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domingo, 30 de maio de 2010

Entrevista Especial: Felipe Cordeiro


Foto: Felipe Cordeiro por Paula Lourinho

Na quinta-feira, dia 27, abri o Rapidola dizendo que a entrevista que o jornalista Sidney Filho fizera com Felipe Cordeiro era leitura obrigatória. Tanto pelo registro da trajetória percorrida até agora, quanto pela explanação de suas idéias sobre música em geral e paraense em particular. Verdade seja dita: de poucos compositores da atual geração pode se afirmar que estão construindo uma obra, onde se pode identificar um projeto musical coerente e significativo, como Felipe está. Basta dizer que, das 41 canções que selecionei entre as mais destacadas de 2009 para concorrerem a Música do Ano, faziam parte da lista nada menos que 5 de sua autoria. Três só suas: "À Sua Maneira", que obteve a 4ª maior votação, "Sei Lá" e "Tambor de Luz"; e duas em parceria - "Um" (com Joãozinho Gomes e Marcelo Sirotheau) e "Vamos" (com Jorge Andrade). A leitura, além de obrigatória, não admite picotes - merece ser fruída na íntegra. A publicação original aconteceu no próprio dia 27, na nova casa do blog Ver-o-Pop - a Ecleteca.

Fabio Gomes - 30.05.10

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Entrevista Especial: Felipe Cordeiro

por Sidney Filho

Felipe Cordeiro representa um dos grandes compositores da Música Paraense. Cheio de ideias e pronto para novas aventuras musicais, ele concedeu essa entrevista especial, na qual conta vários detalhes da carreira dele.

Contatos

(91) 81578051 – 32381227

felipecorda@gmail.com * felipeserracordeiro@yahoo.com.br * www.twitter.com/felipecorda * felipecorda@hotmail.com (msn)

Como, quando e por que começou a se interessar por música? E quais foram as tuas primeiras experiências como músico?

Desde muito cedo. Meu primeiro ídolo foi Michael Jackson, imitava todos os passos do videoclipe “Bad”, isso com meus quatro anos de idade. Mas acho que era algo que me impressionava, ainda não tinha consciência daquilo como uma arte. Acho que isso aconteceu com meu segundo ídolo Raul Seixas e depois com Chico Buarque, nunca me esqueço a primeira vez que ouvi as músicas “Mosca na Sopa” e “Construção”. Meu pai (Manoel Cordeiro) me mostrou a segunda e chamava minha atenção para o arranjo, passei a ouvir intensamente esse disco todos os dias. Mas o negócio foi se tornando mais sério quando entrei na Escola de Música da Ufpa aos 10 anos, lá estudei e fiz as primeiras apresentações, nos concertos de piano e nas apresentações da Orquestra de Bandolins da Ufpa, liderada pelo Luiz Pardal. Logo em seguida vieram os primeiros festivais de música popular, o primeiro que participei foi em 2000, quando eu tinha 16 anos, neste mesmo ano vieram os primeiros prêmios, o que foi algo importante. Acho que os festivais que participei nessa época (2000/2002) foram as primeiras coisas profissionais que fiz.

Você está sendo considerado como um dos grandes compositores da música paraense. Como é o teu processo de criação? E como você percebe, que uma música tem mais a ver com um intérprete?

Já tive um processo mais organizado, no começo era assim, eu tinha dificuldade de fazer alguma coisa que eu achasse boa, então eu era lento e organizado, justamente pra não poder dar muito errado, já que não ficaria do jeito desejado. Hoje, com a liberdade que a técnica proporciona, com um maior amadurecimento artístico e intelectual, fica mais fácil. Posso fazer uma música a partir de um texto poético (componho assim com o poeta Dand M e Jorge Andrade) ou a partir de uma melodia, uma linha de guitarra ou ainda uma levada de violão, posso fazer a letra. Hoje é assim, compor é como assoprar. Muito mais natural e intuitivo (com a técnica já absorvida). Embora não me considere um intérprete no sentido tradicional do termo, hoje não tenho mais essa dependência (que já foi muito boa e fecunda) dos cantores, no sentido de que, de um modo geral, não faço mais música pensando em outra pessoa, já fiz muito isso. Acontece de eu fazer música por encomenda, aí penso na voz de determinado cantor. Quando eu só compunha, ficava pensando que cantor caberia melhor naquela música, seja pela voz (instrumento vocal), pela sensibilidade (vibração), coerência estética.



Como você analisa o cenário da música paraense atual e também da música brasileira? E quais são os principais destaques em ambos?

Publiquei no blog do projeto Massa Grossa (http://www.estudiomassagrossa.blogspot.com/) (que desenvolvo com Pio Lobato, Ana Clara e Vovô), um texto chamado Dias Quentes, no qual me debrucei justamente num olhar sobre a música feita no Pará de hoje. Nesse texto eu não comento a cena, mas sim busquei fazer considerações sobre aspectos da estética da música contemporânea paraense, como a relação do calor com a liquidez, seja nos ritmos dançantes, híbridos; seja nos conceitos, intensos, anárquicos, capazes de elevar à estética Kitsch, por exemplo, a outro patamar, isto é, um vetor de transformação. A meu ver eis o ponto onde a música feita no Pará hoje se diferencia de um modo geral, das demais feitas no Brasil. Em outras palavras, vejo que a música do Pará hoje, talvez pela primeira vez na sua história, dialogue criativamente com a música contemporânea do mundo sem nenhuma dificuldade, aliás, muito pelo contrário, já que aquela é linha de frente desta. Isso porque, diferentemente de outras épocas, em que tudo era muito embrionário e isolado (um compositor aqui e outro ali, uma experimentação aqui e outra acolá), hoje já existe uma consciência de que existe uma estética nossa, um caminho aberto para a experimentação singular que a “floresta sonora” nos oferece. Acho que o Pio Lobato é uma peça chave no entendimento dessa história recente da música contemporânea paraense, identifico, sobretudo, no trabalho que ele fez com os Mestres da Guitarrada, algo de primoroso que radicalizou conceitos e consolidou (na idéia) uma estética sui generis que superou a dicotomia entretenimento/arte ou ainda kitsch/cult. Não foi a música que mudou, mas a idéia, o olhar. Acho que o som que o pessoal do Casarão Cultural Floresta Sonora (Juca Culatra, Metaleiras da Amazônia, Jungleman e MG Calibre) é interessantíssimo também, cheio de inventividade e ousadia. Destaco ainda Paris Rock, Arthur Nogueira, Coletivo Rádio Cipó, Projeto Secreto Macacos, Madame Saatan, Clepsidra, o trabalho recente da Iva Rothe e da Lia Sophia, como sendo momentos bem marcantes dessa produção atual. A música brasileira está num dos melhores momentos da sua história. A produção independente, do Amapá ao Rio Grande do Sul, surpreende pelo talento, diversidade e, sobretudo, algo que considero muito saudável, um desapego deliberado por uma música nacionalista. É como no cinema, os brasileiros precisaram (meados dos 60/70) se ver, se enxergar, isso nunca tinha acontecido antes do cinema novo, foi uma revolução. Passado esse momento o nosso cinema precisou expandir suas possibilidades estéticas, nós brasileiros tínhamos de experimentar maneiras de nos ver, inventar, despegar-se das tradicionais. Hoje é possível ver um filme do Heitor Dalhia e ele não ter nada, aparentemente, de nacional. E mesmo no que se faz em Pernambuco no cinema hoje é genial, aliás, como a música, eles encontraram uma estética, um desenho que tem um traço muito singular e definido. Sou admirador profundo, por exemplo, do Cláudio Assis, e lá tem traços fortes do cinema novo, mas reinventado, livre dos excessos nacionalistas. É isso que também ocorre na música brasileira. É o que vejo na música do Fernando Catatau, do André Abujamra, do Capilé, da Karina Buhr, do Kiko Dinucci, do Dante Ozzeti, do Cérebro Eletrônico, entre tantos outros grupos e artistas.

Quais são os teus novos projetos?

Estou produzindo o KITSCH POP CULT, o primeiro disco que me mostrou além do compositor. O que posso dizer por agora é que é inspirado no Alípio Martins e no Arrigo Barnabé. No mês de junho, julho e agosto, estarei me apresentado com um show já inspirado no CD em Belém e no interior do estado (Castanhal e Marabá) pelo projeto Conexão Vivo. Dia 16/6 farei no Acordalice Café um show pra mostrar um pouco desse som. Estou fazendo um trabalho em parceria com o Pio Lobato, a Ana Clara e o Vovô no projeto Massa Grossa, em breve a gente vai tocar e mostrar o que a gente anda inventando na garagem (do Pio), embora isso já esteja registrado (algumas coisas) no nosso Blog. Estou também na fase de pré-produção do cd da cantora Aíla, um trabalho que acho que vai render bons frutos, já que ela, apesar do pouquíssimo tempo de carreira (dois anos) já começa a apontar para um lance muito legal. No mais tenho meus trabalhos com o teatro que são revigorantes e se traduzem sempre num grande aprendizado.


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