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domingo, 3 de janeiro de 2010

Diz Aí: Salomão Habib

O violonista paraense Salomão Habib esteve fora de Belém nos últimos quatro meses do ano passado. Selecionado pelo SESC, percorreu o Brasil na turnê Sonora Brasil, ao lado do músico paranaense Fabrício Mattos; ambos interpretaram músicas escritas para violão, tanto eruditas quanto populares, de autoria de compositores nortistas e sulistas.  Tive o prazer de conhecer Salomão pessoalmente em 13 de setembro, quando de sua passagem por Porto Alegre. Já em casa novamente, Salomão nos respondeu esta entrevista por e-mail no dia 30 de dezembro, contando detalhes da turnê. 


 
Som do Norte - Salomão, você concluiu no dia 16 de dezembro de 2009 uma série de 80 concertos iniciada em agosto no Paraná. Que balanço você faz dessa maratona?

Salomão Habib - A vida de todo profissional é marcada por fases e acontecimentos que tomam ares de divisores de água! Não tenho dúvidas em afirmar que a turnê por 80 cidades de todas as regiões do Brasil, por sinal um recorde em se tratando de turnê individual, foi um divisor de águas de minha carreira, não havendo precedentes que igualasse até hoje em número de concertos e extensão territorial. Esse trabalho me fez olhar a música de outra forma. O Brasil não conhece o Brasil. São tantos Brasis num país continental, que milagrosamente fala do Caburaí ao Chuí a mesma língua, que ficamos extasiados e necessitamos um tempo para digerir as diversidades culturais existentes em nosso país. A situação se agrava para quem como é o meu caso, é compositor; tudo tem uma tendência a se transfomar em Música!!!!! Já compus 14 peças descritivas; elaborei e compus 12 peças populares e ainda estou terminando de escrever um livro sobre arte musical brasileira. 

Som do Norte -  Participou da turnê também o violonista paranaense Fabrício Mattos, tocando música instrumental do Sul. Como foi montado o repertório, cada um escolheu os números solo que iria tocar, ou vocês tiveram oportunidade de montar o roteiro em conjunto? Houve alterações de repertório ao longo da temporada?

Salomão Habib - Fabrício Mattos é um jovem e brilhante violonista. Nos conhecemos num dia e no outro praticamente já estávamos com o pé na estrada para tocar como se nos conhecêssemos há muitos anos, não foi para enganar a platéia e sim a nós mesmos! (risos). O meu parceiro de viagem foi um presente,  pois ganhei um amigo de caráter, um parceiro honesto em suas atitudes e acima de tudo determinado em doar-se ao instrumento e elevar seu nome! Fabrício é um músico singular! Estou compondo para ele uma suíte amazônica. Pelo fato do repertório do Fabrício ter um apelo claramente contemporâneo em sua estrutura - ou seja, peças de caráter eminentemente erudito pela própria formação dos compositores por ele escolhidos -, decidimos que sua parte seria a primeira, logo após o duo inicial com uma peça representando a região Sul intitulada "Capelinha", de Cláudio Menandro, na sequência o Fabrício realizava seu concerto, e depois eu. Procurei levar a essência da música amazônica, que tem um caráter mais brejeiro e tropical do que a música do Sul. O carimbó, dança praiana do Norte do Brasil, executada por pescadores na saída para o alto mar, foi transformado em peça de concerto, fato em que me tornei um especialista, sem presunção. Hoje tenho 19 carimbós compostos na forma de peças de concerto, fora as músicas indígenas transcritas por mim, algumas delas com variações que fiz. Para a turnê, selecionei músicas de Tó Teixeira, Catiá, Vaíco, Nego Nelson, Sebastião Tapajós, Waldemar Henrique, Cláudio Santoro, além dos carimbós de minha autoria. Ao final de minha parte eu chamava o Fabrício para juntos tocarmos a peça "Batuque no Paracuri", carimbó que escrevi para dois violões. 


Som do Norte -  A música instrumental da Amazônia é pouquíssimo conhecida em outras regiões. O que você pode dizer quanto à receptividade da platéia? Em que lugares você acredita que o público se identificou mais, e menos, com o que ouviu?

Salomão Habib - Para minha surpresa, quando eu falava em carimbó, muitas pessoas por todo o Brasil, mais especificamente no Centro-Oeste e Nordeste já conheciam o carimbó!! Até no Sul as pessoas já tinham ouvido falar do gênero e sabiam cantarolar alguns. A platéia nos recebeu muito bem; senhores, senhoras, crianças, adultos, músicos, lavradores, doutores, policiais, enfim todos os extratos sociais frequentaram as salas de nossos concertos.  E o que mais me admirava era que, fosse quem fosse, sempre estavam ali por um motivo específico: ou porque o filho toca violão; ou pelo fato de, além de policial, ser colecionador de discos de violão; ou pelo fato de ser médico e músico, juiz e músico, engenheiro e músico, e é claro que não se tratavam de músicos profissionais mas de pessoas que tiveram tudo para sê-lo mas foram obrigados, por falta de coragem de enfrentar a lida, a escolher um caminho mais "seguro" financeiramente,  digamos assim. O Nordeste, mais especificamente Pernambuco, ao lado de Vitória, Manaus, Paraná e Acre foram os lugares em que, além de termos obtido a maior frequência de público, registramos maior sinergia entre músicos, platéia e artistas locais.

Som do Norte -  Os concertos do Rio de Janeiro e Recife foram gravados, não é? Quando é que este material deve sair em CD e/ou DVD?

Salomão Habib - Gravamos em Recife a parte do CD e no Rio de Janeiro a do DVD. A gravação foi feirta no próprio teatro do SESC, no Departamento Nacional do Rio de Janeiro, sob a coordenação de Dirceu do SESC Paraná, Wagner e Gilberto do SESC Rio. Ainda não sabemos quando sairá.

Som do Norte -  Afora esse lançamento ligado ao projeto, você já tem planos para novo CD ou recital para 2010?

Salomão Habib -  Sim!! Tenho concertos agendados para 12 de janeiro, 8 de março e 30 de maio de 2010 em Belém. Em julho, devo ir ao Líbano fazer alguns concertos em Beirute, terra de minha amada e saudosa mãe. Fui convidado para tocar na Córsega num festival de guitarra e ainda estou em negociações. Lançarei um CD físico e outro virtual sobre música indígena brasileira, além de um meticuloso trabalho musical sobre a mitologia grega e o imaginário relativo da Amazônia. Espero também rever os amigos que fiz na turnê através de alguns concertos que devo fazer no Paraná, Rio Grande do Sul, Amapá e Pernambuco! Fabio, muito obrigado por seu empenho, seu amor pela música e sua imprescindível atenção conosco!!!



Salomão toca "Soldadinho de Chumbo" (Sebastião Tapajós)

Um comentário:

  1. marialeonina@hotmail.com3 de janeiro de 2010 14:00

    Fantástica entrevista,parabéns Fábio!
    Só você para nos brindar, nesse início de ano, com um bate-papo com o magnifíco violonista Salomão Habib, de quem tenho o privilégio de ser amiga a mais de uma década! Foi lindo o espetáculo em POA, pena que SESC local não investiu na divulgação e os gaúchos perderam a chance de conhecer os virtuosos artistas!
    Obrigada Fábio, sucesso e longa vida ao SOM DO NORTE e muitas realizaçoes em 2010! Muito sucesso ao Salomão e que possamos ve-lo em breve por aqui! bjs

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