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domingo, 19 de dezembro de 2010

O novo som de Belém


2010 foi o ano em que jovens músicos de Belém passaram a dialogar criativamente com a rica herança musical do Pará (brega, carimbó, lambada, lundu...), seja revisitando sucessos do passado, seja compondo novas músicas desses estilos. Isto já acontecia antes, esporadicamente, mas neste ano tomou proporções de forte tendência, diria até de movimento.


Aíla, Manoel Cordeiro e Felipe Cordeiro
(ao fundo, Arthur Kunz):
"Adocica", de Beto Barbosa,
no show Trelelê - 8/9/10
(foto: Aryanne Almeida)

Considero que os marcos inaugurais do movimento aconteceram em maio: os shows de lançamento do CD Amor Amor, de Lia Sophia, e os pocket shows de Aíla, dirigidos por Felipe Cordeiro, que culminaram no show Trelelê, em setembro. Importante também foi a estreia do próprio Felipe, em junho, como cantor, iniciando o projeto que levará ao CD Kitsch Pop Cult. Estou certo de que os três citados - Lia, Aíla, Felipe - são os principais representantes da nova tendência, pela prioridade que dão a ela em seus respectivos trabalhos, e também por conjugar o resgate de clássicos com a composição (ou, no caso de Aíla, com o lançamento) de novos bregas e lambadas. Podemos citar também Juliana Sinimbú, que tem cantado um sucesso de Nelsinho Rodrigues, "Jererê", e é autora de uma lambada, "Simpatia".

A maior parte das outras bandas se destacam pelas releituras que fazem dos clássicos: para citar alguns exemplos, Paris Rock tem uma versão brega metal de "Amor Amor" (Magno - André Carlos); Mostarda na Lagarta empresta sua irreverência a "A Conquista", de Wanderley Andrade; boa parte do show dos The Vassos tem bregas marcantes como "Minha Amiga" (Mauro Cotta - Claudio Lemos); Delinquentes fez uma versão hardcore de "Pescador", carimbó de Mestre Lucindo; e até o grupo teatral Verbus dedica um bloco de seu espetáculo Sobre o Amor ao brega (cantando "Um Poema de Amor", de Mestre Isoca, e "Tchau Tchau Amor", de Bella Maria e Ivan Peter, entre outras). Nestas releituras todas, duas características são constantes: primeiro, o clássico sempre é adaptado ao estilo da banda; segundo, há um profundo respeito dos jovens músicos pelo repertório revisitado e pelos autores e intérpretes das gerações anteriores. Neste sentido, foi emocionante ver o carinho que Dona Onete recebeu ao participar do show Trelelê, de Aíla, e do 2º Baile BregaChic, de Lia, em dezembro.


Dona Onete no 2º Baile BregaChic - 18/12/10

Musicalmente falando, não há uma unidade estilística no movimento, como havia, por exemplo, na Bossa Nova. Neste ponto, os jovens criadores do novo som de Belém me parecem mais próximos dos pernambucanos do Mangue Beat - se é certo, como disse Lia ao anunciar o Baile, que "a ordem é misturar", cada artista decide de que forma irá combinar os ingredientes da tradição (bregas, carimbós, lambadas, guitarradas) com a modernidade (rock, pop, surf music, timbres eletrônicos). E a combinação de cada um pode muito bem variar - citemos o exemplo da própria Lia: alguns dos bregas que apareciam com vocais bossanovistas e timbres eletrônicos no CD Amor Amor ressurgiram em versões bem mais calientes no Baile BregaChic.

Devo mencionar também o DJ Patrick Tor4, que com seu Baile Tropical tem levado a várias partes do país e até do exterior clássicos como Alípio Martins, Beto Barbosa, cúmbias e cavalos mancos, e também está atento à movimentação que descrevemos - ao preparar o set para a festa Som do Norte Apresenta de outubro, onde tocou com The Vassos, incluiu a novíssima "Legal e Ilegal", do Felipe Cordeiro.

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