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sábado, 16 de julho de 2011

Na Rede: Rock de Roraima e Amapá é destaque n'O Estado de São Paulo

Volume lá no alto
O extremo norte tem bandas nascidas e criadas no regime ''faça você mesmo'' - bom para elas
Sábado, 16 de Julho de 2011, 00h00
Humberto Finatti

ESPECIAL PARA O ESTADO

Mesmo em pleno século 21 e em tempos de internet, regiões como o extremo Norte brasileiro ainda não conseguem uma boa visibilidade para a sua intensa produção cultural no restante do País. Somente agora, capitais como Boa Vista, de Roraima, e Macapá, Amapá, - com sua efervescente e novíssima cena musical jovem produz discos, promove festivais entre outras atividades - têm alguns de seus talentos apreciados pela grande mídia especializada do Sudeste.

A reportagem do Caderno 2 esteve nos dois municípios, para acompanhar de perto essa movimentação musical. Em Boa Vista (com cerca de 280 mil habitantes), por exemplo, se deparou com uma atuante cena formada por cerca de 30 bandas, que se dividem entre fazer um trabalho autoral e também produzir covers de gêneros como heavy metal e punk hardcore.

"O rock roraimense tem uma história que começou na década de 1980, mas que tomou forma e se organizou a partir dos anos 2000", explica Victor Matheus, de 25 anos, vocalista e guitarrista da banda Veludo Branco, uma das principais em atividade na cidade. Além de músico, Matheus também é agitador cultural e produziu, em junho, a primeira edição do Skinni Rock Festival, que levou ao palco da unidade local do Sesc oito grupos, sendo seis do município e dois de Manaus.

Além da Veludo Branco, em Boa Vista diversas bandas já vêm conquistando um número enorme de fãs, como é o caso da Jamrock (que apesar do nome, produz um reggae de forte apelo pop e radiofônico) e da Mr. Jungle. Esta última, mais voltada ao hardcore, é liderada pelo vocalista Manoel Rolla, de 32 anos, também produtor cultural e um dos coordenadores da organização Canoa Cultural, um coletivo de artistas que já realizou dezenas de atividades no município. "De 2008 até agora, o Canoa já realizou mais de cem eventos, como festivais, shows, palestras, mesas-redondas e oficinas", explica Manoel. "Trouxemos cerca de 50 bandas para tocar, algumas de outros Estados e outras já bem conhecidas na cena musical independente, como a Madame Saatan e os Los Porongas." (1)

Movimentação semelhante ocorre também em Macapá, a única capital brasileira que não possui ligação por terra com outros Estados - ali só se chega de navio ou avião. Esse "isolamento", no entanto, não impediu que a cidade de quase 400 mil habitantes também desenvolvesse uma cena musical jovem e empolgante. Conectada, em termos de informação, ao restante do País através da internet e de suas redes sociais, e contando com entusiasmo dos músicos e apoio do poder público local, a cena macapaense hoje tem pelo menos dois nomes bem conhecidos no novo rock brasileiro, as bandas Mini Box Lunar e Stereovitrola. A primeira mistura em sua sonoridade referências da música regional local, Beatles, psicodelia, Mutantes e Arnaldo Baptista, tudo com letras em português escritas pela vocalista e poeta Heluana Quintas. A sonoridade do grupo chamou tanto a atenção que ele já foi tema de artigo na revista Rolling Stone, e deverá lançar seu primeiro disco ainda este ano.

Já a Stereovitrola se volta mais para as guitarras power pop e o pós-punk inglês dos saudosos Smiths, mas também com ótimas letras em português, escritas pelo vocalista Ruan Paatrick. E tanto na Stereovitrola quanto na Mini Box Lunar atua o tecladista e produtor cultural Otto Ramos, de 31 anos, e coordenador do coletivo Palafita, que organiza as atividades relacionadas à nova cena musical da cidade. "Hoje, em Macapá, temos festivais, festas, programas de TV, estúdios de gravação e ensaios, workshops, sites, blogs, etc.", conta ele. "Nada disso existia aqui há uns três anos. Agora a cena existe e está se projetando. É difícil ainda viver de arte e cultura em um Estado como o nosso, mas há ambição das bandas em crescer", ressalta.

Todos desejam mostrar seu trabalho para além das fronteiras do extremo Norte. Mas não é nada fácil. A maioria dos músicos de Boa Vista e Macapá ainda precisa manter um emprego paralelo para conseguir sobreviver. Em Boa Vista, por exemplo, Victor Matheus, da Veludo Branco, é funcionário público. Já Manoel Rolla, vocalista da Mr. Jungle, dá aulas de biologia em um colégio da capital.

Mas nada tira o entusiasmo da turma. O isolamento territorial vem sendo quebrado graças à internet e a programas de TV como o Interferência, exibido ao vivo diariamente, por meia hora, na afiliada de Macapá da Rede TV!, e que procura manter a cena local sintonizada com as últimas novidades da cultura pop. "Ainda falta estudo e referência, saber utilizar bem ferramentas como a internet e o audiovisual", observa Darlan Costa, de 25 anos, apresentador do programa. "Mas, mesmo assim, temos grandes bandas por aqui, como a Stereovitrola, que arrasta pequenas multidões aos seus shows."

O que todos esses grupos querem é levar seu trabalho para cada vez mais perto das capitais do Sudeste. Mini Box Lunar e Stereovitrola já fizeram shows em São Paulo. A Mr. Jungle é a próxima a visitar, em julho. E a Veludo Branco já chegou a excursionar pelo outro lado do País, no Rio Grande do Sul.

A nova música jovem do extremo Norte pode se preparar para muito em breve, se seguir na mesma toada, ser a bola da vez no rock nacional.

* Publicado originalmente no Estadão.com.br

(1) Nota deste blog - Uma grande alegria ver que as duas bandas citadas como destacadas no cenário independente também são nortistas - a paraense Madame Saatan e a acreana Los Porongas.

***

No dia 20, Finatti publicou em seu blog Zap'n'roll este mesmo texto, acrescido de making off, ficha das principais bandas citadas e alguns outros comentários. Como de hábito, há vários outros assuntos no post, como se deduz pelo título O Rock Grande Do Norte – e mais algumas coisinhas (Faith No More no SWU, Justin Bieber em Sampa…)

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