Aqui se fala do som dos estados do Norte do Brasil: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins

quarta-feira, 24 de março de 2010

Na Trilha do Asfalto com a Veludo Branco (1)


Primeira parte do depoimento do vocalista e guitarrista da banda Veludo Branco, de Boa Vista, sobre a recente turnê pelo Rio Grande do Sul, na semana passada.

Por Victor Matheus

Sonho também é realidade

Ainda garoto, despertou na minha alma o amor pelo rock'n’roll. Passava horas grudado na guitarra, no violão, ouvindo, lendo, escrevendo e sonhando com a vida na estrada. Queria ser igual aos ídolos grudados na parede do meu quarto. Fazer solos de guitarra inspirados como o Slash, banguear como Angus Young e ter o feeling de Jimi Hendrix. Tocar com amigos, fazer shows, executar minhas músicas, ouvir o público pedir bis, viajar de ônibus, carro, avião, barco, dormir em hotel, banco de aeroporto, casa de estranhos, viver de música, e acima de tudo viver música.

Após 9 anos de ter feito meu primeiro show, na praça Ayrton Senna, em Boa Vista (RR), hoje posso dizer que sou um cara realizado naquilo que mais amo fazer: Música. Não tiro meu sustento dela, não pago minhas contas com ela, não faço megaturnês, minhas músicas não tocam na Transamérica, e nem os clips na MTV, muito menos ganho disco de platina, ou sou reconhecido na rua como um rock star, mas do pouco que já vivenciei com a Veludo Branco, já me basta para estar feliz, me olhar no espelho e dizer a mim mesmo que eu consegui chegar lá! É algo que não tem preço e nem se pode mensurar, é viver a música pelo prazer dela, e não pelo compromisso, pela formalidade, mas somente pelo prazer de estar no palco, mesmo que seja por apenas 30 minutos e saber que pra chegar lá você encarou 12 horas de avião, 5 horas de ônibus, 2 horas de sono, sem dinheiro no bolso, com a barriga colada nas costas de fome, para estar lá, em cima do palco, fazendo o que realmente te faz feliz de verdade.

Durante 7 dias, pude viver mais uma vez este sonho ao lado de 2 caras, duas amizades de valor incalculável para mim, do outro lado do Brasil. O mesmo sonho dos meus 13 anos. O mesmo sonho do garoto que punha o violão nas costas em pleno meio dia, subia na bicicleta e pedalava 6 km pra ir ensaiar num cubículo de 2x2 na casa dos amigos e sentia-se o garoto mais feliz do mundo por estar ali fazendo o que mais gosta, a música.


Nunca Fiz amizade Bebendo Leite

Caímos na estrada, ou melhor, no ar no dia 14 de março. Após 12h de vôo, a cidadezinha de Eldorado do Sul foi escolhida como nosso QG por fatores óbvios: hospedagem free na casa da minha tia Dedeti, deslocamento fácil e rápido para Porto Alegre e Grande Porto Alegre, e o mesmo clima de interior da nossa Boa Vista.

No primeiro dia (domingo) não tivemos show, e só havia chegado o Matuza e eu, já que o Mirocem só tinha previsão de chegar, por causa do trabalho, no dia do nosso primeiro show (17/3) em Porto Alegre. Então resolvemos explorar o ambiente. Encontramos a duas quadras do nosso QG um boteco, mas boteco mesmo, onde só alguns maltrapilhos beberrões estavam enxugando cerveja, conhaque e cachaça. Resolvemos encostar. Começamos a tomar uma geladíssima Polar (mas não a da Venezuela), enquanto observávamos o lugar, as pessoas, o clima. Percebemos muitas semelhanças com nossa terra, a começar pela praça que ficava na frente do boteco. Já era mais de uma da manhã e lá se encontravam alguns metaleiros, que nós costumamos chamar de True Metals brincando no balanço da praça. O que chamou a atenção, além da bizarrice de ver aqueles cabeludos de preto sorridentes no parquinho foi o que eles faziam na seqüência: balançavam-se até a maior altura que conseguiam e se tacavam no ar em um “mortal duplo twist carpado invertido”, caindo de cabeça no chão, e dando gargalhadas depois do feito “olímpico”. Realmente algo totalmente pitoresco para nós, e que nos rendeu boas gargalhadas também. Até então, entre uma cerveja e outra, o dono do bar trocava uma idéia rápida conosco. Lá pela quarta garrafa ele já estava sentado na mesa conosco e contando sua vida particular. É por isso que digo que nunca fiz amizade bebendo leite (risos). Naquela mesa de bar, descobrimos um cara que foi um baixista frustrado, divorciado, ex-mórmon, técnico em informática, dono de boteco, estudante de teatro, e um ninfomaníaco com taras por mulheres de óculos (risos). Realmente algo bem exótico para uma cidadezinha de 5 mil habitantes do sul do Brasil.

Com o frio batendo nas canelas, e nós, sem nenhuma noção de ter levado roupa de frio, resolvemos voltar pro QG e nos abrigar na calefação (2 camisetas, meias nas mãos e pés, 2 edredons e calça jeans) e curtir a embriaguez adquirida no boteco que batizamos de “Bar do Mórmon”. Mal sabíamos que somente tinha começado nossa aventura pelo sul do país e que ainda boas histórias estavam para vir, com muitas risadas, gafes, imprevistos, apertos e lembranças para o resto de nossas vidas. (continua...).

Nenhum comentário:

Postar um comentário