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sexta-feira, 26 de março de 2010

Massa Grossa: Pra começo de conversa...


por Pio Lobato

Por volta de 97, eu achava que os grupos que faziam música na cidade de Belém ganhariam muito mais quando se conhecessem, descobrissem o repertório uns dos outros e deixassem de lado discussões quase xiitas sobre estilo ou estética. Então incluiriam em seus próprios repertórios, sem paranóias ou preconceito, músicas feitas pelo vizinho.

Ao contrário do que muita gente pensa, eu acredito que a cena nasce diretamente da criatividade de músicos, de como se relacionam entre si e como trocam “recados musicais” dentro de uma experiência comum, o resto é natural: gestão financeira, marketing e propaganda são necessários pra qualquer produto, desde um botão, um carro ou qualquer daquelas marcas de cerveja super aguadas que te convencem a beber só porque são mais baratas, isso é o básico, nada além.

Eu e o amigo Tiago Sá decidimos fazer uma coletânea em CD, a primeira da cidade nesse formato, pedimos a alguns músicos e grupos que tinham gravações minimamente razoáveis que cedessem duas músicas cada, o preço final foi exclusivamente para cobrir os gastos com CD’s, papel, tinta e embalagem.

Entramos na coletânea eu, Cravo Carbono, Mangabezo, Iva Rothe, Maria Fecha a Porta (Lu Guedes), Norman Bates e Moonshadow. A coletânea se chamou Massa Grossa e foi feita em CD-R. A capa tinha uma ilustração do livro Nutrição e Vigor, um clássico dos anos 60 e 70, o disco vinha ainda num saquinho de papel de pão que compramos numa dessas lojas de variedades. Fizemos uns 30 CD’s que acabaram num dia só, oferecidos num show, o problema é que não me lembro agora quem tocou nesse show.

Hoje faz mais de 10 anos da iniciativa e, enfim, cá estamos nós. Pra lembrar o projeto pensamos em fazer um show, mas os shows dão muito trabalho e acabam em si mesmos (penso eu), então preferi montar algo menos trabalhoso, mais simples e mais duradouro. Daí a idéia do blog, o show virá em segundo plano.

Em 97 queríamos mostrar que havia “bandas produzindo”, hoje esse estágio de divulgação inicial já não é tão necessário. A internet facilitou muito a vida de todas as bandas. Então achei melhor mudar o foco do projeto e chegar mais perto do que é realmente necessário, o que realmente me interessa.

Entre as coisas que mais gosto no trabalho com a música é perceber o processo de como são feitas, como as músicas nascem crescem e (porque não?) morrem, algumas instantaneamente, outras levam meses, anos, algumas são curtas, outras imensas, muitos instrumentos, poucos, partem de imagens, letras, sons, experiências, são cerebrais, devaneios, rompantes, enfim, são inúmeras variantes que tornam toda a história de cada música muito mais interessante.

Pessoalmente, a sensação é semelhante de quando termina o jogo de bola e as pessoas comentam detalhes das jogadas, com o entusiasmo de ter aquele momento pra si, de se exaltar, de comemorar, contestar, de fazer parte daquilo realmente, o momento é seu patrimônio pessoal e ninguém mais o tira de sua vida.

Assim percebo a música. Da mesma forma que o atleta, torcedor, comentarista se envolve no esporte, muita gente se envolve com a música. É quase uma seita, uma devoção, basta ver a forma apaixonada com que os fãs defendem seus artistas, seus ídolos, suas canções, sem sequer tomar conhecimento do processo. Talvez isso não seja nem necessário pra todos, mas só ficaremos sabendo se isso vier à tona, se estiver disponível, ora, há alguns anos atrás também nem existia computador, ou vamos mais longe, caneta esferográfica (o que Camões diria de uma), portanto só vamos saber se o fizermos.

O comum é tratar do ouvinte como o fim da linha, única e exclusivamente consumidores. Alvo da cadeia produtiva, procedimento que afasta o ouvinte de outro prazer, o de acompanhar o processo. Priva-lhe da participação.

Sabe-se que na quase totalidade do que se escreve por aí sobre música ignora muito de música, escreve-se sobre bibliografia, performance, carreira, influências, estilo, cenário, proposta etc etc etc, tudo e ao mesmo tempo nada, com frequência o trabalho do músico funciona como pano de fundo para construir textos “virtuosos”de um jornalista “cultural” qualquer. Isso realmente não me incomodaria se não fosse visto por quem busca informação sobre música como referência.

Viemos de anos e anos da indústria musical baseada na promoção da música pronta e acabada, dificilmente alguma resenha vai traduzir o processo de construção, está fora do alcance, fora dos contornos tradicionais do jornalismo musical, é um universo que pertence exclusivamente a quem se envolve com ele, quem está de fora está descontextualizado, a crítica musical tem que estar desvinculada da preferência. Esquecer disso gera e consolida bobagens comuns, como aquela em que se diz que “música é dom”. Ainda acho que música é só comunicação.

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