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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A Ópera dos Deuses do Álibi de Orfeu


Banda apresentou amostra do novo trabalho na abertura do CCAA Fest


Por Bianca Levy

A banda Álibi de Orfeu faz jus ao nome que tem. Com uma vitalidade dos deuses, a trupe formada por Rui Paiva (bateria e percussão),  Sidney KC (contrabaixo e backing vocal), Norah Valente (vocais), Elaine Valente e Rafael Mergulhão (ambos guitarra e backing vocal) ultrapassa os vinte anos de estrada e todas as fronteiras musicais. Com um som híbrido, que mescla elementos do rock and roll  com o funk, clássico, carimbó, entre outros,  a banda segue conquistando fãs de todas as idades no cenário musical paraense.

As Valentes do Àlibi: Elaine e Norah

Pioneira do rock paraense, a banda fez parte da geração Rock BR no final dos anos 80, tocando ao lado de bandas como Barão Vermelho, Capital Inicial e Ira!. Lançaram o primeiro disco homônimo em 1992, tendo as duas primeiras tiragens esgotadas no mesmo ano. Após um período de recesso em meados dos anos noventa, o grupo volta em 2004 com a demo  Quem Foi que Disse Que A Vida Era Fácil?, lançado pelo selo paraense Ná Records. Outro sucesso de vendas que teve várias tiragens esgotadas.

Com este mesmo fôlego, em 2010 chega às lojas o CD Só Veneno, produzido por Edgard Scandurra, que também tocou em algumas faixas. O disco também contou com a participação de Frejat, num solo de guitarra marcante na faixa-título. 

E para quem achava que a banda já atingira o ápice da criatividade, eis que mês passado eles entram em estúdio para gravar uma verdadeira Ópera Rock, com participação de orquestra, que mescla vários gêneros musicais e conta um pouco da história da região amazônica. Ainda em processo de produção, o trabalho tem previsão para ser lançado no segundo semestre do ano que vem. 

Para dar uma palhinha do que está por vir, a banda fez o show de abertura do CCAA Fest, na última sexta, 9, no Memorial dos Povos.  Contando com a participação de uma orquestra reduzida, o Álibi de Orfeu mostrou a força deste trabalho que em breve será disponibilizado na rede. Elaine Valente conta que, além de ser um pré-lançamento do álbum, a apresentação de sexta foi um termômetro da recepção do público,  que diga-se de passagem fez a temperatura subir:  "Nós tivemos uma aceitação muito boa do público que curtiu e se emocionou com a sonoridade do rock com a orquestra. Tocamos seis músicas novas sendo que uma delas fizemos com a orquestra - uma pequena prévia da Ópera Rock, e ficamos muitos felizes com o resultado da primeira música com orquestração".

Segundo Elaine, sentir no palco a vibração das novas músicas e ver a resposta positiva do público é a prova de que o Álibi de Orfeu acertou nas novas escolhas. "Tudo isso nós dá a certeza de que estamos no caminho certo. Nós estávamos ansiosos para ver esse resultado no palco, porque foi nossa primeira vez tocando neste formato. Dá trabalho, mas no final é prazeroso e gratificante. Estamos felizes", arremata.

Passada a emoção da pré-estréia da Ópera Rock do Álibi, Elaine contou em entrevista exclusiva ao Som do Norte um pouco da trajetória da banda e do processo de produção deste novo trabalho. 
Som do Norte  - Voltando aos primórdios. Como surgiu a Álibi de Orfeu e como foram os primeiros anos da banda? Contem-me um pouco sobre as dificuldades e alegrias do começo.

Elaine Valente - A ideia inicial era formar uma banda com influências do rock progressivo e sem as amarras de qualquer estilo. Então, por exemplo, se iniciava uma música com funk e terminava tocando punk. O rock era o norteador. Não tínhamos preconceito com os estilos, mas havia a ideia de que nada poderia segurar o Álibi em termos de criatividade, daí colocar o nome do deus grego da música – Orfeu – para dar a impressão da natureza ilimitada da criação em nossa música.

Som do Norte  - A Álibi de Orfeu é uma banda consagrada e com muitos anos de estrada no cenário paraense. Pra vocês, quais são os fatores cruciais para manter a harmonia e a qualidade de uma banda por tanto tempo?

Elaine Valente - O primeiro fator é manter o foco dentro do nosso conceito de música e da coerência de estilo da banda. Como em qualquer profissão você deve ter em mente os objetivos profissionais e procurar sempre a palavra mágica - persistir. Em uma banda é muito importante manter o foco em seus objetivos, no caso sempre será o próximo trabalho a ser realizado, sem isso fica difícil. Inserido no objetivo da banda, aparece o compromisso de cada integrante com o objetivo comum daquele coletivo. Manter uma banda é difícil, são várias cabeças pensando, porém o mais importante é saber lidar com o coletivo e saber discutir ideias, saber ouvir, e principalmente entender que ninguém perde nada e sim, somente ganha. Quanto à qualidade, vem a reboque desse processo e da individualidade técnica de cada músico.

Som do Norte  - Em que medida cada integrante - sejam os antigos, os que permanecem e os novos - contribuíram com sua particularidade para a formação musical da banda?

Elaine Valente - Cada participante em cada fase da banda contribuiu fortemente, não somente com sua capacidade técnica no instrumento musical, mas com sua capacidade empreendedora e de querer vencer e fazer, no mínimo, um bom trabalho. Por exemplo: a Gabriela Pinheiro, que hoje é integrante das Frenéticas no Rio de Janeiro, era uma blues woman incrível e contribuiu com linhas melódicas e interpretações que ficaram marcadas na história. O PC de Moraes, guitarrista da mesma fase, influenciou fortemente na estrutura pop rock do início dos anos 90. Vários solos que ele executava eram referência de pop naquela época. O Théo Moreno, baixista criador da levada do carimbó no baixo, foi fundamental para tocarmos o hard rock misturado com funk. Era um molho, um suingue só. O Alex Maia e sua influência do jazz e do clássico nos teclados dava a condução harmônica. Tudo isso, foi determinante, por exemplo na intenção do Edgard Scandurra trabalhar durante um bom tempo com a banda. Já a segunda fase, nos anos 2000, com a entrada do Sidney KC no baixo, deu mais gás no retorno da banda ao hard rock e na pressão com a bateria voltada ao rock. O Serginho Barbosa, grande guitarrista foi outra importante aquisição para a gravação do CD Só Veneno, juntamente com a Gláfira Lobo, com sua experiência nas boas melodias da MPB, dando juntos o contrapeso no som do Álibi de Orfeu. Hoje, eu e o Rafael nas guitarras inserimos nossas influências de rock, pop rock e metal, somando-se isso com a postura da Norah Valente, juntamente com a pressão da base do Álibi com Sidney (foto à esquerda) e Rui, temos o mote para o novo momento da banda.

Norah

Som do Norte  - Hoje, como vocês avaliam a trajetória da Álibi de Orfeu? Imaginaram que chegariam aonde estão agora?

Elaine Valente - Na verdade, ainda não chegamos...hahahaha... Estamos trilhando com dignidade nosso caminho que ainda é longo. Procuramos lugares para tocarmos. Queremos mostrar nossa música autoral. O Álibi de Orfeu, desde o começo, não precisou se “vender” a outros estilos musicais para tentar alcançar um sucesso mais popular. Respeitamos muito aqueles que fazem o sucesso considerado popular, individualmente somos capazes de tocar qualquer estilo, sem problemas. Mas a banda em si, tem uma história de respeito com seu próprio passado. Infelizmente os ditames da indústria do entretenimento dizem o que vai ou o que não vai fazer sucesso naquele período e aí, não somente o Álibi fica de fora, mas milhares de outros trabalhos. Agora achamos legal o respeito que outros colegas de profissão e um grande público têm conosco. Sabem da história e esse reconhecimento é muito gratificante.


Som do Norte  - Como surgiu a ideia de convidar o Frejat pra fazer uma participação no disco Só Veneno? Como foi essa experiência?

Elaine Valente - O Frejat é amigo do Rui Paiva. Ele convidou o Frejat para participar da gravação do Só Veneno fazendo um solo em alguns espaços da faixa-título, caso ele gostasse do trabalho, é claro. Ele gostou, achou bem rock and roll e quis fazer o solo. Ele gravou no Rio de Janeiro em seu estúdio pessoal e mandou para Belém no mesmo período que estávamos gravando. O mais importante é o reconhecimento que um músico como o Frejat tem com o Álibi de Orfeu. Foram longas estradas percorridas com o Barão Vermelho e com o Álibi de Orfeu pelos palcos da vida do rock nacional.


Som do Norte  - Me falem sobre o novo disco. Como foi o processo de produção dele e qual o diferencial dos outros trabalhos já realizados por vocês?

Elaine Valente - Esse projeto foi idealizado há mais ou menos dois anos. Tínhamos três opções: ou gravaríamos um CD com várias músicas com temas diversos; ou gravaríamos alguns arranjos escritos e compostos com uma orquestra; ou gravaríamos um CD conceitual, com arranjos com uma orquestra, numa ópera rock, unindo várias linguagens artísticas, no caso o mais difícil. Votamos e decidimos pelo último e mais complicado. O diferencial deste trabalho é que será uma história ambientada na Amazônia e que abordará problemas locais, sem levantar bandeira de ninguém, e ainda mostrará ao mundo que o problema daqui da Amazônia, do jovem amazônida, é o mesmo do jovem de qualquer canto do mundo. Este é um novo momento da banda.

Som do Norte  - Agora com o novo trabalho quase pronto, quais as pretensões de vocês?


Elaine Valente - Queremos mostrar esse trabalho para o máximo de pessoas possível. Lugares são muito poucos, sabemos disso, mas estamos dispostos a levar esse trabalho, digamos, esse projeto para os mais diversos lugares. Queremos estar, como diz o Milton Nascimento, “onde o povo está”. Levar música e cultura para os lugares mais distantes, se for o caso. Discutir a ópera, nosso ponto de vista, mostrar ao povo a realidade amazônica a partir de uma prática artística feita por quem nasceu, mora e vive na Amazônia.


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