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sexta-feira, 28 de maio de 2010

Ouvimos: Aparecida - Iva Rothe

Deixei ouvir, deixei escrever
nesta primeira noite em que ouço o Aparecida da Iva Rothe

por Felipe Cordeiro

Assim como a filosofia transcende o filósofo, pois se estende para além dos limites da sua vida e permanece como um sistema aberto em contínuo movimento, a música também ultrapassa o músico, ao ponto de me autorizar a dizer, na esteira do escrito que ganhei do poeta Jorge Andrade, que música é de ninguém.

A música da Iva Rothe (em foto de Walda Marques) é assim, de ninguém. Essa música se perde nas falas das mulheres da Amazônia, justamente porque vem delas. É como se fosse delas as falas, intenções, cantos, resmungos, sussurros, poemas.

Mas a música da Iva, essa cabocla com um pé na Alemanha, se perde, inevitavelmente, mundo afora, como se vê na maravilhosa “Fortuna Real”. Só entrei em contato com o disco, depois de ter conhecido a história muito interessante que inspirou a música, a história da Fortuna. Colombiana de ascendência egípcia, Fortuna lançou a pérola para a mãe da Iva na França (ainda nos anos 60): “Yo no puedo trabajar, pues soy muy flaquita...”. Quem contou a estória pra Iva foi sua mãe em 2005. Fortuna era garota de programa e dizia que não podia trabalhar. Só se interessava pelos homens mais velhos, pois eles tinham dinheiro para bancá-la. E ainda sobre essa canção, não esqueço do Kiko Dinucci, compositor paulista (dos grandes), vibrando com o refrão da música. Dizia ele que estava muito feliz por ouvir uma cantora cantando “com gosto”: “égua, coisinha/ele quis a morte/ e ela ficou puta...”.

" Fortuna Real"


A guitarra do Pio Lobato (que assina co-produção do cd) também é um destaque no cd que é recheado por essas palhetadas inventivas. Na faixa “Passante” (brega-rock-filosófico), por exemplo, a guitarra é absolutamente genial, deixando pra mim algo muito claro, a saber, o fato de que já existe uma tradição, da mesma forma que há um caminho escancarado para a consolidação de uma linguagem experimental desse instrumento no Pará.

" Passante"


E outros cinco grandes guitarristas paraenses confirmam isso no disco, são: Mestre Vieira, Renato Torres, Diego Fadul, Eric Alvarenga e Gileno Foinquinos. Esses músicos, com arranjos interessantíssimos e consistentes valorizaram com talento, ousadia e sinceridade o Aparecida. Aliás, o disco só tem músicos sensacionais: Arthur Kunz, Nilson "Vovô" Almeida, Ricardo Aquino, Mauricio Panzera, Márcio Jardim, Kleber Benígno (Paturi) e Nazaco Gomes (o Trio Manari), Príamo Brandão, Jó Ribeiro, Kelson Couto, Harley Bichara, Paulo Jiraya, Akel Fares e os grandes da banda Aeroplano (Felipe Dantas, Bruno Almeida, Diego Fadul e Eric Alvarenga).

Outra coisa que me pegou de jeito no Aparecida é a imagética que ele propõe nas letras e no próprio conceito do disco, que me remeteu imediatamente a uma espécie de cinema sonoro. Veja a canção "Pintado à Mão", no qual o ambiente onírico me faz lembrar de um Fellini 8 e ½, Cão Andaluz ou O Anjo Exterminador. A música vem do sonho ou vai para ele? Ou nem vem nem vai, é ele próprio? “Moleque, ontem sonhei contigo/ a gente tocava os pés/ a gente tocava o ouvido/ a gente tocava os pés do ouvido [...] era eu que ouvia tu “cantar”/ uma canção (muito doida...hmmm!)”

É um disco simples e subversivo, porque o é no conceito inteligentíssimo, original e carregado de vibração quentúmida. Subversão é o que pode salvar a música da floresta, e vale dizer: no Aparecida não há subversinhos (para citar um verso do Eliakin Rufino, poeta, filósofo e compositor de Roraima).

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