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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Ouvindo Junto: A Flor

"Ouvindo Junto" é uma nova seção aqui do blog, na qual a gente conversa com um artista do Norte sobre um CD seu, faixa por faixa. A primeira pessoa em quem pensei para estrear o novo espaço foi a cantora e compositora paraense Lia Sophia, ainda no ano passado; por questão da agenda de ambos, porém, só agora pudemos concluir - o que também foi legal, pois assim o "Ouvindo Junto" do Castelo de Luz entra no ar justamente na ocasião em que ele é o Disco do Mês do Som do Norte! Conversei com Lia sobre seu CD através do Skype e do MSN nos dias 22 de setembro de 2009 e 7 e 8 de janeiro de 2010. Hoje e nos próximos 12 dias, você poderá conhecer de perto o processo de trabalho da artista; a cada dia, entra no ar uma nova canção, com a respectiva análise. Acompanhe, OuçaCastelo de Luz Junto conosco!

 A Flor  (Lia Sophia)



Lia Sophia - Esse disco é importante pra mim por me ensinar ou reafirmar uma maneira de escrever, de compor. “A Flor” é uma música que exemplifica bem isso. Fala de apaixonamento por pequenas coisas, "detalhes tão pequenos de nós dois", como diria o rei Roberto Carlos (risos). De cheiros, do cheiro das palavras, de proximidade que se deseja manter com o outro. Essa música brinca um pouco com os nossos sentidos a partir do hálito de alguém amado. Nesse caso, o meu amor!!!

Fabio Gomes – Sim, muito legal isso, é uma música de amor feliz, os metais levam bem a alegria do tema.

Lia - Tudo isso de forma leve. Por isso o arranjo mais dançante, e os sopros que fazem o contracanto. O disco todo tem uma "tendência" ao amor e à alegria.

Fabio – A Ana Peres disse n’O Liberal (“Lia Sophia inicia temporada no Relicário”, 3/6/09) que em “A Flor” “é possível perceber o toque regional das guitarradas, no groove de guitarra criado por Davi Amorim.” Mas depois de ouvir Mestre Vieira eu sinceramente não estou detectando nada de guitarrada na música. Tá mais pra influência das Big Bands, pelos sopros. 

Lia - As guitarradas são um modo de tocar o instrumento, com notas curtas e quase sem nenhum efeito de pedais.

Fabio – E tem isso n’ “A Flor”?

Lia - No início de “A Flor”, logo depois do piano, há um groove de guitarra que traz a leitura das guitarradas, e se repete ao longo da música.

Fabio - Ok, eu identifiquei esse groove, mas achei curto para rotular como guitarrada, e tem aqueles metais que “roubam a cena”.

Lia - É claro, de forma sutil, não pretendíamos deixar marcado o estilo das guitarradas nesta música ou ao longo do disco, de maneira nenhuma. E é claro que a marca que se deixou foi exatamente a das Big Bands, era o que pretendia valorizar. Fazer uma música atual, com uma linguagem contemporânea, mas com elementos de música que a vovó ouvia.

Fabio – A sua interpretação está excelente. Em relação à melodia, do começo até o verso “manifesta assim”, você tem um tema que começa com o acorde Dm7/9, e depois que entra o refrão fica sempre a seqüência de C7+ C7/9- até Bb7/9 C7+. São dois temas?

Lia - São dois momentos da música. Ela inicia num tom menor que cria um clima mais ameno, para o que se está dizendo, depois cresce com o C7+ , é como se desse ênfase ao que está sendo dito.

Fabio – Sim, é o mesmo efeito de “Chega de Saudade” (Tom Jobim – Vinicius de Moraes), tom menor na 1ª parte, tom maior na 2ª, lá marcando diferença de tristeza e alegria; o detalhe é que você usou esse efeito em duas partes de alegria.

Lia – Sim, aqui não é uma questão de alegria e tristeza, e sim de ameno e crescente. Normalmente os acordes menores são usados para denotar tristeza e os maiores alegria, vale o seu comentário sobre “Chega de Saudade”. No caso de “A Flor”, este recurso foi usado de forma não convencional, ou seja: apesar de letra não ter nada de triste, o acorde menor funciona para trazer um clima ameno para o que está sendo declarado. E mais tarde há um crescente, uma ênfase com o acorde maior. Apesar de não haver mudança na tonalidade da música, que é C+.

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