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terça-feira, 4 de agosto de 2009

Lembrando Walter Bandeira

Por Bruna Machado*


Minha relação com o Walter Bandeira foi totalmente única. Sempre fui fã daquela voz que marcou a vida de qualquer ouvinte da Rádio Cultura, que fui acostumada a escutar desde que me entendo por gente.

A voz do Walter era a cara da Cultura. Cansei de assistir o Minuto da Universidade só para poder falar “égua, a voz desse cara é única” e minha admiração por aquela voz só aumentava. E isso sempre me fez ir atrás do dono da voz mais linda que conheço. Quando o conheci como profissional da música, descobri o motivo de Deus ter lhe dado aquele dom: é porque ele sabe muito bem o que fazer com esse dom.


Eu lembro uma vez, quando ainda nem o conhecia muito bem, eu e minha família fomos para um show dele em Mosqueiro (PA) num bar, na curva da praia do Ariramba... Pedimos para ele cantar uma música que o Emílio Santiago gravou, chamada "Andança” (Danilo Caymmi - Edmundo Souto - Paulinho Tapajós). Ele não sabia muito bem a letra... E acabamos cantando junto com ele! Só que essa música não é qualquer música, pois lembro que, quando criança, meus pais escutavam muito Emílio Santiago e sempre fui apaixonada por ela, por motivos em especial que teria vergonha de contar aqui. Só sei que me lembro de ter terminado a música, cantando apoiada em um muro. Depois, pude analisar melhor aquela cena: nunca tinha escutado uma versão melhor do que aquela da música da minha vida. Tudo deu certo, embalado pela mais bela voz de todas as vozes.

Mas, quem diria, esse não foi o relacionamento que cultivei com o Walter. Um dia, tive a oportunidade de ser estagiária na Escola de Teatro e Dança da UFPA. Lembro quando me disseram para eu ligar para o professor de Voz e Dicção avisando que ele daria aula naquela semana. Quando vi quem era o professor, não acreditei. Era o mesmo que embalou a música de minha vida. Vi-me tremendo por dentro. Nervosa, liguei, com uma voz de “desculpa incomodar, sou uma simples mortal tendo que passar recados”. Não falei com ele, e sim com a mãe dele. Mas para mim já era muita coisa!

Em um belo dia na Escola, estava eu correndo com papeladas quando quase esbarro com ele e a diretora da Escola. Não sei de onde consegui forças e agir com naturalidade. Mas agi.

- Bruna, esse é o professor Walter Bandeira - me apresentou a professora, como se eu não soubesse quem era aquele homem enorme, que passa uma presença como ninguém.

- Então és tu a mocréia que fica ligando para minha casa, atormentando minha mãe? - diz o Walter, com um tom doce e brincalhão enrolado naquela imponente voz.

- Desculpe, professor, tentei falar com o senhor...

Ele ri e me dá um beijo. O homem, que antes sentia a voz tocando em mim, se torna um fofo, que me fez sorrir diversas vezes entre as inúmeras responsabilidades na Escola.

Com o tempo, notei que a companhia eterna dele era o cigarro, que o ajudou a ir embora. Sempre com um na mão, era rodeado por pessoas, muitos não acreditando que aquela voz era mesmo daquele homem. Dedicou a sua vida também à música, ao ensino e a mãe, com quem conversei em diversas outras ligações para lembrar o filho das obrigações em sala de aula. Ele a amou incondicionalmente, não saía de perto dela. Na Escola, nunca ouvi uma reclamação vinda daquele homem, assim como nunca ouvi ninguém reclamar sequer dos cigarros fumados dentro da sala fechada com ar condicionado (fui saber disso há uns dois anos). Dava aula mesmo que fosse para apenas dois alunos. Amou a Escola e a defendia como poucos.

A sala da secretaria, onde eu ficava, costumava ser o primeiro ponto dos professores que, por ‘n’ motivos, passavam lá. Em um dia, com a sala lotada de professores e funcionários da Escola, conversávamos e ríamos quando Walter entra na sala. Começam as brincadeiras, entregas de tarefas e coordenadas. Por um motivo o qual não lembro agora, Walter vira para mim e, antes de sair, pergunta:

- Tu te achas, né, garota?

Respondo como qualquer um responderia:

- Claro, professor (sempre o chamei assim, até mesmo quando o encontrava em shows e pela vida)! Além de linda, sou loira!

Ele, como uma forma de fechar do jeito “Walter Bandeira”, responde:

- Além de lindo e loiro, ainda sou gay!

Era gargalhada de todos, causada por uma frase que me fez marcar o Walter. Descobri, depois do fatídico dia, que ele usou muito essa frase depois do episódio, um bordão adotado por ele. É, eu tive culpa nessa criação!

Infelizmente minha vida profissional fez com que eu saísse da Escola, a maior fonte cultural que tive. Tenho muito orgulho de ter feito parte daquela família, que visito até hoje, quando posso. Muita coisa mudou, mas ainda lembro-me daquela atmosfera dos sorrisos que soltei lá. E ainda me alimentou o desejo de fazer teatro, atividade que prometi, inclusive, para o Walter, que me incentivou a fazer. “Tens presença, menina!”, disse ele, uma vez. Quem sabe, um dia?


Walter Bandeira no traço de J. Bosco

Entre diversas visitas à Escola e os Autos do Círio, me encontrei outras tantas vezes com o “professor” Walter. Em uma, numa dispersão do Auto do Círio, ele e a professora Inês (outra grande profissional que tive oportunidade de conviver) estavam passando enquanto meu pai tirava o carro para irmos para casa.

- Quero saber é do bofe que está com vocês - disse o Walter, depois de falar comigo e com minha mãe, deixando meu pai vermelho de um jeito muito engraçado. Conversou conosco com o fôlego de dever cumprido (o Auto é a paixão do Walter, digamos que o oxigênio anual dele). Não tem como esquecer aquele olho brilhando de satisfação.

Tentei, diversas vezes, que ele desse curso de voz e dicção para o curso de Jornalismo da UFPA. Por divergência de agenda (a dele principalmente, pois ele sempre priorizava “as aulas na Escola e o Auto do Círio”), nunca tive a oportunidade de ser aluna regular dele. Falo regular porque ele me ensinou algo que eu nunca vou esquecer: a cultura paraense, principalmente através da música e do teatro. Ele traduzia tudo pela voz.

No ano passado visitei o Auto e me lembrei daquele olhar do Walter. Pensei no orgulho que ele devia estar sentindo por, mais uma vez, colocar aquele espetáculo nas ruas da Cidade Velha. Uma mistura gostosa, de música, teatro, fé. Criticado diversas vezes por seu caráter profano, o Auto chegou, inclusive, a ser proibido. Mas a Mãezinha do Céu sabe que o Auto é uma manifestação de amor e mandou um recado avisando que gostava de ver Sua festa colorida e comemorada de um jeito, digamos, peculiar. O Auto é a cara do Walter: peculiar.

Lembro quando minha mãe disse, um dia no MSN, que ele estava hospitalizado no Porto Dias. “Ele tá mal, filha. É o pulmão dele, câncer”. Tremi. Sabes aquelas pessoas que você nunca vai imaginar que poderia, um dia, ser vencido? Imaginava isso do Walter. Mas eu sabia, pelo vício que ele tinha pelo cigarro, que aquilo não ia acabar nada bem. Rezei, pedi que Deus o mantivesse entre nós. Afinal, ele é a voz da cultura paraense.

Mas Deus tem algo melhor para ele e o chamou. Rebelde, resistiu um bom tempo. Mas cedeu. Ele deve saber o destino que Deus deu para ele, lá de cima. Vi através de uma chamada no MSN de uma estudante da UFPA. Não agüentei e senti uma lágrima rolando. Logo vieram em minha cabeça todos aqueles momentos que tive a oportunidade de rir com ele. Aquela voz... Não existe igual! É dele, unicamente dele! Não existe algo nem parecido. Uma terapia, um poema em forma de voz, que conseguia falar o que queria da maneira mais imponente e forte do mundo, saindo do ser humano mais paraense de todos os paraenses. E peculiar, claro!

Naquele dia na Escola da UFPA, ele só esqueceu de dizer uma coisa... Além de lindo, loiro e gay, ele é único.

*Bruna Machado é formada em Jornalismo pela UFPA.
Atualmente, mora em São Paulo.

2 comentários:

  1. Bruna,

    Chorei de novo...o Walter também choraria...foi o melhor escrito que li sobre a partida dele...beijos.

    Paulo Almeida

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  2. Bruna,

    Trabalho há 20 anos na TV CULTURA e tb fui amiga do Walter. Ele era o cara! Antes de morrer ele deixou uma recordaçã. Ele fez uma gravação pra mim, um pouco antes dele falecer. Então, como eu gostava demais dele, fazendo uma pesquisa no google achei o seu relato sobre o Wlter e postei no meu blog, claro, postato por vc. Se vc quiser ver, visite o meu blog...Obrigada!

    Surama Soares

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