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domingo, 20 de março de 2011

Três noites, dois Gritos (Capanema e Belém)


De quinta a sábado, estive acompanhando dois dos Gritos Rock realizados este ano no Pará - dias 17 e 18, em Capanema, e dia 19 em Belém.

Capanema

Minha viagem a Capanema foi a convite da banda Destruidores de Tóquio, que organizou o primeiro Grito Rock da cidade, que dista 160 km da capital. Fui para lá na tarde da quinta, saindo de Belém numa van fretada pelo grupo, na companhia da fotógrafa Ana Flor, do diretor do programa Invasão da TV Cultura, Robson Fernandes, e do jornalista Raul Bentes (TV Cultura/ Independentes do Brasil). Acomodados no Hotel Central, jantamos em seguida no restaurante Camurcinha, ao lado do Vídeo Seller, local dos shows.

O Vídeo Seller não é exatamente uma casa de shows de rock. Aberto como videolocadora, perdeu a parada para a pirataria de DVDs e virou um local onde acontecem festas de pagode. A adaptação para o evento não teve maiores problemas, salvo a questão esquisita de os banheiros ficarem atrás do local onde foi instalado o palco (o que, devo dizer, não causou problema algum. Mas que era esquisito era). A primeira noite deu pouca gente; a segunda lotou o espaço.

Para mim, os destaques da primeira noite, a de quinta, foram, nesta ordem:
  • Sincera (Belém-PA) - A última a tocar, fez um showzaço, com muito improviso e direito a performances do vocalista Daniel (que numa hora pedia, apontando para os holofotes: Tudo vermelho! Tudo vermelho!, até ser atendido). Num dado momento, Daniel se retirou do palco, o que motivou um longo solo do baixista Pedro. O show vigoroso teve ainda como curiosidade uma moça da plateia, com um short muito curto, que volta e meia levava alguma latinha de cerveja pro Daniel. O show, e a noite, acabaram com João Sincera jogando sua guitarra sobre a bateria.


Enquanto João raspa a guitarra na borda do palco,
a moça bebe calmamente

  • Tecnotrash (Capanema-PA) - Apresentou sua original mistura de rock com tecnobrega, basicamente em temas instrumentais conduzidos pelo teclado de Nazo (um dos Destruidores de Tóquio). A galera curtiu, principalmente "Disfusão", o primeiro single da banda (e que consta do CD O Dia do Exu, lançado pelo Som do Norte). Chamou a atenção a combinação das animações projetadas no fundo do palco com as camisetas coloridas do grupo (que eles jogaram ao final, atendendo o pedido da plateia).


Muita cor no show do Tecnotrash

  • Códex (Bragança-PA) - Combina bem letras políticas, com críticas sociais, com uma levada vigorosa de hard rock. O guitarrista Loro fez bons solos.


Códex

Também se apresentou neste primeiro dia a banda Octoplugs, de Peixe-Boi (PA). Composições interessantes, a maioria sobre relacionamentos mal-sucedidos (o que já fica visível a partir dos próprios títulos das músicas, como "Morte Súbita" e "Perto do Fim"). A performance do grupo ficou prejudicada pelo fraco desempenho da vocalista Bárbara (ela cantou quase o tempo todo com o diafragma contraído, prejudicando sua emissão vocal). Bárbara é autora de uma das músicas apresentadas, "Agora Ele Chora" (que, como brincou o grupo, "apesar deste nome não é um brega"). A participação da Octoplugs encerrou com "Carimblues", adaptação blues de um carimbó composto pelo avô de Bárbara, Orlando do Carimbó. Uma das bandas programadas, a carioca Cordel Eletrônico, não apareceu nem deu satisfação alguma a respeito (ao menos até a hora em que saí de Capanema, na tarde do sábado).


Octoplugs (ao fundo, pode-se ver a porta do banheiro
masculino, que ficava atrás do palco...)


O segundo dia de shows, na noite de sexta, foi marcado pela ausência da banda paulista Suéteres. Já em Belém, o vocalista Lucas se sentiu mal e cancelou o show em Capanema - a notícia foi recebida pelos Destruidores por volta das 16h e gerou muita preocupação. A questão foi contornada da seguinte forma: Camillo Royale, que já estava na cidade, onde ministrou um Workshop de Guitarra na quarta, dentro da programação do Grito, aproveitou a presença de Felipe Dantas (que se apresentou com a Aeroplano) e convocou o baixista Wilson Fujiyoshi para juntos fazerem um momento histórico - o último show da Turbo com esta formação, já que Felipe agora irá se dedicar exclusivamente à Aeroplano.
  • Turbo (Belém - PA) abriu os trabalhos da noite final com uma grande apresentação, mesclando sucessos antigos ("Eu Sou Feio mas Ela Gosta de Mim", "Denise") com canções novas ("A Caixa do Nada", "Cirilo"). Um bom momento foi ao final, com a participação do guitarrista João Sincera em "Fator Yoko".


Duelo de guitarras: João Sincera e Camillo Royale

  • Seguiu-se um show correto da Aeroplano (Belém - PA), que só não foi ótimo como de costume porque teve a prejudicá-lo o péssimo ajuste do microfone do vocalista Eric. Talvez por isto, em dado momento a banda optou por fazer um longo solo instrumental improvisado. Entre um show (Turbo) e outro (Aeroplano), o único que não se mexeu no Vídeo Seller foi o baterista Felipe, que como dito acima fazia seu último show pela Turbo e integra a Aero.


Aeroplano

  • A terceira banda a tocar foi a anfitriã. Os Destruidores de Tóquio (Capanema - PA) mesclaram sucessos dos vários trabalhos (levando a galera a pirar com "A Vaca Foi pro Brejo") e fecharam com uma releitura de ponto de macumba em forma de rock, que já antecipa o próximo lançamento do grupo.


Destruidores de Tóquio

  • A Vinil Laranja (Belém - PA) fez o melhor show do Grito Capanema. Sua energia e peso sonoro, combinado com o apelo pop das melodias, botou literalmente todos pra dançar e gerou uma roda de pogo constante que deu certo trabalho aos seguranças (mas que não resultou em nenhum incidente).


Vinil Laranja

  • Com características musicais semelhantes à Vinil (apenas com um peso roqueiro maior substituindo o apelo pop), a Velttenz (São Luís - MA) também fez um bom show, mas que foi recebido sem tanto entusiasmo pelo público - já faltava perna depois de tanto pular com Vinil. Destaco o final do show, onde, num lance bem rock'n'roll, os maranhenses convidaram João Sincera para tocar com eles, sem ensaio algum anterior. Ao final, novamente João jogou a guitarra, desta vez no chão.


Velttenz

Na tarde da sexta, fiz meu primeiro Workshop de Jornalismo Cultural numa cidade de interior do Norte. Tivemos cerca de 20 pessoas, entre jornalistas, artistas e professores, interessados em ampliar seus conhecimentos sobre Jornalismo Cultural e conhecer a minha trajetória (é constante a curiosidade sobre o jornalista gaúcho que se dedica a escrever sobre música do Norte...). Foi uma bela experiência, ao menos para mim, e fico muito grato aos Destruidores pela oportunidade.

No sábado a tarde, voltamos a Belém novamente de van (eu, Ana Flor, Robson, Renato e a galera da Velttenz), chegando no começo da noite. Dali a pouco, o rumo indicava o Café com Arte, para o Grito Rock Belém.

Belém

A programação da capital incluía algumas bandas que haviam tocado em Capanema - Aeroplano, desta vez com o microfone de Eric bem ajustado; Vinil Laranja (à direita), numa apresentação muito boa, sem porém repetir a performance da véspera; e Velttenz (abaixo), que não assisti (a banda me falou que se sentiu melhor tocando em Belém - pode parecer incrível, mas o show de Capanema era a primeira vez deles fora de São Luís!).



Eric (Aeroplano) tocando guitarra com os dentes ("De leve")


Tivemos ainda, na abertura, o metalcore de A Red Nightmare (Belém - PA) (acima) e a irreverência da Mostarda na Lagarta (Belém - PA), que fez um show muito mais solto (e com menos bregas) do que o da 4ª Noite Som do Norte (com direito a convite para Nettão, da Vinil assumir a batera no lugar de Moicano em "Mosqueiro", também sem ensaio, o que dessa vez não deu muito certo...).


Tiago Minhoca (Mostarda na Lagarta)


Ao final, a grande expectativa, claro, era quanto à performance dos Suéteres (Pirassununga - SP). Embora o vocalista Lucas (ao lado) estivesse visivelmente descontado, se esforçando bastante para estar no palco, o show foi bem dançante e divertido, agitando a galera presente no Café. A banda chegou a atender os pedidos de bis, tocando duas a mais que o previsto, inclusive um cover em inglês.


No quintal, só La Orchestra Invisível (acima) tocou, a participação da Paris Rock foi cancelada em função do horário (já passava de 1h, horário limite para shows no ambiente externo do Café).
  • Conversei com o pessoal da Vinil Laranja e da Sincera sobre a diferença das performances de suas bandas na capital e no interior. Eles consideram que o que muda mesmo é a resposta do público de fora de Belém, que recebe as bandas mais calorosamente (certamente por ser mais ocasional a presença delas). Já em Belém, o público de certa forma já sabe o que esperar, não havendo tanto o fator surpresa, o que torna quase impossível repetir os memoráveis momentos que ambos os grupos proporcionaram a Capanema.

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