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sexta-feira, 29 de março de 2013

Uma Noite em Belém: orquestra, batucada & Strobo

Leo Chermont (Strobo)

Eu sei, já escrevi outros textos falando disso, mas já faz um certo tempo, então creio não estar aborrecendo ninguém com o assunto... A variedade e qualidade da oferta musical em Belém é espantosa e quase sem similares no Brasil (a capital paraense só deve ficar atrás de Rio de Janeiro e São Paulo, que aliás tem quase 10 vezes mais de população). Como exemplo, o roteiro que fiz ontem, quinta, 28 de março, véspera de feriado. Sinceramente, penso que as empresas oficiais de turismo falham terrivelmente ao não explorar essa característica da cidade para alavancar o fluxo de turistas para Belém. 

Perto de 19h30, fui para a Praça da República, onde estava anunciada para as 19h a Batucada do Coletivo Canalha, de volta após uma breve pausa (e que só seria na quinta para não cair exatamente no feriado de Sexta-Feira Santa). Porém o evento ainda não começara. Mas não perdi a viagem, pois o Theatro da Paz fica ao lado do local onde acontece a batucada, e como percebi movimentação no teatro fui ver o que estava programado (já que não lembrava de ter lido nada a respeito no jornal, pela manhã). Simplesmente começaria dali a meia hora um concerto da Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, com regência do italiano Alessandro Borgomanero. Os ingressos, gratuitos, haviam sido distribuídos pela manhã, e a bilheteria já se encontrava fechada, porém a gentileza de um senhor, cujo(a) acompanhante faltou, presenteou-me com um ingresso e lá fui eu.

  • Orquestra - Em Porto Alegre, fui assíduo frequentador, durante muito tempo, dos concertos da OSPA e da Orquestra de Câmara do Theatro São Pedro, mas aqui em Belém ainda não presenciara uma apresentação da orquestra local. Mas não posso dizer que esta quinta tenha sido a melhor ocasião para apreciar a técnica orquestral paraense, tendo em vista a peculiaridade do programa: nas duas primeiras peças selecionadas, uma de Tchaikovsky, outra sinfonia de Mendelsohn, o regente Borgomanero também era o solista, ao violino, das peças, cabendo à orquestra praticamente uma função coadjuvante (os primeiros violinos soavam como segundos, por exemplo). Além disso,  como solou lendo a partitura (algo também pouco usual), o regente-solista acabou ficando de costas para a orquestra a maior parte do tempo. Não recordo de ter presenciado concerto semelhante na vida. Borgomanero só assumiu uma postura de regente tradicional na peça final, um concerto de Mozart, onde não tocou, regendo então de frente para a orquestra, com batuta.

  • Batucada - Saindo do teatro, perto de 21h30, a batucada já começara (aliás, em alguns intervalos entre um movimento e outro do concerto, era possível ouvir algo do samba lá fora, muito suavemente). Um público expressivo até, considerando a divulgação um pouco em cima do evento (e concentrada no Facebook). Bom saber que a Batucada está de volta ao calendário da cidade, com repertório centrado em clássicos do samba dos anos 1960/70. Entre os que cantaram ontem, estavam Tommil Paixão e Aninha do Rosário, vozes já tradicionais do evento promovido pelo Coletivo Canalha, além de Luiz Girard. 


  • Strobo - Saí da praça perto de 23h30, para chegar ao Café com Arte antes de meia-noite, a fim de pagar o menor valor de ingresso (R$ 10, a única despesa que tive nas três atrações) pro show de lançamento do CD da banda Strobo, Delírio Cromático. O Café fica a três quadras da Praça da República, indo pela Av. Nazaré, um trecho que você pode fazer caminhando em 10 minutos (ao menos eu fiz :). Mas chegar cedo é só pra pagar menos e encontrar os amigos, pois mesmo anunciado para as 22h, dificilmente um show no Café começa antes de 1h da manhã e nessa quinta não fugiu à regra. Foi em torno desse horário que Elder Effe começou o show de abertura,  apresentando composições de seu CD solo As Crônicas do Bandido, lançado no ano passado. O público era pequeno, o que fazia com que chegasse muito forte no salão principal o som da discotecagem do salão da frente do Café (e a regulagem do som do show do Elder também deixou a desejar). Nada que tenha atrapalhado, porém, o bom show, em que Elder mostrou que soma cada vez mais as influências country a seu rock'n'roll (chegou a falar em Johnny Cash como uma referência importante para ele no momento). Uma atração à parte foi o acompanhamento feito por Junião Feitosa em uma... bandeja! Sim! Ampliem a foto abaixo e comprovem. Parece um prato de bateria, mas é uma bandeja emborcada, sobre um pedestal de bateria, tocado com vassourinha ou baqueta como se fosse uma caixa. 

Elder Effe e Junião Feitosa

Após tocar uma meia hora, Elder se despediu e chamou ao palco a atração principal, Strobo. O duo formado pelo guitarrista Leo Chermont e o baterista Arthur Kunz tocou temas do novo CD, como "Pop Guiana". Para quem ainda não ouviu, o som da banda é um rock psicodélico com influências eletrônicas e regionais. Mas não há, como se poderia esperar dada à reduzida formação, uma viagem improvisatória sobre os temas (o que levaria faixas que no CD têm em torno de 3 a 4 minutos a terem quase 10 minutos no show, algo comum no jazz). Cronometrei uma das músicas do show, e constatei que não durou mais de 3 minutos. Podemos dizer que, no som do Strobo, o tema em si já é a "viagem". 

Nesta apresentação, o som da discotecagem da outra sala interferiu bem menos, só sendo ouvido nos intervalos entre uma música e outra. Ou no grande intervalo que aconteceu, devido a um fato inusitado: em pleno show se quebrou o pedal do bombo do Kunz. Este inicialmente pediu a um garçom da casa um alicate e tentou consertar - enquanto isso, Chermont, sentado na beira do palco, improvisava sobre o tema de "Futurando", clássico do Floresta Sonora. Quando o conserto se mostrou inviável, Kunz anunciou que a banda faria uma pausa de cerca de 20 minutos para buscar em casa outro pedal. Acabou sendo menos tempo, já que o guitarrista Camilo Royalle, da banda Turbo, lembrou que tinha um em casa, mais próxima do Café que a residência do Kunz. Uma pena que durante esse intervalo parte do público (que quase lotava o salão no começo do show da Strobo) acabou indo embora. 


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