamos que quem não foi ontem não deixe passar mais esta oportunidade!


Dançadeiras do marabaixo,
em imagem do CD de Oneide

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