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sábado, 16 de janeiro de 2010

Na Rede: Os Mocambos, pioneiros na gravação do marabaixo

Na terça, 12 de janeiro, o escritor e compositor Fernando Canto relembrou em seu blog Canto da Amazônia histórias do grupo Os Mocambos, pioneiro nos anos 1970 na gravação do marabaixo, ritmo tradicional afro-amapaense que até então não era muito bem visto pela sociedade. A foto mostra o grupo no baluarte de Nossa Senhora da Conceição da Fortaleza de São José de Macapá, em 1973, mesmo ano, segundo Fernando, da gravação do disco Marabaixo

Da esquerda para a direita: Hernani Guedes (violinista), 
Guimarães (saxofonista, tecladista, arranjador),
Fernando Canto (guitarra base e vocal),
Aldomário Henriques (guitarra solo e vocal), 
Zé Maria Teles (contrabaixo), Tito (Cícero) Melo (voz) 
e Pedro Balieiro (bateria)

Eu já conhecia a história da gravação desse LP, contada pelo criador do grupo Os Mocambos, o violonista Hernani Victor Guedes, no artigo "O Primeiro LP Independente do Amapá", publicado no livro Rumos_Brasil da Música, lançado pelo Itaú Cultural  em edição de circulação dirigida em 2006, e hoje indisponível - o livro não se encontra à venda, nem tem seu texto disponibilizado pelo site do instituto (esta, aliás, é a grande falha das ações do Itaú; suas ótimas iniciativas de registro da cultura brasileira são lançadas em circulação restrita, e depois somem, não há a preocupação em mantê-las acessíveis posteriormente). 

Voltando ao LP: o ano da gravação é citado por Hernani como sendo 1971. O disco inteiro, 12 músicas, foi gravado numa única noite, no mês de maio daquele ano, numa sala improvisada como estúdio numa residência em Macapá. Vale a pena relembrar o relato de Hernani, já que o livro não deve ser mesmo relançado. Natural de Cametá, Pará, e farmacêutico de profissão, Hernani chegou ao Amapá em 1950, aos 26 anos, para trabalhar no Hospital Geral de Macapá, e tocar seu violino nas horas de folga. Antes disso, já tinha conhecido o marabaixo, em viagens que fizera ao então Território Federal do Amapá desde 1946. Mas uma coisa lhe chamava a atenção: "Em Macapá quem dançava marabaixo ou batuque não era convidado para os bailes sociais".

Algum tempo depois quem era convidado com frequência, para tocar, era justamente Hernani, ou melhor, seu grupo Os Mocambos, ativo por volta de 1963, que junto com Os Cometas era quem animava os bailes da capital. Por volta de 1968 lhe ocorreu levar o marabaixo ao disco; o grupo concordou em gravar um LP com 6 músicas autorais e 6 marabaixos. Numa ida a Belém, combinou a gravação com seu amigo, o fotógrafo Alberto Uchoa, que tinha um gravador de teclas com microfone. Uchoa se interessou, ficando de levar o equipamento de gravação para Macapá e depois entregar o  material registrado à  gravadora Rozenblit, em Recife. Deu-se então a gravação das 12 músicas, numa sala improvisada e em um tempo recorde de quatro horas, das 22h às 2h. Como às 4h Uchoa já pegava o vôo para Pernambuco, o grupo gravou e não pôde ouvir o resultado em seguida.

Aliás, demorou para ouvir! Em julho se soube em Macapá que a fita cassete que Uchoa levara havia sido roubada da pousada onde ele se hospedara no Recife. Coincidiu que Hernani soube da notícia quando recebia a visita de Livaldo, dono de laboratório farmacêutico da capital pernambucana, que se comprometeu a localizar o material. Botou um detetive atrás da fita, enfim localizada num sebo recifense em setembro!! Livaldo providenciou a entrega do material à Rozenblit e passados mais oito meses o LP Marabaixo chegava a Macapá "para alegria de de todos os componentes do grupo Os Mocambos, familiares e a comunidade negra", relembra Hernani.  

O lançamento foi feito no bairro do Laguinho, onde Hernani conhecera o marabaixo ainda nos anos 40 na casa de mestre Julião. A prova do acerto da ousadia não tardou: a diretoria do Círculo Militar, "na época clube fino, da alta sociedade local", convidou Os Mocambos para lançar o disco num baile do clube. Era um respaldo considerável: "Desse dia em diante o chique era dançar o marabaixo nas festas onde Os Mocambos tocavam."

Voltando ao texto de Fernando: ele conclui dizendo que "o disco chegou a Macapá e obteve muito sucesso nas rádios, aparelhagens de som e nos bailes. Suas músicas (...) tocavam até no Carnê Social (aquele programa que oferecia músicas aos aniversariantes e recém-nascidos, aos que casavam ou aos que eram batizados)...". Leia o texto completo no Canto da Amazônia.

3 comentários:

  1. Legal! O Tito, que cantou ´Devaneio´ e o Pedro Balieiro, trabalharam na Radional que era do lado de casa na Av Mendonça Furtado. O Fernando Canto o conhecia desde do laguinho. Muito bom reve-los aquí.

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    1. Olá, tenho uma fita cassete com dois discos gravados (lado A e lado B) de uma coletânea chamada NOSSA MÚSICA com uma música Pirarublue, de Natascha Andrade (MPA - música popular amazonense) de 1990. Alguém conhece? Como posso saber mais informações? (contato: marceleto67@gmail.com)

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    2. Não conheço o disco citado. Fica o comentário no blog para que quem tenha informações possa entrar em contato com vc.

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