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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Na Rede: Rodrigo Baraúna comenta CD de Ben Charles

Ben Charles – Amazônia em ritmo e poesia



Ok, ok! Sou suspeito em se tratando de qualquer trabalho que meu primo/irmão, Ben Charles, realize. E daí? Foi meu primeiro Guitar Hero, o cara que me inspirou a empunhar uma guitarra e fazer um som. Sempre acompanhei de muito perto seus trabalhos, desde os primórdios da banda Classe Média, que arrasava nos palcos de Boa Vista, até o seu mais novo disco, recém lançado gratuitamente na internet, Carimbó Electro Seco ou o Amor e a Esperança em Tempos de Aquecimento Global. E mais uma vez o primo mandou bem. 

Por Rodrigo Baraúna


Às vezes penso que, para valorizarmos nossas raízes e nossa essência, precisamos largar tudo e mudar de lugar, mudar de aldeia, como diz Neuber (Uchôa), fazer nossa fuzarca em outra maloca. Pois esse paradigma, de estar longe, mas perto, é no mínimo intrigante. Uma coisa é você ver a montanha de longe, outra é subir a montanha. Mas se você nasceu na montanha e nunca a desceu para contemplá-la de longe, você não se permitirá ter uma visão do todo, e acima de tudo, sentir saudade dela. Resumindo, estar perto é se acomodar com o mesmo, e estar distante é amar estar perto e aprender a conviver com a saudade. 

Saudade cantada, meu velho, é uma experiência complexa, pois não é ficção, é uma coisa concreta. Imaginativa, enfim. Bom, chega de viagem! Hehehehehe. O cara passou alguns anos longe de Roraima e tudo que é cantado por ele é uma saudação às suas raízes. 

Vamos ao disco: 

Neste trabalho, Ben Charles fez uma espécie de compilação de estilo de todos os discos já lançados até agora, isso incluiu até mesmo o primeiro CD, intitulado A Caminhada, quando ainda assinava artisticamente como Charles Filgueiras. O termo “Chuva Verde” está implícito em ambos os trabalhos, fazendo uma alusão ao horizonte chuvoso das planícies infinitas de Roraima. 

Os arranjos rítmicos pré-programados também lembram bastante o segundo disco, que leva o nome já mudado do artista. A música “Coração Sessentista” poderia fazer parte do repertório deste novo trabalho, mas só em termos de arranjos, pois na concepção conceitual a coisa não se encaixaria muito bem, uma vez que, como sugere o título da música mencionada, Ben Charles teve como fonte a fase da Literatura Modernista Brasileira. 

Para não confundir muito, sugiro aos curiosos e amantes da música roraimense que conheça a discografia dos artistas locais. Ben Charles é uma ótima opção, porque além de multi-instrumentista, as letras compostas por ele são verdadeiras poesias de amor à cultura Amazônica. Coisas simples, como o pé sujo de barro, buscar água no poço, o olho d’água que deseja ser rio. Tudo é poesia. 

O bacana – para mim, que sou primo – é que a família é outra de suas fontes de inspiração. Destaco a música “A Raça É Uma Ana”, que além de ter um arranjo bem para cima, dançante, é também uma homenagem à nossa tia Ana Almeida, que morava em sua casa e que, de fato, “cuidava” dele quando criança. A babá era a tia. E realmente, a tia Ana tem uma alma de humanidade muito grande. Em outras palavras, ela estraga os sobrinhos e eu não fiquei de fora, Hehehhehhehe!!!!. 

Já escrevi horrores, mas agora sinto certa necessidade de falar do Carimbó. Mas que diabos o Carimbó tem a ver com um guitarrista, que no início era tido do “Dimi Endriquis do Lavrado”? 

Explico: 

Menino quieto que era, sempre ficava fuçando os aparelhos domésticos de casa, afinal, tudo era brinquedo. Mas uma coisa chamava mais sua atenção – o rádio. Aquele botãozinho que rodava e fazia um fiozinho laranja andar de um lado para o outro, atrás de uma régua, era fascinante. Quanto mais se rodava, mais coisas estranhas aconteciam. Homens falando palavras estranhas, músicas, novelas, propagandas. As frequências AM eram mais “fáceis” de serem captadas nos aparelhos antigos, por isso era comum se ouvir rádios do Caribe. Uma safra de músicos do Norte do País, que cresceu ouvindo música caribenha criou o ritmo conhecido como Carimbó. Ben Charles foi um deles. Não que o cara tenha inventado a parada, longe disso. Acontece que esse ritmo é a essência musical dele. 

Acho que já está bom. Se ficou faltando alguma coisa, mande um e-mail para mim, que eu passo o celular dele e vocês matam uma galinha para conversar depois. Tstststs. 

Abraços. 

Clique aqui para baixar o disco:




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