Eu já disse aqui que a vida é uma sucessão de coincidências felizes (a minha pelo menos é!). Ontem, quase 22h do sábado, eu já tava numas de encerrar o expediente virtual, quando a banda Paris Rock, de Belém, tuita que "Já já na rede Ep completo para download! aguarde!" Bom, era aquilo, podia ser já já mesmo - ou não, pois algo parecido fora tuitado na quinta, dia 25, mais ou menos no mesmo horário ("Daqui a pouco o Ep vai estar disponivel para download! aguarde!"). Mas ontem a promessa foi cumprida, e em questão de meia hora realmente o lançamento estava disponível pra ser baixado, e esse mérito ninguém tira de mim: fui o primeiro a baixar o EP Que Tá?

Bom, enquanto baixava, fui tuitando o que já dissera aqui sobre uma das músicas que entraram no disco - "
À La Jovem Guarda" - e comecei um papo em tempo real com a banda, que prosseguiu quando eu já ouvia as sete canções do EP. Acompanhe agora os melhores momentos desse diálogo Norte-Sul, com breves intervenções da
Megafônica e do
Rafael Guimarães, da banda
Arsenal Vil:
Paris Rock - Já já na rede EP completo para download! Aguarde!
Som do Norte - Opa!
Som do Norte - Baixando EP ''Que tá?'' da Paris Rock. Uau, sou o nº 1!
Megafônica - Moral hein! ;)
Som do Norte - E quando precisei ajuda, de onde menos esperava... "Cachorro Blues" eu já tô decorando, o Raul Bentes toca direto no IdB ;)
Paris Rock - "Cachorro Blue" é massa mesmo o Raul gosta ;D
Som do Norte - Eu curto solo de assobio :)
Paris Rock - Tens razão, fica muito bom! É interessante solos de assobio, me lembra o Godinez do Chaves, foi uma homenagem!
Som do Norte - Tchépitchuba tchépitchuba...
Paris Rock - Esse backing vocal é doido e swingado!
Som do Norte - "À La Jovem Guarda" já comentei no blog, vocês viram?
Paris Rock - Hehehe! Eu vi esse post, sou leitor do seu blog, é muito bom, um dos meus favoritos.
Som do Norte - Que bom que gostam do blog.
Paris Rock - Esse negócio do eu-liríco é muito cult!
Som do Norte - Gosto de usar 'eu-lírico', evita cair na coisa muito 'autobiográfica' que o público às vezes busca. Agora, mais cult é ver no lance algo Brecht né (eu acho).
Paris Rock - Cult é baixar esse nosso EP.
Som do Norte - Teu olhar é tua beleza, morená (eu te vejo passar...)
Paris Rock - Essa é "Mais uma morena", tudo por conta de uma morena que apareceu na praia de Algodoal.
Som do Norte - Hum... depois quero saber essas histórias!
Paris Rock - Vai saber sim ;)
Som do Norte - Mas antes: que final de guitarra nessa 'Mais uma morena' hein! Maravilha.
Paris Rock - É, foi sem querer!
(Raphael Guimarães - Depois dessas dicas, tô até baixando o EP do Paris Rock, só quero que divulguem minha banda mês que vem...
Som do Norte - Legal que estás baixando o EP da Paris Rock. Qual é a tua banda? Manda o material, o blog tá sempre à disposição.
Raphael Guimarães - Minha banda é a Arsenal Vil, vamos gravar a nossa primeiro Demo/Ep, agora em março, até o fim do mês deve tá tudo ok pra passar...
Som do Norte - Ok, aguardo então!)
***
Enfim, EP baixado no sábado à noite, boa parte do meu domingo foi dedicado a ouvir o lançamento. São sete músicas, que você ouve aqui mesmo nesse post, ou no
MySpace da banda (onde, além do repertório do EP, também tem "Nobre Desfecho"), e que compõem um belo disco.
As letras, quase todas tratam do amor (e, em "Cachorro Blue", de sua mais importante variação, a amizade), porém a abordagem do tema jamais é banal. Em "Discrepância", por exemplo, o eu-lírico diz à mulher que o rejeitara no passado e que "agora vem dizer que vai me amar": "Preste atenção/ Eu não sou besta pra querer seu coração/ E se você vier um dia a me amar/ Pode crer que não é sincero/ Ainda lembro do teu olhar." Assim como em "À La Jovem Guarda", a inspiração até pode vir das jovens tardes dos anos 60, mas a ingenuidade sentimental definitivamente ficou no passado. O que não exclui a busca de uma certa pureza, tema de "Não Minta pra Si Mesmo", que ao criticar o machismo ("Não adianta se esconder atrás de músculos/ Você é homem e foi feito para amar") propõe ao interlocutor que procure "aquela que na infância te enrolou"e "Chama ela pra dança/ Volte a ser criança/ E cante o amor."
As melodias de Paris Rock são eficientes na medida certa nesta linha pop-samba-rock: têm apelo e são agradáveis sem cair em nenhum extremo (nem desviam nossa atenção da letra, nem parecem ter sido escritas às pressas apenas para que a letra fosse cantada, e não recitada como um poema). E os parienses-roqueiros também demonstram ser ótimos instrumentistas - destaco em especial os diálogos das guitarras de Yuri e Neto, que embalam e "dão a cara" do disco, com ou sem distorção, e as palmas sincronizadas com a bateria em "Cachorro Blue", que remetem à pré-Jovem Guarda ("Louco por Você", a faixa-título do primeiro LP do Roberto Carlos, usava isso em 1961).
Faltou algo? Sim, falar dos vocais. Afora alguns arranjos vocais que fogem do lugar-comum, temos a interpretação tranquileza (ou seja, somando tranquilidade e beleza) de Maurício Maumau. O seu cantar, levemente arrastado, e seu timbre puxando pro rouco, podem enganar à primeira vista (ops, audição), mas em seguida você se dá conta de que ele sempre passa a mensagem de forma eficiente - e bastaria sua interpretação de "À La Jovem Guarda" para se ter a certeza de que estamos diante de um bom cantor.
Várias das qualidades ressaltadas estão presentes na minha preferida do Que Tá?, "Em Busca da Flor": boa letra e melodia, diálogo das guitarras e, principalmente, o vocal, que dá um show no finzinho da faixa: Maumau segue na levada em que estava até "Buscar uma flor não deve ser perigoso/ Perigo é resolver se trancar", dá uma suingada no último verso - "Pensando na flor que acabara de murchar!" - e, na última palavra, murchar, há uma bela e incomum vocalização, que prolonga a última sílaba (-chaaaaar)... e, quando você acha que a faixa irá acabar (lindamente) com esse vocal 'suspenso', eis que voltam as guitarras, agora dialogando com a bateria de Netto 2T.
Numa palavra: Recomendo!
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