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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Um dia no Circuito Terruá Pará

Acompanhei hoje 3 dos 5 eventos relativos ao Terruá Pará 3 que ocorreram em Belém. Só ficaram de fora o show de Felipe Cordeiro e convidados (ao qual não pude ir por coincidir com horário de vôo) e a estreia para o público do show principal Terruá Pará no Theatro da Paz, por já ter ido na pré-estreia de ontem (cuja resenha publicarei em breve aqui no blog). Dito isso, vamos aos eventos:

  • Os trabalhos começaram às 13h com o pocket show do Gente de Choro no Boteco das Onze. Formado por  alguns dos melhores chorões do Pará, entre eles Paulinho Moura, Cardoso e Marcelo Ramos (o Trio Lobita), o grupo fez uma  bela performance tocando clássicos do choro como "Um a Zero" e outras de Pixinguinha, além de releituras de temas como "A Volta do Boêmio" (Adelino Moreira). 

  • No final da tarde, o pôr-do-sol no bar Palafita teve como trilha sonora a partir de 17h os pocket shows de Camila Honda e da banda Enquadro. A cantora realizou sua primeira apresentação solo, muito bem acompanhada pelos guitarristas Felipe Cordeiro (que deu aqui e ali ares de guitarrada a algumas canções) e Tom Salazar Cano e pelo baixista Rafael Azevedo. Já que é um primeiro-show, vamos listar aqui o repertório: Camila cantou "Et Je L'Aimme", "O Riso e a Faca" (que ela já cantou em vídeo aqui no blog também). "Nada Além" (clássico dos anos 1930), "Ouça" (sucesso de Maysa), "Ne Dis Rien/Outra Vez" (a segunda é de autoria da própria Camila, e teve primeira audição hoje. A junção das duas músicas também já foi mostrada por Camila em vídeo), "Tamba-Tajá" e o brega "Conquista".  Na sequência, o trio Enquadro mandou seu rock instrumental, com influências de xote e jazz. A banda teve um clipe lançado recentemente pelo projeto Música e Imagem (Greenvision/ Conexão Vivo) e prepara para setembro um CD pelo selo Ná Music, onde certamente entrarão algumas das boas músicas ouvidas hoje, como "Nina" e "Define-te". 


DJ Dago Donato, Vladimir Cunha, 
Carlos Eduardo Miranda e DJ Waldo Squash

  • Antes do pocket show, tivemos às 15h no IAP o debate reunindo os DJs Dago Donato (SP) e Waldo Squash (PA) e o produtor Carlos Eduardo Miranda, mediado pelo jornalista  Vladimir Cunha, cujo título era Música Tropical. O título foi questionado quase ao final pelo jornalista Tito Barata, que disse imaginar que se falaria da música dos trópicos, ao que Miranda respondeu que se assim fosse o Pará ficaria de fora, já que estamos numa zona equatorial. O debate centrou-se de fato na cena musical surgida com a popularização dos meios digitais, a partir da virada do século. Hoje um computador é acessível a qualquer pessoa, quer more em áreas nobres, quer resida na periferia, o que permite o uso de sofisticadas ferramentas de gravação e edição que antigamente só as gravadoras detinham. Miranda comemorou que critérios antes predominantes como o "bom gosto" ou a ideia de "qualidade" deram lugar ao que denomina 'a verdade' das pessoas de periferia - qualidade tudo tem, um copo tem, uma xícara tem, um é mais útil quando você quer tomar água, a outra serve melhor pra tomar café.  
  • Da plateia, o rapper Bruno B.O. comentou que, sempre que tentou uma parceria com expoentes do tecnobrega, nunca teve êxito, a receptividade só é boa quando ele contata pessoas que iniciaram no tecnobrega mas que depois se expandiram para outros gêneros, como Gaby Amarantos e a Gang do Eletro. O DJ Waldo Squash comentou que o ritmo de produção exigido de quem componha para aparelhagens (em certa época, Waldo tinha encomendas de duas ou três músicas novas por dia) deixa pouco tempo para reflexão sobre o próprio fazer artístico. Atualmente produzindo junto com Cyz Zamorano o CD da Gang do Eletro, Squash tem buscado ampliar o diálogo com outras áreas, do mesmo modo que Miranda fez quando produziu Treme, de Gaby Amarantos. "Procurei colocar um pouco de tudo que o Pará tem de melhor - guitarrada, carimbó, lambada...", exemplificou Miranda.  Já o DJ Dago Donato disse que quando apresenta tecnobrega em seus sets pelo país, o gênero é visto mais como uma curiosidade. Um radialista de São Paulo presente no IAP comentou que tem um programa semanal de uma hora e meia onde só toca melody, e que não registra quase nenhum retorno dos ouvintes, o que ele imaginou que aconteceria porque se trata de uma música oriunda da periferia - a principal reação é a respeito das vozes distorcidas das gravações de melody.
  • Waldo Squash comentou que as 'vozes fininhas' que caracterizam o melody (segundo diz, pouca gente nas aparelhagens usa o termo "tecnobrega")  foram uma criação dos responsáveis pela aparelhagem SuperPop, quando chegaram de Cametá. Eles introduziram a aceleração das batidas, o que foi sendo copiado por outras aparelhagens, o que em dado momento resultou em gravações impossíveis, na prática, de dançar numa pista. Isso acabou gerando como reação contrária as aparelhagens estilo baile da saudade, para as quais ele, Squash, revelou o desejo de criar algo em parceria com Pinduca. 
  • Quando questionado por Cunha qual a chance de guitarrada e carimbó se tornarem sucessos nacionais, Miranda falou que a música segue o caminho de quem a criou - "por isso o forró se nacionalizou, porque os nordestinos se espalharam pelo país inteiro". Citou também a tchê music, uma tentativa gaúcha de repetir o sucesso do axé. Como os gaúchos se espalharam por todo o Oeste do Brasil, de Santa Catarina a Rondônia, o "tchê" se enraizou nesta área (vindo a gerar expoentes como Michel Teló) e posteriormente se fundindo com o arrocha baiano, dando origem ao sertanejo universitário. Mas com relação aos nortistas não há registro de  movimento migratório semelhante.

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