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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

De Olho: Roraimeira

A TV Cultura reapresentou na noite desta terça, 1º de setembro, o documentário Roraimeira - Expressão Amazônica, dirigido por Thiago Briglia dentro da série DocTV. "Roraimeira", originalmente, foi uma palavra criada por Zeca Preto para batizar uma música que escreveu, e que passou a denominar também o movimento que agitou as artes do estado a partir de 1984 e o trio que Zeca forma com Eliakin Rufino e Neuber Uchôa.  Forma, no presente, pois mesmo que Neuber esteja hoje morando no Rio, os três sempre se mantiveram ligados, trabalhando juntos quando é possível.


Ao longo do programa, os três, juntos ou separados e/ou com outros artistas, cantaram várias músicas ligadas ao movimento, boa parte das quais forma o repertório do CD Roraimeira, o canto de Roraima que o trio lança pela Funarte - o primeiro ao vivo gravado em Roraima.

Uma marca forte do repertório é a referência contínua a Roraima, algo que a cantora Euterpe (nascida Andressa Nascimento) entende como a busca de uma identidade por um povo tão miscigenado e vivendo na fronteira.  Ter tantas referências ao estado não foi intencional, segundo Neuber: o próprio trio só as notou quando fez um show em Manaus no Teatro Amazonas ("a nossa Semana de Arte Moderna") naquele ano de 1984. Isto, porém, também não deve ser tomado à conta de regionalismo - ao menos não no sentido reducionista, quase pejorativo, com que a palavra costuma ser empregada.  O paraense Nilson Chaves, que foi o artista amazônico que o trio escolheu para participar do filme, disse que até certo ponto qualquer estilo musical é a expressão de uma regionalidade - "mesmo o jazz é um reflexo de um regionalismo urbano"; logo, não haveria absurdo maior do que alguém dizer: "Eu gosto muito da música do Nilson Chaves, mas ela é muito regional". 

Além de originar frutos em outras esferas artísticas - artes plásticas, dança, literatura e fotografia - , as diversas influências absorvidas da miscigenação do estado e das fronteiras próximas (salsa, cúmbia, baião, toada) geraram uma música forte que, paradoxalmente, circula melhor fora do Norte do que nele. Zeca Preto comenta que a música do trio e, por extensão, de Roraima, é muito bem aceita por gaúchos, cariocas e baianos (outros povos brasileiros com culturas locais fortes, disse ele - e, acrescento eu, também miscigenados), mas tem pouca circulação na próprria Amazônia. O ideal seria aliar o respeito de fora com a valorização interna - com a execução das músicas dos artistas da terra nas rádios locais, por exemplo. 

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