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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Diz Aí: Tony Leão fala da Batucada do Coletivo Canalha

Tony Leão

Nesta sexta, acontece em Belém a primeira Batucada do Coletivo Canalha do ano, no Bar do Parque (Belém). A partir de agora, o evento passa a ter o apoio oficial do Som do Norte. Para que você saiba mais sobre o evento, conversamos com um dos idealizadores da Batucada, o poeta e historiador Tony Leão da Costa.

Som do Norte - Tony Leão, há quanto tempo existe a Batucada do Coletivo Canalha no Bar do Parque? A primeira foi feita no Horto, porque o músico Thomaz Silva ia pra França, não é?, só depois se fixou o Bar como local. Nos conte essa história.

Tony Leão - A Batucada existe há cerca de 6 meses e de fato a primeira ocorreu meio que por acaso na despedida de uma amigo que ia pra França para uma turnê. Resolvemos fazer uma espécie de despedida para o Thomaz Silva, que faz parte do grupo A Corda Bamba. Esse grupo é um de nossos parceiros e sempre está conosco nos eventos realizados pelo Bloco da Canalha. Fizemos essa primeira experiência no Bar do Horto. Reunimos vários amigos e ficamos tocando samba e cantando. Foi muito legal.

Thomaz Silva não ficou muito tempo fora, aqui o vemos na 7ª Batucada
- 30.9.11

Tempos depois, após um show do grupo Choramingando, outro grupo que sempre participa das atividades do Bloco da Canalha, acabamos parando no Bar do Parque, onde fizemos outra roda de samba espontânea. Você inclusive estava conosco nesta. Como houve reclamação por parte da vizinhança, acabamos terminando a noite na Feira do Açaí, todos muito aborrecidos, é claro! Afinal tratava-se do famoso Bar do Parque, tradicional ponto de música e boemia de outros tempos!

Fabio Gomes - É verdade, isso foi na madrugada de 30 de junho pra 1º de julho de 2011, após a festa Som do Norte Abrindo o Verão, que eu promovi no Vitrola, com o Choramingando, Aninha do Rosário, Cacau Novais e Tábita Veloso.

Alexandre Pinheiro (sax) e Albert Cordeiro (Grupo Choramingando)
- Batucada de 13.7.11

Tony Leão - Deste dia em diante ficamos discutindo a questão dos espaços públicos e a ausência de iniciativas de ocupação cultural de lugares como o Bar do Parque. Na verdade o que percebemos é que a cidade tem uma série de atividades culturais e coletivos de cultura alternativa surgindo, mas pouco apoio de órgãos públicos. Na verdade às vezes temos até a oposição de certos setores que deveriam contribuir com a cultura e as artes na cidade.
O Bar do Parque neste sentido é um espaço muito importante por se tratar de uma local que é emblemático na história da cultura da cidade de Belém. Desde a década de 1960 aquele espaço foi um lugar de encontro de poetas, músicos, boêmios, militantes políticos de esquerda, estudantes, etc. Lá artistas como Fafá de Belém, Ruy Barata, Paes Loureiro, Alfredo Oliveira, Walter Bandeira e tantos outros ligados ao teatro, à música, à literatura etc., tiveram forte atuação. Era conhecido por ser também reduto de artistas e intelectuais opositores ao regime ditatorial imposto em 1964. Ou seja, é um espaço importante da memória política e cultural da cidade, mas que estava de certa forma esquecido.
Daí surgiu então a idéia de ocuparmos o Bar do Parque, fazendo um batuque um pouco mais organizado do que os primeiros. Como formávamos já um coletivo com vários grupos musicais e mais um bloco de carnaval resolvemos entrar em ação. Então convidamos todos os nossos amigos e começamos os batuques do Bar do Parque, que mais tarde receberam o nome de Batuques do Coletivo Canalha.
Pra darmos mais um clima contemporâneo e urbano passamos a alugar uma “bike-som”. Essas bicicletas munidas de caixa de som que fazem propaganda pela cidade, sobretudo nas feiras, nos bairros de periferia da cidade. Nada mais a cara de Belém do que isso! Símbolo de uma cultura de rua, popular, suburbana, etc. e representativa também das sonoridades do momento na cidade!
A estratégia é, assim, muito simples, plugamos instrumentos percussivos mais violões, cavaquinhos e voz, e instrumentos de sopro quando temos, na bike-som e iniciamos o samba ou carimbó. O espaço é livre e aberto, os artistas vão chegando e fazendo um som!

Cartolinha (ao violão) e o poeta Rui do Carmo (com o microfone)
- 6ª Batucada, setembro de 2011

Som do Norte - A Batucada se caracteriza por ser um evento totalmente aberto numa época em que muitos artistas só se mobilizam se tiverem algum projeto aprovado em edital público. Isso é muito legal, pela confraternização que gera, mas ao mesmo tempo deve ser algo que consome boa parte do teu tempo livre. O que te motiva a levar a Batucada adiante? Com que apoios contas para realizar este evento?

Tony Leão - Pois é consome muito tempo mesmo, mas não só meu, consome o tempo de todos, daí que é um coletivo! Na verdade esse clima coletivo, onde todos participam, todos podem chegar e tocar ou cantar, tanto que saibam obviamente, acaba sendo muito prazeroso a todos os participantes! Isso mostra que os próprios artistas têm interesse em fazer arte e cultura sem necessariamente estar atrelados ao mercado ou ao Estado.
Isso não quer dizer que sejamos contra, por exemplo, financiamento público para iniciativas como esta. Não temos nada contra, muito ao contrário, achamos, por exemplo, que os vários espaços da cidade poderiam ser viabilizados pelo poder público para a criação artística. Quantas praças da periferia da cidade, por exemplo, não poderiam ser usadas para oficinas de percussão, para saraus literários, dança, cinema ou outras formas de arte. Na verdade Belém já teve iniciativas interessantes como a Escola Circo que ensinava artes circenses para crianças em situação de risco social e oficinas de artes para crianças do lixão do Aurá. Eram exemplos interessantes de atuação do poder público em ações ligadas às artes.
Nos últimos tempos, todos esses projetos acabaram sendo sucateados ou mesmo desapareceram por falta de interesse dos gestores. Percebemos que surgem bandas de garagem todos os dias. Às vezes um incentivo mínimo como a liberação de um espaço público com um pouco de estrutura de som já poderia ser uma forma de fomentar novos grupos e artistas etc.
Mas independente disso, os movimentos culturais continuam ocorrendo, seja no centro, seja na periferia. Temos bois-bumbás, como é o caso do Boi da Terra no bairro da Terra Firme, que atua junto a crianças e juventude, fazendo oficinas, mobilizando a comunidade. Temos as quadrilhas juninas, as escolas de samba etc. A cultura popular e a arte estão vivas, mesmo quando não ocorre nenhum tipo de financiamento. Então não se trata de sermos contra a existência de projetos vinculados ao estado para favorecer as artes, apenas não ficamos esperando por isso, resolvemos fazer a nossa parte, resolvemos ocupar um espaço e fazer cultura!
Agora que dá trabalho isso dá, já dava quando era apenas o bloco de carnaval, com a batucada, que ocorre quinzenalmente, o trabalho aumentou. Mas estamos indo até onde der!

Gigi Furtado na 11ª Batucada - 25.11.11

Som do Norte - Além dos grupos fixos, como Choramingando, A Corda Bamba, Aninha do Rosário, já passaram pela Batucada artistas consagrados como Rosa Corrêa, Andréia Dias (SP) etc. É feito algum convite formal para estas pessoas, ou as participações se dão de forma espontânea?

Tony Leão - De fato temos alguns grupos que são, diríamos, a base estrutural das batucadas. Dentre eles temos o Bloco da Canalha, o grupo A Corda Bamba, que é um grupo de samba, o grupo Choramingando, que é um grupo de choro, artistas individuas, tais com Tommil Paixão, Aninha do Rosário, que também atua no A Corda Bamba. Fora esses, temos companheiros que sempre estão conosco, atuam na noite de Belém e aderiram ao movimento individualmente, tocando violão, percussão, cantando etc. São tantos que prefiro não citar nomes pra não cometer algum esquecimento. Temos parceiros antigos que também aparecem de vez em quando como o Boi da Terra, o grupo de poetas do Extremo Norte, e mais recentemente o grupo Sabor Marajoara, grupo de música regional, que tem se aproximado cada vez mais.
Por se tratar de um evento livre, ou seja, ninguém tem um contrato com a batucada, ninguém ganha cachê etc., sempre temos o risco de faltar alguém algum dia. Às vezes temos tantos artistas presentes que tem fila pra tocar e cantar e às vezes ficamos na correria pra chamar alguém que atrasou ou não veio! A imprevisibilidade faz parte do evento sempre!
Foras os grupos e artistas já citados passaram por lá também Adilson Alcântara, Rosa Corrêa, Andréia Dias, Gigi Furtado e vários outros.
Não convidamos ninguém em particular, geralmente atuamos nas redes sociais, sobretudo no twitter e facebook. Fazemos o evento e convidamos todo mundo, artistas e público. Já sabemos os artistas que com certeza irão, que já fazem parte do grupo, que só faltam se não puderem mesmo ir, e vez outra aparecem artistas que não conheciam, querem conhecer, gostam, cantam, voltam às vezes... Assim a gente vai levando!
Eu acho que a grande maioria dos músicos que participam mais efetivamente são artistas novos, uma galera que tá em pleno vigor e interessados em movimentar culturalmente a cidade, daí que se disponibilizam a participar de um evento que do ponto de vista financeiro não rende nada. Nosso ganho é puramente artístico e cultural e isso cria um clima muito legal entre as pessoas que estão assistindo e os artistas. Temos um clima bom no ar, parece que a cidade estava querendo isso, necessitando! Daí que um de nossos ditados é “não ganhamos nada, mas nos divertimos pra p...!”
A única coisa que ganhamos é a gorjeta do chapéu, que é passado em um momento, e é utilizada pra pagar a bike-som. O que sobra geralmente dá pra comprarmos água, refrigerante e algumas cervejas para os músicos.

Aninha do Rosário (com Thomaz Silva ao cavaquinho)
- 7ª Batucada, 30.9.11

Som do Norte - Tu também é um dos responsáveis pelo Bloco da Canalha, que poderíamos definir como a "entidade mantenedora" da Batucada. Inclusive, em função da proximidade da atividade principal do Bloco - o Carnaval -, a Batucada vai dar um tempo em fevereiro, não é? Nos fale da programação carnavalesca do Bloco, e da previsão de retorno da Batucada. Pode incluir os planos pra 2012, se já estiverem definidos.

Tony Leão - Faço parte de um grupo de pessoas que fundou o “Bloco da Canalha: a vil ralé que cospe no chão!” que já existe há 5 anos. O grupo que criou o bloco era na maioria amigos de universidade, quase todos do curso de história da UFPa, depois o grupo foi crescendo com pessoas que se agregaram. A idéia do bloco é basicamente fazer carnaval de rua, com samba, bois, poesia, concurso de fantasias, concurso de marchinhas etc. A sátira faz parte do bloco, já que o carnaval tem exatamente este aspecto de subversão da ordem. Então procuramos manter este aspecto crítico e ao mesmo tempo festivo do grupo.
Apesar de o Bloco não ser o criador da batucada, de certa maneira a origem do evento está ligada a ele, já que a proximidade dos vários grupos envolvidos decorre de nossa experiência nos carnavais anteriores, dessa experiência de 5 anos. Os grupos que compõem a batucada, todos se conheceram e ficaram amigos no contexto carnavalesco, digamos. Temos, assim, dois movimentos independentes, apesar de muito próximos!
Inclusive por essa proximidade é que teremos uma batucada dia 13, sexta-feira, no mesmo lugar de sempre (Bar do Parque), e depois daremos um tempo pra podermos nos dedicar apenas ao Bloco da Canalha, pra podermos colocar o bloco na rua.
Ou seja, teremos a Batucada dia 13 de janeiro, depois teremos eventos do Bloco da Canalha dia 22 de janeiro (concurso de marchinhas e feijoada), 5 de fevereiro (lançamento bloco, com samba, chorinho, boi etc.) e dia 12 de fevereiro (cortejo carnavalesco pela rua). Depois disso abrimos ala para outro bloco carnavalesco, o Mangal do Urubus, que tem atividade dia 19 de fevereiro. Como somos blocos parceiros nossas atividades terminam uma semana antes do Mangal! Todos esses eventos vão ocorrer no bar The Beatles (Cesário Alvim com Bom Jardim) na fronteira entre Jurunas e Cidade Velha!
Depois disso tudo, voltamos com as Batucadas, sempre às sextas, a cada 15 dias, no Bar do Parque. E outros eventos do bloco ocorrerão no decorrer do ano.
Pra quem quiser mais detalhes sobre nossos eventos basta entrar em contato pelo facebook no perfil do “Bloco da Canalha” ou no blog http://blocodacanalha.blogspot.com/ . Lá tem as informações, convites, datas, locais etc.

Som do Norte - O fato de o evento acontecer numa área aberta e central de Belém dá margem a fatos inusitados, como a presença eventual de moradores de rua e outras pessoas que geralmente não teriam acesso a uma programação como essa se acontece numa casa de shows ou num clube. Tem alguma história que você queira contar de algo inusitado que tenha marcado a Batucada nesse período?

Tony Leão - Temos coisas engraçadas e outras constrangedoras! Por exemplo, já tivemos casos de moradores de rua que ficaram, digamos, excessivamente à vontade em meio ao samba, talvez contagiados pelo clima carnavalesco, com as partes do corpo à mostra. Já tivemos dançarinos dos mais engraçados possíveis, quase fazendo coreografias de balé contemporâneo.
Mas o mais comum mesmo são os bebuns tradicionais da Praça da República, muitos querem cantar e tocar, outros querem dançar, mas todos sempre querem um trago de nossa cerveja ou cachaça!!
Algumas vezes acabamos também, sem querer obviamente, dando o microfone pra algum amigo ou conhecido que jura de pés juntos que canta bem e na hora H comete deslizes sonoros, digamos. Quando isso acontece temos que ter bastante jogo de cintura pra recuperarmos os microfones sem perdermos a amizade, né! Nós já percebemos que uma das características dos desafinados é que eles não sabem que o são. Mas como já dizia a canção, “os desafinados também tem um coração”, então temos que ter paciência pra tudo ficar no campo da amizade e diversão...
Mas de outro lado temos coisas muito legais. Por exemplo, tem sido comum as pessoas levarem suas cadeirinhas de praia e ficaram como se estivessem na frente das suas casas acompanhando o evento, num clima bem familiar até. Eu mesmo já tô pensando em levar a minha! Isso é muito legal, mostra que parte das pessoas da área gosta do evento, temos senhoras, às vezes até crianças presentes.
Já tivemos casos também engraçados, como na vez que a bateria da bike-som acabou e contamos com a solidariedade do poeta-amigo Ney Cohen, que gentilmente cedeu a bateria do seu carro. Fizemos uma gambiarra na hora e o show continuou. Teve a vez também que usamos a caixa de som do grupo Sabor Marajoara e tivemos que fazer uma ligação improvisada na tomada do Bar do Parque, porque o cabo era curto. Essa inclusive foi uma das batucadas mais animadas, ficamos até meia noite na festa. Sem contar a constante possibilidade da chuva, que em Belém pode cair a qualquer hora!!
Há um clima muito gostoso na verdade. Temos alunos universitários vendendo suas caipirinhas pra conseguir dinheiro pra congressos em outros estados. Temos a presença de militantes de movimento sociais, a exemplo do movimento Xingu Vivo, que aproveitam pra panfletar, mostrar suas reivindicações. Poetas populares vendendo seus cordéis! “Cabelo ao vento e gente jovem reunida”, com diria o poeta! Temos de fato um clima muito bacana e esperamos que continue assim por um bom tempo!

Última batucada de 2011, em 9 de dezembro

* As fotos foram retiradas dos álbuns de Mel Miranda no Facebook

2 comentários:

  1. Minha presença é garantida na Batucada!

    Parabéns ao Tony e à todas as pessoas que colaboram para que a Batucada ocorra. De fato, é sempre muito bom estar ali, o clima é maravilhoso, muitos amigos presente, muita música boa... Impossível não se contagiar por essa alegria.

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  2. A ideia de realizar a batucada deixa clara a intenção da comunidade artística e boemia em geral para manter e perpetuar o patrimônio de Belém. O Bar do Parque é um espaço extremamente relevante na história da cidade, o descaso dos órgãos públicos em não mante-lo de forma adequada e marginalizando-o evidencia uma característica infeliz da cidade: a de não manter viva sua memória. Por isso, para não deixar o passado da Belle- Époque, o movimento artístico de Belém dos anos 60 a 80, agitações como o batuque do coletivo é válido e mostra não apenas um momento de congregação artística, mas também um explícito manifesto para manter e para a sobrevivência da música e das outras artes fora do eixo de consumo e fora dos bons olhos governamentais. Todo o meu apoio aos queridos da Canalha, do Choramingando e do A Corda Bamba, que estão a escrever seus nomes no cenário artístico de Belém de forma primorosa!

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