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domingo, 6 de fevereiro de 2011

Diz Aí: Felipe Cordeiro


Som do Norte -> Felipe, nesta sexta teu show foi anunciado como uma das atrações do RecBeat 2011. Considero surpreendente isso acontecer com um artista que tem pouco mais de meio ano de carreira - como cantor, eu quero dizer. É claro que não tinhas como prever isto quando fizeste teu primeiro show cantando, no Acordalice Bar (Belém), no dia 16 de junho de 2010. Qual era, na ocasião, tua expectativa a respeito dessa nova fase na carreira?

Felipe Cordeiro -> A minha expectativa continua sendo a mesma daquela ocasião, fazer uma música em que o Kitsch, sobretudo o Kitsch-paraense, seja referência central. Realmente as coisas andam acontecendo mais rápido do que eu pensava, mas a idéia é basicamente circular com essa música, mostrá-la ao Brasil, o show do RecBeat em 6 de março e o do Sesc Pompéia no dia 15 de março serão boas oportunidades.

SdN -> Tua estada no Recife extrapola o período do RecBeat; viajas agora dia 23 e retornas ao Pará dia 10 de março, e em seguida fazes nova viagem, para este show em São Paulo. Vais aproveitar para fazer outros shows, contatos, alguma coisa já relativa ao teu CD Kitsch Pop Cult?

FC -> Talvez hajam desdobramentos (outros shows) mas nada certo ainda. Vou fazer os shows como pré-lançamento nacional do disco.


André Abujamra

SdN - Teu CD tem como produtor o André Abujamra. Em que fase se encontra a produção do disco? Qual a previsão de lançamento?

FC -> O disco está sendo mixado pelo próprio André Abujamra, a previsão é que chegue até no máximo o mês de maio.


Aíla, Manoel Cordeiro e Felipe Cordeiro no show Trelelê - 8/9/10
(na bateria - Arthur Kunz)
(Foto: Aryanne Almeida)

SdN -> Hoje teu único trabalho "fixo" para outro artista é a direção musical que fazes tanto do CD quanto do show Trelelê, da cantora Aíla. Como anda a produção do CD Trelelê?

FC -> O disco da Aíla já está sendo gravado, mas deverá ser um lançamento do segundo semestre.

SdN -> Aíla deve viajar também para Recife e São Paulo?

FC -> Ela está pensando em ir pra Recife.



Adelaide Teixeira, Felipe Cordeiro e Luiza Braga no 2º Baile BregaChic - 18/12/10
(atrás - Davi Amorim, Edvaldo Cavalcante,
Adelbert Carneiro e Daniel Delatuche)

SdN -> No meu artigo O Novo Som de Belém, eu aponto você como um dos principais nomes (os outros são Aíla e Lia Sophia) do movimento de revalorização dos ritmos tradicionais paraenses combinados com toda sorte de influências pop (seja revisitando o repertório dos anos 1970-80, seja pela composição de novos bregas e lambadas). Inclusive acredito que teu show no RecBeat pode ajudar a dar visibilidade nacional ao movimento, nesta segunda vez que o Kitsch Pop Cult é apresentado fora do Pará (a primeira foi no Festival Quebramar 2010, em Macapá, com participação especial da Aíla). Aqui, mais que te perguntar algo, eu queria que falasses livremente a respeito do movimento, cujos marcos iniciais para mim aconteceram em maio do ano passado - o lançamento do CD Amor Amor, da Lia Sophia, e os dois pocket shows que a Aíla fez, com a tua direção, no antigo Boteco São Matheus.

FC -> Que a música do Brasil tem no signo da diversidade sua principal potência, ninguém discute. O fato é que no Norte, especialmente em Belém, essa multiplicidade de maneiras de se fazer música brasileira, foram e estão sendo levadas às últimas conseqüências, esta é a marca da música daqui há pelo menos uma década.

Portanto duas coisas pra mim são muito claras, uma é que não estamos falando de “revalorização de ritmos”, todo mundo mistura ritmos no mundo inteiro, não é aí que mora a marca da vanguarda paraense.

Em outras palavras, não é porque se mistura brega com surf music e ritmo dos balkans ou afro beat que existe uma “nova música”. O que caracteriza essa nova música brasileira e especialmente a paraense, é uma série de coincidências, intersecções intencionais e acasos históricos. Por exemplo, o tecnobrega não é tão interessante em si mesmo, aliás nenhuma música é, absolutamente nenhuma. Mas o fato de haver uma música produzida no seio de um planeta com uma divisão de trabalho pós-fordista, no qual a “brasilinização” do mundo passa a ser um conceito ressignificado nos EUA e na Europa, convergindo com idéias otimistas de uma sociedade mais democrática como a idéia de “inclusão digital”, faz o tecnobrega significar outra coisa, diferente do que significava a música de massa dos anos 80, mesmo a lambada ou o chamado rock nacional.

Acho que minha geração está um pouco mais por dentro das coisas, houve uma época, em que mesmo o “mundo cult” não passava (e não passa) de embuste pra compensar a carência de talento intelectual e artístico. Mas, honestamente, não me sinto dentro de um movimento, o que sinto é que os artistas estão cada vez mais estabelecendo relações de troca de experiência uns com os outros, isso gera mobilização espontânea, parcerias e núcleos unidos. É a primeira geração pós-rancor no Pará (e no Norte talvez, inclusive essa expressão é do Otto Ramos (foto), do Mini Box Lunar), a primeira geração a se posicionar em relação à bregafobia. A bregafobia reflete a visão, geralmente classista, daquele que está apegado à noção tradicional de cultura, já que esta é, em sua gênese, um fato aristocrático e, neste sentido, excludente pois se ergue em função de ideais aristocráticos, por exemplo a noção clássica do Belo. É fundamental não deixar de reconhecer quem já tinha dado passos em outros tempos. Neste caso, principalmente os bregueiros dos anos 80 e 90, estes sim faziam e fazem o que se pode chamar, dentro de certo sentido, de movimento. Eles cantaram e cantam o que sentem, lutam para isso, eis o movimento brega: cantar o sentimento diretamente.


Felipe Cordeiro no show do Conexão Vivo em Castanhal - 8/8/10
(foto: Renato Reis)

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