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sexta-feira, 9 de abril de 2010

Diz Aí: Caldo de Piaba


Recebi ontem, 8 de abril, as respostas da entrevista cujas perguntas enviei à banda acreana Caldo de Piaba no dia 28 de março. Ou seja, Saulo, Di Deus e Miúda escreveram pouco depois do já histórico show da quarta-feira em que dividiram o palco com Macaco Bong, no StudioSP, no segundo dia da etapa São Paulo do Festival Fora do Eixo. Conversamos sobre a seleção para o Conexão Vivo 2010, o novo EP - Volume 2 - lançado em março, o mercado para a música instrumental e as constantes viagens da banda - que dá importantes dicas para quem está no mercado independente, no estilo desta: "A gente decidiu criar um caixa coletivo da banda, reinvestindo os cachês para potencializar em turnês os convites para um festival." Ao final da conversa, ouça o novo EP na íntegra, direto da nossa caixinha cantante.


O show no StudioSP - 7/4/10
(Por
Lucas Mortimer, no álbum Festival FDE 2010
do Flickr do Coletivo Pegada)

Som do Norte - Caldo de Piaba foi um dos cinco projetos do Norte selecionados pela curadoria do edital da Conexão Vivo 2010. Como a banda recebe essa seleção? Vocês já sabem em quais dos estados por onde o projeto passa (Minas Gerais, Bahia e Pará) irão tocar? O único destes estados onde vocês não se apresentaram ainda é o Pará. Qual a expectativa de vocês com a possibilidade de tocar no Pará, cuja musicalidade tem fortes influências sobre o som da banda?

Caldo de Piaba - Ficamos muito contentes em termos sido selecionados neste edital do Conexão Vivo, um importante reconhecimento do trabalho que estamos realizando, de viabilizar nossa circulação. A curadoria nos indicou para realizar o primeiro show em Minas, já confirmado para o dia 17 de abril, em Belo Horizonte (NR: Caldo de Piaba toca no Music Hall, às 0h30, conforme programação divulgada pelo Nagulha). O Pará segue como um dos lugares onde temos muita vontade de não só tocar, mas de trocar experiência com artistas locais.

Som do Norte - No dia 22 de março, o site Nagulha lançou o novo EP de vocês, Volume 2, para download. Como é que vocês avaliam a repercussão desse lançamento agora, ainda nesta reta inicial? O "Volume 1" teve as músicas incluídas apenas no MySpace, ou chegou a ser liberado para download também? O CD que vocês planejam reuniria todo esse material, com novas gravações, ou vocês pegariam um repertório novo?


Caldo de Piaba - As primeiras músicas que gravamos ("O Fanq", "Venska pro papai" e a versão de "Lambada do Amapá", de Jorge Cardoso) foram um registro dos primeiros meses da banda, e disponibilizamos apenas no http://www.myspace.com/caldodepiaba. Isso foi muito importante pra divulgação da banda. No começo desse ano conseguimos registrar um material com melhor qualidade e chamamos de Volume Dois, realizando o lançamento pelo portal Nagulha. Da primeira pra segunda gravação houve uma mudança de formação também. Com a saída do Fred Margarido dos teclados, a banda se tornou um power trio, e o Volume Dois registra o momento atual. A repercussão está sendo ótima, pois disponibilizar pra baixar faz com que as pessoas dos lugares onde a banda chega já possam ter conhecido melhor o trabalho. O disco vai ser uma mistura das músicas das duas gravações anteriores, com composições novas.

Som do Norte - Outro dia eu fiz um trocadilho com o nome do blog de vocês (Piaba no Kombão), dizendo que "a continuar assim (a rotina de viagens da banda), a página terá que mudar o nome para Piaba no Avião..." De fato, depois de uma breve turnê pelo estado de São Paulo no ano passado, vocês iniciaram 2010 com um giro pelo Nordeste, em março tocaram no Rio de Janeiro e agora estão aí em São Paulo participando do Festival Fora do Eixo. Que balanço vocês fazem dessa movimentação toda?


Show em São Carlos, SP - 17/11/09

Caldo de Piaba - Engraçado isso, porque quando a gente montou o blog o objetivo era registrar nossa circulação pelo interior do estado do Acre numa Kombi, num projeto que foi apoiado pela Lei de Incentivo estadual. Era pra ser o diário de bordo daquele giro. No entanto, se tornou o diário de bordo dum processo de circulação nacional que começamos a investir logo em seguida. A gente começou a rodar um pouquinho antes da mini tour com Mini Box Lunar em São Paulo, por ocasião do convite pra tocar no Fórum da Cultura Digital em novembro. Em outubro a gente havia tocado no Festival Calango, em Cuiabá, e de lá pra cá a banda elegeu a circulação como prioridade, e passou a trabalhar fortemente pra viabilizar isso. Esse foi um movimento que coincidiu com nossa entrada na Agência Fora do Eixo, frente de ação do Circuito Fora do Eixo que vem trabalhando para apoiar um grupo de bandas a cada ano nesses processos de circulação. Isso acontece de uma maneira diferente do que rola numa agência ou produtora convencional, pois o objetivo é que a própria banda provoque a agência, leve demandas, e seja formada para seguir o rumo da autogestão de seus processos. Foi assim que a gente decidiu criar um caixa coletivo da banda, reinvestindo os cachês para potencializar em turnês os convites para um festival. Foi assim no Nordeste, por exemplo, quando partimos de um convite pra tocar no Rec-Beat (a foto à direita, de autoria de Caroline Bittencourt, é do show no Recife) e, investindo alguns cachês guardados para gastos com transporte e contando com apoio de Pontos Fora do Eixo e da Regional Nordeste, viabilizamos 7 shows em duas semanas. Agora para o Festival Fora do Eixo, conseguimos o apoio do Minc (Edital de Intercâmbio 2/2009) para o custeio do deslocamento até São Paulo. Mas isso só foi possível por causa do planejamento: a gente mandou o projeto pro Minc em dezembro. É importante que as bandas busquem os canais que existem pra poderem circular. No Acre hoje, pra dar um exemplo lá do nosso estado, existem vários mecanismos de incentivo e fomento à cultura, inclusive um edital de passagens semelhante a esse do Minc. Isso é muito importante pra que os sons e artes do Norte circulem ainda mais.

Som do Norte - Tem mais viagens já confirmadas?

Caldo de Piaba - Pra maio já temos outros shows confirmados: dia 15 na Virada Cultural, em São Paulo, e dia 22 no Festival Bananada, em Goiânia. Dentro da mesma perspectiva que falamos acima, estamos trabalhando para tocar o máximo possível neste próxima descida.

Som do Norte - Essa é especial para o Saulo: quantas bandas você integra atualmente? Como é que você concilia o trabalho no Caldo de Piaba com as outras? O Miúda e o Di Deus também têm projetos paralelos ao Caldo?

Saulo - Atualmente faço parte do Caldo de Piaba e toco baixo na banda Mogno. Não há muito problema pra conciliar, pois todos fazem parte de um mesmo núcleo de amizades, que frequentam os mesmos lugares, ouvem coisas parecidas. No entanto, os integrantes da Mogno tem consciência de que a prioridade atualmente é o Caldo. Também faço parte da Filomedusa, mas a banda tá parada há alguns meses, nosso último show foi no Varadouro 2009. O Di Deus, depois de passar por outros projetos no ano passado, atualmente se dedica exclusivamente ao Caldo de Piaba. Já o Miúda tem como prioridade o Caldo de Piaba, mas toca também na banda Mapinguari Blues.



Mapinguari Blues no Varadouro 2009

Som do Norte - Como é que vocês avaliam o momento para as bandas instrumentais? Pode-se falar em consolidação desta cena?

Caldo de Piaba - Há muito tempo que existe um cenário forte de música instrumental no Brasil, desde a década de 1960 com a Bossa Nova, nos anos 70 com Hermeto Paschoal e, lá no Pará, a guitarrada do Mestre Vieira. Talvez o que esteja acontecendo nos últimos anos é que bandas instrumentais estão ocupando espaços em festivais independentes, no meio de bandas de rock, e outros estilos. Isso faz com que pessoas que não se ligam em música instrumental comecem a prestar atenção no segmento. Bandas como Macaco Bong e Pata de Elefante assentaram o terreno pra que outros grupos instrumentais como Burro Morto (com quem tocaremos agora em abril no interior de Minas e São Paulo) seguissem e consolidassem essa trilha. Talvez o que esteja acontecendo com a música instrumental seja a continuação do que já rolava antes: a experimentação com novos estilos. A internet ajuda muito nesse processo de intensificação de trocas, mas isso é na música em geral.

Som do Norte - Ao ouvir a entrevista com vocês que a Rádio Microfonia (ao lado, as poses dos piabas para a câmera do estúdio do Microfonia) colocou no ar em 23 de março, tive a grata surpresa de ouvi-los apontando como influência direta para a criação da banda os show de La Pupuña (Pará) e Bareto (Peru), no Festival Varadouro 2008. Para mim também elas foram destaque daquele festival, cuja cobertura realizei para meu site Jornalismo Cultural a convite do Coletivo Catraia - aliás, essa minha viagem ao Acre está diretamente ligada ao surgimento, um ano depois, do Som do Norte, de modo que fiquei sabendo agora que temos essa origem em comum. Pra encerrar a entrevista, então, vocês querem deixar algum recado para os leitores do blog?

Caldo de Piaba - Agradecemos a oportunidade de conversar com o Som do Norte, que em pouco tempo tá se transformando num importante elo na conexão dessa nossa ampla região. Acredito que muita gente hoje acompanha a movimentação da região pelo Rapidola. Desejamos sucesso na continuidade desse trampo, e aproveitamos pra convidar os leitores pra seguirem nosso diário de bordo no www.piabanokombao.blogspot.com, onde também podem acessar o link pra baixar o EP.

Som do Norte - Muito obrigado!!

Caldo de Piaba - Valeu!

***

Aqui na nossa caixinha cantante você pode ouvir as quatro músicas do EP lançado em março pelo Nagulha.


Som do Norte

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4 comentários:

  1. Legal, Fábio!
    A segunda foto é de um show em São Carlos, no Palquinho Maluco da UFSCar, e não em São Caetano, onde também tocamos naquela semana.

    Abraço,
    Di Deus - Caldo de Piaba

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  2. Que bom que vocês gostaram, Di Deus!

    Pois é, eu li certo (UFSCar) e escrevi errado... Essa é uma foto que até já tinha sido publicada no blog durante aquela semana mesmo. Correção já!

    Abraço

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  3. Só pra contar

    A música instrumental no Brasil tem uma tradição até bem anterior aos anos 60 se levarmos em conta o mestre Pixingunha.

    Abraço

    Pio

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  4. Meu caro Pio,

    Quando fiz a pergunta, tinha em mente o cenário atual, em que pela primeira vez parece irrelevante ao público ter alguém cantando - poucos dias antes de enviar as perguntas, eu escrevera a respeito num texto sobre os baianos da Retrofoguetes (http://prosaemverso.com.br/index.php/2010/03/23/retrofoguetes-ativar/).

    Entendi que a resposta do Caldo de Piaba está no contexto de 'show de música instrumental', que entre nós remonta sim à época da Bossa Nova. Ruy Castro, em 'Chega de Saudade', observa isto: antes da Bossa Nova, músico brasileiro não fazia show.

    O grande Pixinguinha, que você menciona, não fazia shows com seu regional nos teatros, o espaço privilegiado para sua criação era o disco e o rádio (onde quase sempre os regionais tinham por função primordial acompanhar cantores e calouros, e executar trilhas sonoras ao vivo). Antes dele, um gênio como Ernesto Nazareth chegou a ganhar o pão de cada dia tocando em sala de espera de cinema. Outros locais onde havia muita música instrumental ao vivo eram os cafés, os bailes, as festas religiosas... se recuarmos por este caminho chegaremos lá em meados do século 18 aos grupos de 'música de barbeiros', que conheci através de um livro do Tinhorão. O que havia em comum em todas estas ocasiões? Os músicos estavam, o mais das vezes, fazendo o papel hoje reservado ao 'som ambiente', não exatamente criando - o que só passou a acontecer, com continuidade, após a Bossa Nova.

    abraço

    Fabio

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